5. Segura

2027 Words
Mara O som das hélices do helicóptero desaparece quando a porta se fecha atrás de nós e subimos uma escada. Está escuro lá dentro, as lâmpadas m*l iluminam nosso caminho. As botas dos homens à nossa frente fazem barulho nas escadas de metal. Mas alguns minutos depois, depois de subirmos outro lance de escadas mais curto, estamos dentro do que parece ser um grande armazém. As paredes são de tijolos sem pintura, as vigas expostas sustentam o telhado. Ele me coloca no chão. O chão de cimento está frio contra meus pés descalços, embora não esteja tão frio quanto lá fora. Recuo alguns passos e absorvo tudo. O homem da cicatriz fala com um dos outros, mas continua me observando. Há uma cozinha contra uma parede. É tudo em aço inoxidável, madeira e tijolo. A mesa tem seis cadeiras ao redor e atrás de mim há uma área de estar com alguns sofás de couro e uma mesa de centro. Em cima está uma garrafa de uísque e um copo meio cheio. Uma grande televisão está montada na parede. Alguém começa uma música. É alta, heavy metal. Não o clássico que Petrov sempre ouvia. Eu gosto disso. A maioria das paredes não tem janelas, mas as que têm são compostas por pequenos painéis emoldurados por aço que vão do chão ao teto. Um corredor leva a meia dúzia de portas fechadas. Eu me pergunto o que era esse lugar. Não é um lar, ou não deveria ser. Ouço meu nome então e me viro para encontrar o homem da cicatriz me observando, mas falando com alguém em seu telefone. Suas sobrancelhas estão franzidas, seu olhar fixo em mim. Ele acena com a cabeça para o que quer que a outra pessoa esteja dizendo. Um dos homens ri da área da cozinha e olho para encontrá-los parados ao redor do balcão, bebendo cervejas. Eles são rápidos em ajustar suas expressões quando me veem observando-os. Um momento depois, o homem da cicatriz desliga a ligação, enfia o telefone no bolso e vem em minha direção. Dou um passo para trás. Instinto. Estou sempre me afastando dos homens. Ele para, levanta as mãos, com as palmas voltadas para mim. — Eu não vou machucar você, Mara. Meu coração bate forte. Ele sabe que sou Mara. Não Elizabeth. — Eu conheci você antes — ele continua. — A muito tempo atrás. Eu costumava enfaixar seus joelhos quando você os cortava. Amarrar os cadarços. Sinto minha testa enrugar enquanto o ouço. — Eu sou Dario. O irmão mais velho de Lizzie. Dario? Não. Dario está morto. Eles estão todos mortos. Eu sei porque os vi morrer. Isso é um truque? Um jogo de Petrov? Sua última e mais c***l punição? — Você se lembra de mim? — ele pergunta. Eu não respondo. — Você se lembra de Lizzie? — Ele dá mais um passo em minha direção e percebo que estou balançando a cabeça enquanto recuo. — Você está segura. Não vou machucar você, Mara. Eu agito mais freneticamente. — Eu não sou Mara — digo, minha voz não passa de um sussurro rouco. Ele para quando me ouve e sorri. — Você me entende. Por que eu não o entenderia? Limpo a garganta para que ele possa me ouvir. — Eu não sou Mara. Eu sou Elizabeth. Há uma mudança na energia da sala. — Não, você não é.— Sua voz fica dura como se ele estivesse com raiva. Ele deve perceber meu pânico com essa mudança, porque respira fundo e parece mais calmo quando fala. — Lizzie tinha olhos verdes como os meus. E ela não tinha uma marca de nascença em forma de estrela na parte de trás do ombro. — Ele aponta para meu ombro direito. Como ele sabe da minha marca de nascença? — É pequena. Provavelmente menor agora. Você cresceu — diz ele, olhando ao redor como se quisesse ver. — Mas se você souber onde procurar, poderá ver. — Ele parece triste quando me encara mais