Mara
— Nada pessoal, minha querida.
Eu me livro dele. Nada pessoal. Isso deveria significar algo para mim? Ele realmente acha que pode?
Ele agarra meu queixo, me forçando a olhar para ele. Seus dedos calejados são ásperos. Hematomas.
Cerro os dentes e cerro as mãos. Quero lutar com ele, mas não luto. Ainda estou com medo. Mesmo quando aquela vozinha na minha cabeça me diz que talvez fosse melhor se eu lutasse.
Se ele perdesse a paciência.
Se ele simplesmente me matasse.
Porque o que está por vir será pior.
Meus olhos ardem com lágrimas e no momento que ele as vê, sua expressão muda. Sua cabeça inclinada para o lado, um nó de sua mão livre enxugando a gota que descia pela minha bochecha.
— Doce menina. — Seu polegar pressiona meu lábio inferior. — Bela menina. É uma pena que teve que ser assim.
Ele me solta e eu dou um passo para trás.
— Apenas me deixe ir — tento, mesmo sabendo que não adianta. Não é minha culpa, quero dizer a ele. Mas isso não importa, não para ele. E além disso, de certa forma, a culpa é minha. Eu disse. Fui avisada para não fazer isso. Inferno, fui espancada para não contar. Para esquecer. Mas não esqueci. Nunca consegui, por mais que tentasse.
Ele move a boca em um sorriso que, se eu fosse ingênua, pensaria que era para me confortar. Mas não sou ingênua. Qualquer inocência que eu tivesse, ele roubou. Ou talvez tenha sido Felix antes dele quem a roubou.
— Se eu fizer isso, não haverá lição para aquela cobra, não é? Não, Mara — ele experimenta meu nome. Soa estranho em sua língua, seu sotaque é muito forte, o desgosto que ele sente é muito palpável. — Mas Leo vai ficar com você — diz ele, apontando por cima do ombro para o soldado. — Ele vai garantir que você não se machuque. Não muito, pelo menos — acrescenta ele, como se fosse uma reflexão tardia. Como se eu fosse uma p***a de uma reflexão tardia.
Chamo a atenção de Leo. Um canto de sua boca se curva para cima em um sorriso de escárnio. O que eu daria para cravar minhas unhas em suas órbitas e arrancar seus olhos da cabeça. O que eu daria para machucá-lo apenas uma vez. Porque não tenho dúvidas de que ele vai aproveitar as próximas horas.
Petrov se vira, caminha em direção ao soldado e lhe dá instruções em russo. Tento entender o que ele está dizendo, mas nos últimos cinco anos ele só falou inglês comigo e instruiu qualquer pessoa que me encontrasse a fazer o mesmo, então as poucas palavras que consegui aprender não ajudam. Não que eu precise entender o que eles estão dizendo para saber o que está por vir. Ele explicou essa parte detalhadamente.
Coloquei minha mão no quadril. Juro que ainda sinto a queimadura de sua punição. Mas a culpa foi minha. Eu deveria ter mantido minha boca fechada.
E então o que?
Por quanto tempo eu realmente esperava que ele me mantivesse viva quando ele já estava cansado de mim? Não sou tão jovem antes e gosta de jovem.
Meu estômago revira com o pensamento, e canalizo todo o meu ódio em suas costas, seus ombros grossos, cintura larga. No rolo de gordura em volta do pescoço e na cabecinha com cabelo curto estilo militar. Seu cabelo está recuando e a careca na parte superior está aumentando. Ele borrifa algo no couro cabeludo que acha que esconde, mas todos riem pelas suas costas. O problema é que ninguém ousa fazer isso na cara dele.
Vou até a janela e abro as pesadas cortinas cor de vinho. Ele não poupou despesas com o aluguel da suíte presidencial para o evento. Minha despedida.
Está chovendo. Olho para a rua lá embaixo, as pessoas parecem formigas vinte andares abaixo. Eu pularia se pudesse abrir, mas as janelas não abrem. Acho que o hotel não arriscaria. Além disso, eu me conheço. Sou muito covarde para fazer isso.
