Quando virei so mãe

583 Words
Não aconteceu de uma vez. Ninguém vira só mãe de repente. Foi devagar. Tão devagar que, quando percebi, já não sabia mais apontar o dia exato em que deixei de ser mulher antes de ser mãe. Na primeira gravidez, eu ainda me reconhecia. Grávida de gêmeos, eu me olhava no espelho com um misto de medo e orgulho. Meu corpo mudava rápido, mais do que eu imaginava que pudesse mudar, mas havia expectativa ali. Havia promessa. Marcos me olhava diferente naquela época — não com desejo, mas com cuidado. E eu aceitei aquilo como amor, porque era. Lucas e Mateus chegaram juntos, como tudo passou a chegar na minha vida depois: em dobro, sem aviso, sem pausa. As noites deixaram de existir como noites. Viraram pequenos intervalos entre choros, mamadas e sustos. Meu corpo deixou de ser meu. Eu amamentava dois. Acordava por dois. Cuidava por dois. Passava dias inteiros sem me olhar direito no espelho. Sem perceber o próprio cansaço. Sem perguntar como eu estava. E ainda assim, eu era feliz. Exausta, mas feliz. Acreditava que aquilo era só uma fase. Depois veio a segunda gravidez. Clara. Diferente da primeira, não houve surpresa — houve peso. Eu já sabia o que me esperava. O corpo já não respondia como antes. O cansaço vinha mais rápido. O medo também. Quando Clara nasceu, algo dentro de mim mudou de lugar. Não foi tristeza. Não foi rejeição. Foi um apagamento silencioso. Eu deixei de ser perguntada. Passei a ser necessária. Três crianças pequenas ocupam tudo: o tempo, o corpo, a mente, a alma. E eu permiti. Não porque me obrigaram, mas porque mulheres como eu aprendem cedo que cuidar é prioridade. Marcos trabalhava muito. Chegava cansado. Eu entendia. Sempre entendi. Quando ele me olhava, via a mãe dos filhos dele. E, pouco a pouco, eu também comecei a me ver assim. As conversas mudaram. Antes falávamos de sonhos. Depois, de escola, febre, contas, rotina. Meu corpo virou função. Servia para carregar, alimentar, resolver. Não para desejar. Engordei. Emagreci. Engordei de novo. Ganhei marcas que não aparecem nas fotos. Ganhei um cansaço que não dorme. Lembro da primeira vez que tentei me arrumar só para mim depois dos filhos. Vesti uma roupa antiga. Ela não fechou. Não era só o tecido que não servia mais. Eu também não cabia naquela versão de mim. Chorei sozinha no banheiro. Não contei a ninguém. Mães aprendem cedo a engolir o choro. Mulheres, mais cedo ainda. Eu virei a que resolve tudo. A que não reclama. A que aguenta. E, sem perceber, fiquei invisível. Marcos não deixou de me amar. Mas deixou de me ver. E talvez eu também tenha deixado de me mostrar. À noite, quando as crianças dormiam, eu desejava silêncio. Mas quando ele vinha, doía. Era ali, naquele espaço vazio, que eu sentia falta de mim. O desejo não desapareceu de uma vez. Ele foi ficando tímido. Depois envergonhado. Depois culpado. Até virar pensamento escondido. Eu não me sentia bonita. Não me sentia interessante. Não me sentia suficiente. E, ainda assim, eu sentia. Sentia vontade. Sentia falta. Sentia algo vivo dentro de mim que não combinava com a imagem da mãe forte e resolvida que esperavam de mim. Eu virei só mãe quando comecei a acreditar que desejar era egoísmo. Quando aceitei menos do que sentia porque parecia mais fácil do que explicar. Hoje, quando me chamam de “mãe”, eu respondo. Mas por dentro, ainda existe uma mulher esperando ser chamada pelo nome. Helena.
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