uma vez. — E há o fato de que minha irmã morreu há quinze anos. Balanço minha cabeça com força enquanto ele desaparece através das lágrimas que enchem meus olhos. Eu sei. Eu sei que ela morreu. Eu a vi morrer. Mas isso não é seguro. Não estou segura se eles souberem a verdade. — Eu não sou Mara — digo novamente, olhando para a porta pela qual entramos. Está além dele. Há até uma placa de saída vermelha sobre ele. Ele caminha em minha direção e eu me movo de lado. Os homens pararam de rir, pararam de falar. Alguém desliga a música. O silêncio é abrupto e chocante. Eles estão nos observando. Eu sinto seus olhos. E não tenho certeza se conseguirei chegar até a porta. Ouço o som de uma garrafa de cerveja sendo colocada na mesa. Está tão quieto. Mas eu não me viro. Eu mantenho meus olhos naquele que está na minha frente. Aquele com o rosto machucado. — Deixe-me levá-la para um dos quartos. Você pode descansar. De jeito nenhum. Eu não vou para um quarto. Não vou aonde eles possam me machucar. Não sem lutar. Nunca mais. — Você pode tomar um banho quente. Deitar-se. Vou pegar algumas roupas mais quentes para você. Enquanto ele fala, percebo que ele está se aproximando, me conduzindo cada vez mais para longe da saída. — Apenas me deixe ir. — Eu tento. Eu não sei por quê. Nunca funcionou antes. Ele para de se mover. — Querida — ele diz, olhando para mim como se sentisse pena de mim, e eu odeio esse olhar. Eu odeio a pena deles. De qualquer forma, não é real. — Onde você iria?— ele pergunta. Minhas costas estão contra a parede. Fecho os olhos, respiro fundo e pressiono as unhas nas palmas das mãos. Dói, mas ajuda. Ajuda a me tornar forte. Lembro-me de Helga. Ela era uma v***a. Uma c****a horrível e sádica que teve o que merecia. Eu me lembro de Paola. Lembre-se do que ela fez. Como ela bateu em Helga com a lâmpada repetidas vezes. Como ela a matou. Paola pensou que poderia nos salvar. Eu preciso ser forte como ela. Preciso me lembrar de ser forte porque eles gostam quando você está com medo. Gostam quando você chora. Eu me endireito, abro os olhos para olhar para ele novamente. — Para onde eu iria? — Eu pergunto. Ele inclina a cabeça para o lado. — Longe de você — digo a ele, minha voz soando mais determinada do que sinto. Ele sorri de novo, balança a cabeça como se estivesse orgulhoso de mim e limpa o canto do lábio com o polegar. — Fico feliz em saber que você tem alguma força para lutar dentro de você. Olho para a faca que ele tem no coldre no cinto. Ele ainda está falando, mas eu o desligo. Eu preciso me concentrar. Terei uma chance. E quando ele dá um passo mais perto, eu me aproximo dele, surpreendendo-o, meus dedos fechando em torno do punho enquanto ele segura minha cintura. Ele ri um pouco enquanto dá um passo para trás, para que eu não bata em seu peito, seus braços me envolvem como se quisesse ter certeza de que eu não cairia. Isso é bom. Porque ele não sente quando tiro a lâmina do coldre e a levo até seu p*u. Se há uma coisa que eu sei é que seus homens se tornam bebês quando seus paus são ameaçados e é a única maneira de chamar sua atenção. Da cozinha vem o som de quatro pistolas sendo armadas, mas não desvio o olhar. Eu não posso arriscar. — Relaxe — diz o homem com a cicatriz, mas não está falando comigo. Ele está falando a eles. Posso dizer pelo tom de sua voz. — Afaste-se de mim — eu sibilo, mantendo minha voz baixa, como eles fazem quando realmente querem assustar você. Ele ri como se isso fosse engraçado. Eu acho que ele é louco. Ele deve ser. A reação dele é totalmente errada e, por um momento, isso me confunde. E isso é tudo que ele