4. Diferente

1128 Words
Mara Ele está machucado. O sangue está escorrendo por seus dedos onde ele segura o ferimento em seu braço. Um dos outros homens, aquele que me carregou para dentro do helicóptero, aperta meu cinto de segurança e o coloca no lugar, desviando minha atenção daquele que tem uma cicatriz em forma no rosto. Ele coloca um fone de ouvido nos meus ouvidos e enfia a mão embaixo do assento para tirar uma pequena caixa. Um kit de primeiros-socorros. Ele entrega ao ferido algo para colocar sobre o braço sangrando. Somos seis dentro do helicóptero mais aquele que o pilota. Os soldados estão ansiosos, carregados, há uma energia neles, uma adrenalina alta. Eu os ouço falar sobre o que aconteceu através do fone de ouvido. Eles riem da cara um do outro. Eles cheiram a suor e alegria. É quase palpável o cheiro saindo deles. Intenso. Eles limpam seus rifles e os colocam em uma mochila preta. Mesmo agora, depois de tantos anos em cativeiro, é assustador ver aquelas máquinas de matar. Eu os observo, mas o que quero fazer é olhar para ele. Porque eu o sinto olhando para mim. E eu o conheço. Dou uma olhada. Ele está inclinado para trás, então seu rosto fica quase todo na sombra. Ele está escondendo sua cicatriz de mim como se isso me afetasse. Como se eu já tivesse visto coisas piores na vida. Mas ainda vejo o brilho dos seus olhos. Verde claro. O olho que tem a cicatriz abaixo é um pouco fosco e sem vida, eu vi isso. Acho que a cor não combina com ele. Ele é um homem duro. Um assassino. Mas essa cor é como a primavera. Como uma promessa de algo melhor. — Não tenha medo — diz ele, e meu coração faz exatamente o oposto. Seu ritmo já frenético aumenta, fazendo-o bater contra minhas costelas. Mas acho que é a voz dele que está fazendo isso. Não suas palavras. Como um estrondo profundo vibrando dentro de mim. O helicóptero vira em um ângulo impossível e eu suspiro, agarrando a borda do assento enquanto a chuva bate na porta de vidro. Está caindo com mais força do que antes. Abaixo de nós está a água n***a do rio Hudson. E estamos voando muito perto disso. — Você está segura — diz o homem com a cicatriz. Eu mudo meu olhar para o dele. Obrigo-me a olhar para ele enquanto nos aproximamos de um prédio baixo, mas largo, e me preparo para pousar no grande estacionamento quase vazio. Eu o conheço. Não o rosto ou o corpo do homem. Mas seus olhos. E eu sinto isso. O puxão de algo enterrado profundamente dentro de mim. Tão profundo que está quase morto, mas não completamente. Ainda não. A aterrissagem é acidentada. Os homens se amontoam, um deles içando a mochila por cima do ombro como se ela não pesasse nada. Logo somos só ele e eu dentro do helicóptero. Permaneço onde estou, sem saber o que fazer. Ele ainda está me estudando como se não pudesse acreditar que sou eu. Ele já desabotoou o cinto de segurança e está tirando o fone de ouvido. Eu tiro o meu também. — Aqui — diz ele, sentando-se ao meu lado. Quando ele estende a mão para desfazer meu cinto, sua mão roça meu braço nu e eu suspiro. Ele puxa de volta. É como um choque elétrico. Algo brilhante e vivo, uma carga de pura eletricidade. Ele também sente isso. Eu vejo isso em seu rosto. É então que começo a tremer, percebendo como está frio lá fora. Como estou com frio. Estou descalça e com um vestido de verão no inverno. Estou nua por baixo. Eu envolvo meus braços em volta de mim. Petrov cuidava de mim no começo. Ele ficou cada vez menos cuidadoso com o passar do tempo. Quando ele descobriu a verdade, descobriu que Felix o havia traído e feito dele de bobo, ele parou completamente. Minhas roupas foram tiradas e eu fui transferida do meu quarto confortável para outro. Um pequeno e sujo. Não que isso me incomodasse tanto. Uma prisão é uma prisão, quer você durma em um colchão de penas ou em um colchão velho e empoeirado num canto. Mas meu novo quarto estava frio. Congelando. Não consigo mais lembrar como é o calor. Eu me pergunto onde Petrov está agora. Se ele souber o que aconteceu. Eu me pergunto se ele vai me punir por isso quando eu for devolvida para ele. Se eu voltar sozinha, talvez seja menos r**m. Se ele não tiver que vir atrás de mim. Da vez em que corri antes, ele teve que me pegar, e ainda me lembro de seu castigo. Ainda me lembro de como não consegui sair da cama durante dias. Isso me leva a outra possibilidade. Isto poderia ser um jogo. Um truque dele. Não seria a primeira vez. — Ei — o homem diz para chamar minha atenção. Pisco, sua voz me trazendo de volta ao presente. Ele toca meu queixo para levantar meu rosto para o dele e minha respiração fica presa quando olho completamente para ele. Para este homem com um X profundo no centro da bochecha direita. Este homem cujo rosto foi costurado. De perto, quase consigo distinguir cada ponto das cicatrizes que parecem feias. Ele vira a cabeça para que eu possa ver o outro lado. O belo. E ele é lindo. Seus olhos escurecem e ele não olha para mim por um momento. — Você está com frio — ele diz, com a voz diferente. Como se ele estivesse se esforçando para suavizar a voz Ele me liberta do cinto de segurança. — Vamos entrar. Você pode se aquecer. Ele tira a jaqueta e a coloca sobre meus ombros. É pesada e quente e sinto o cheiro dele. Algo no gesto me dá vontade de chorar. — Eu não vou machucar você. — Quando não respondo, ele tenta novamente, com a voz mais alta. — Você entende o que eu estou dizendo? Eu recuo com seu tom. Ele parece irritado. Ele murmura uma maldição baixinho e balança a cabeça. — Ok, vamos — diz ele. Ele sai do helicóptero e se vira para mim. Quando não me movo imediatamente, ele apenas estende a mão e me levanta como se eu não pesasse nada. Agarro seus ombros para me equilibrar. Ele é grande. Forte e sólido. E por um instante, permanecemos assim, ele olhando para mim, eu olhando para ele, as lâminas do helicóptero chicoteando meu cabelo. Ele muda minha posição e me embala contra seu peito. Ele abaixa a cabeça e me leva até uma porta que um de seus homens está mantendo aberta. Ele parece diferente de Petrov. Me segura de forma diferente.
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