Soltando a cortina, entro no banheiro novamente desesperada para me afastar deles, mesmo que seja só por um momento. É lindo. O luxo da banheira antiga com pés em forma de garra e piso de mármore. O afresco de campos e mais campos de papoulas vermelhas selvagens soprando na grama alta e verde nas quatro paredes, o céu mais azul que já vi no teto. Eu gostaria de poder correr para esses campos. Sinta as delicadas pétalas contra minhas pernas, a grama macia sob meus pés descalços.
Mas então ele chama meu nome.
Está na hora.
Eu gostaria de estar doente, mas não comi o dia todo. Ele não me alimentou. Não seria bom eu vomitar em cima dos amigos dele.
Volto para o quarto e vejo o terceiro homem que acabou de entrar. O médico. Vê-lo aqui me faz estremecer.
— Tire a roupa — diz Petrov.
Arrasto meu olhar do médico para Petrov, sentindo o sangue sumir do meu rosto enquanto meus joelhos começam a tremer.
— Por favor, deixe-me ir — tento uma última vez.
— Você precisa de uma injeção?
Olho para o médico que tira a seringa pronta do bolso. Eu conheço essas injeções. Eles tornam meus braços e pernas inúteis, meu corpo não está mais sob meu controle. Mas elas deixam minha mente intocada e alerta. Saberei tudo, sentirei tudo, mas não poderei lutar. Não poderei fazer nada além de ficar aí deitada e aguentar e saber a cada segundo o que está acontecendo comigo.
Eu balanço minha cabeça. Eu não quero uma injeção. Ainda não. Vou tentar acertar um golpe para pelo menos saber que fiz alguma coisa. Eu não simplesmente rolei e me fiz de vítima.
Começo a desfazer os botões do meu vestido.
Petrov assente e observa enquanto eu me dispo. Estou nua por baixo, então não demora muito. Ele anda ao meu redor e sei que está olhando para sua marca. Ele escolheu o local para que qualquer um que me tocasse soubesse que eu era dele. Sua propriedade descartada. Bens usados. Felix ficará chateado quando vir isso. Ele não poderá me vender. De qualquer forma, não por um bom preço. Isso é uma bênção, certo? De certa forma?
Pelo menos ele não vai me tocar esta noite. Não o fez desde que descobriu a verdade.
Petrov está de frente para mim novamente. Ele tira meu cabelo do ombro.
— Depois que o médico chegar, ele estará na sala ao lado. Se você causar algum problema, ele lhe dará injeção. Não fica nenhuma pergunta, entendeu?
— Você vai deixar ele... — Tento colocar força em minhas palavras, mas minha voz falha.
Ele murmura um palavrão em russo e pergunta novamente se entendi.
Eu concordo. Porque não é só a minha voz que está quebrando. Sou eu. E ainda estou com medo.
— Senhor.— Um soldado espia a cabeça pela porta. — O elevador de serviço está aqui.
— O que há de errado com o elevador normal?
— Fora de serviço — diz o soldado.
— Tudo bem — responde Petrov, irritado. Ele aprecia as aparências e pegar o elevador de serviço está abaixo dele. Ele olha para mim pelo que acho que é a última vez. — Tão linda ainda. Realmente é uma pena — diz ele. Ele se vira e sai pela porta e, por um breve e e******o momento, penso que ele está falando sério. Que ele sente muito por eu não ser quem ele pensava que eu era. Que ele lamenta ter que fazer o que está prestes a fazer. Porque isso é estranho quando você é sequestrada. Quando há uma única pessoa em sua vida que controla todos os aspectos dela. Quem decide se você come ou passa fome. Quer você viva ou morra. De certa forma, você quer agradá-los. Você se sente mais segura com eles. É totalmente i****a, eu sei disso. Síndrome de Estocolmo. Talvez seja porque esse monstro você pelo menos conhece.
Balanço a cabeça e saio dessa situação. Porque ele se foi e as luzes estão apagadas, e observo com desgosto o médico se aproximar de mim.