precisa. Um único momento. Ele é rápido. Mais rápido que Petrov. Mais rápido que Félix. Mais rápido do que qualquer um dos seus soldados. E antes que eu perceba, ele está com a mão grande enrolada em meu pulso e puxando-o para longe de seu p*u. Sinto a pressão de seu aperto, mas ele não está me machucando. Ou pelo menos ele está tentando não fazer isso. — Isso é afiado — diz ele, com uma expressão dura, mas não irritada. Ele aperta meu pulso o suficiente para forçar meus dedos a se desenrolarem para que ele possa pegar a faca. Ele não desvia o olhar nem uma vez enquanto o coloca de volta no coldre e eu me sinto murchar, sinto meus ombros caírem. Estou muito fraca. Sempre fui muito fraca. Eu não sou Paola. — Por favor, deixe-me ir — eu digo, sentindo meu lábio tremer. — Por favor, deixe-me ir. Eu voltarei. Não vou contar a ele onde você está. Eu prometo. Suas sobrancelhas franzem. — Você acha que eu deixaria você voltar para aquele bastardo? Petrov e os outros nunca mais colocarão a mão em você. Vou despedaçá-los m****o por m****o antes de deixá-los chegar perto de você — ele diz, o desgosto em sua voz é como uma lixa contra minha pele. Tento libertar meu pulso, mas ele não me solta. Eu olho para ele, vejo o quão grande ele é. Meu pulso parece o de uma boneca em sua mão gigante. Também está marcado. Mas uma linha vermelha deslizando pelo seu braço chama minha atenção. Ele está sangrando novamente. Quando olho para cima, ele está me estudando e tenho aquela sensação novamente. Algo familiar e caloroso. Como se eu estivesse segura. — Eu conheci você antes. A muito tempo atrás. Eu costumava enfaixar seus joelhos quando você os cortava. Amarrar os cadarços. Ele disse que é Dario. Eu me lembro de Dario. Lembro do sentimento que pertence a essa memória. Mas ele está mentindo. Ele não é Dario. Ele não pode ser. Dario está morto. Eles estão todos mortos. Eu vi seus corpos. Vi o sangue. Acho que nunca vou tirar essa visão da minha cabeça. Esquecer o terror nos olhos de Lizzie quando seu assassino avançou sobre ela. Ela era apenas uma garotinha. Nós dois éramos. Ela nem teve chance de gritar. — Mara. Preciso que você relaxe, ok? Eu pisco, lembro onde estou. Estou hiperventilando. Ele me solta. Eu me afasto dele. Mas não corro para a saída. Não há sentido. Ele tem razão. Para onde eu iria? Além disso, estou em menor número. Sem mencionar que eles têm armas. — Mattia — diz aquele que afirma ser Dario enquanto caio no chão e abraço as pernas. Fecho os olhos, escondo o rosto entre os joelhos e penso na música que Flora me ensinou. Ajuda um pouco pelo menos. Se eu puder ver as palavras e ouvi-la cantar a música. Eu só tenho que ver as palavras e ouvir a voz dela. — Mara. — A voz de Dario parece urgente. Ele está perto, mas eu não abro os olhos. Nem mesmo quando sinto sua grande mão segurando minha nuca. Ele é gentil. Mas alguns fingem ser gentis e é com esses que você realmente deve se preocupar. Eles são os que mais te machucam. — Aqui.— Outro homem diz. Ainda não abro os olhos. — Só uma pitada, Mara. Isso vai te ajudar a relaxar e quando você acordar, estarei lá com você — ele diz enquanto a mão que segurava minha cabeça a empurra levemente para o lado. Eu registro suas palavras então. Elas aparecem ao longo das bordas da música, e eu percebo o que ele quer dizer. O que ele vai fazer. A injeção. Aquela que garante que eu não lute. Minhas pálpebras se abrem, mas quando tento empurrar minha cabeça para trás e fugir, seu aperto aumenta e, um momento depois, sinto a picada da agulha e sei que acabou. Estou acabada.
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