Caio acordou antes do sol.
Era um hábito antigo, moldado por noites m*l dormidas e por uma vida em que baixar a guarda custava caro.
Mas naquela manhã, o motivo era outro.
Isadora.
Ela dormia de lado, os cabelos espalhados pelo travesseiro, a respiração calma demais para alguém que, sem saber, tinha virado o mundo dele de cabeça para baixo outra vez.
Caio ficou observando em silêncio, o braço ainda envolto ao redor do corpo dela, como se mesmo dormindo temesse que ela desaparecesse.
O olhar dele não era apenas desejo.
Era vigilância.
Era medo.
Era culpa.
Ele percorreu com os olhos cada detalhe do rosto dela, tentando gravar aquela imagem como quem guarda algo precioso antes da perda.
Porque Caio sabia nada na vida dele permanecia intacto por muito tempo.
— Você sempre foi minha fraqueza — murmurou, quase sem som.
Isadora se mexeu levemente, franzindo a testa, mas não acordou.
Caio afastou a mão com cuidado, levantando-se devagar. Vestiu a camisa, passou a mão pelo rosto e foi até a janela.
Santa Marina despertava lentamente. Barcos no porto, o som distante das gaivotas, o mar calmo demais para ser honesto. Ele conhecia aquele silêncio. Era o mesmo que vinha antes da violência.
O olhar dele endureceu.
Henrique não tinha feito aquele aviso na festa por impulso. Aquilo fora calculado. Uma provocação direta. Um lembrete de que o passado ainda tinha dentes.
Caio sentiu o peso da responsabilidade pressionar o peito.
Ele tinha prometido a si mesmo que Isadora nunca pisaria nesse campo minado.
E falhara.
Quando voltou o olhar para a cama, ela estava acordada, observando-o em silêncio.
— Você sempre fica assim quando pensa demais. — ela disse considerou.
Ele se virou lentamente.
— Assim como?
— Distante. — respondeu.
— Como se estivesse decidindo algo perigoso.
Caio caminhou até a cama e sentou-se à beira, apoiando os cotovelos nos joelhos.
— Estou.
Isadora se ergueu um pouco, apoiando-se nos braços.
— Sobre o quê?
Ele demorou a responder. Quando finalmente a encarou, o olhar estava diferente. Mais cru. Mais honesto.
— Sobre até onde eu vou pra te manter segura.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
— Isso não é só sobre proteção, é? — ela perguntou.
— Não. — admitiu. — É sobre controle. E eu odeio isso em mim… mas não consigo desligar quando se trata de você.
Isadora se aproximou, tocando o rosto dele com delicadeza.
— O seu olhar mudou, Caio.
Ele fechou os olhos por um instante, pressionando o rosto contra a mão dela.
— Porque eu vejo coisas quando olho pra você.
— O quê?
Ele abriu os olhos, fitando-a intensamente.
— Tudo o que posso perder.
O coração dela bateu forte.
— Você não pode me afastar por medo.
— Não. — ele respondeu.
— Mas posso te prender por amor.
As palavras ficaram suspensas no ar, densas demais para serem ignoradas.
Isadora deslizou os dedos pelo peito dele, sentindo a tensão sob a pele.
— O seu olhar — ela sussurrou.
— Ele não me assusta.
— Devia. — ele respondeu com honestidade brutal.
— Porque quando alguém ameaça você eu não penso. Eu ajo.
Ela não recuou.
— Então olhe pra mim agora.
Caio obedeceu.
O olhar dele se suavizou por um segundo, mas ainda havia fogo ali. Um fogo perigoso, protetor, quase obsessivo.
— Eu estou aqui. — ela disse. — Inteira. E escolhendo você.
Ele a puxou para perto, envolvendo-a num abraço firme, possessivo, como se precisasse sentir que era real.
— Se você ficar — ele murmurou junto ao ouvido dela não vai mais haver volta.
— Eu já voltei. — ela respondeu.
— Agora é você quem precisa parar de fugir.
O olhar de Caio escureceu, carregado de decisão.
Naquele instante, ele soube, não havia mais meio-termo.
Não havia mais sacrifício silencioso.
Quem ameaçasse Isadora enfrentaria tudo o que ele tentou enterrar por anos.
E o mar, lá fora, continuava observando.
Porque o olhar de Caio não era apenas amor.
Era promessa.
E era guerra.