Não foi o espelho que mudou primeiro.
Fui eu.
O espelho sempre esteve ali, no mesmo lugar do banheiro. Eu que comecei a passar por ele mais rápido. Às vezes nem olhava. Outras, fingia que não via.
Depois dos filhos, meu corpo virou território conhecido demais para os outros e estranho para mim.
Não tenho ódio dele.
Tenho estranhamento.
As marcas chegaram sem pedir licença. A pele não voltou completamente. A firmeza também não. Em alguns dias, isso não me incomoda. Em outros, pesa mais do que deveria.
Não é vaidade.
É reconhecimento.
Eu não esperava voltar a ser quem eu era aos vinte e cinco. Eu só queria continuar me sentindo mulher aos quarenta.
O espelho, porém, não negocia.
Ele mostra.
Mostra o que mudou.
Mostra o tempo.
Mostra o cansaço.
Aprendi a escolher roupas que escondem mais do que revelam. Aprendi quais ângulos me favorecem. Aprendi a sorrir sem acreditar muito.
Em público, funciono bem.
Por dentro, faço ajustes silenciosos o tempo todo.
Às vezes, me comparo. Não por maldade, mas por hábito. Outras mulheres. Corpos mais leves. Barrigas lisas. Liberdade no olhar.
Não sinto inveja.
Sinto distância.
O que ninguém diz é que o corpo da mulher não muda só por fora. Ele muda de função. De lugar. De sentido.
O meu foi casa antes de ser desejo.
Foi colo antes de ser convite.
E, em algum momento, deixou de ser pergunta.
Marcos raramente me olha por muito tempo. Não porque não me ame, mas porque já me conhece demais. O olhar que antes demorava agora passa.
Não reclamo.
Não cobro.
Mas percebo.
Quando ele me toca, é com carinho. Com cuidado. Com rotina. Falta aquele instante em que a gente se sente escolhida, não apenas aceita.
E eu me pergunto, em silêncio, se o problema está nele… ou em mim.
O desejo ainda existe em mim. Às vezes forte, às vezes confuso. Ele aparece quando menos espero — no meio do dia, numa lembrança sem rosto, numa sensação que não sei explicar.
Depois vem o pensamento automático: quem você pensa que é para ainda desejar?
Essa pergunta não veio de fora.
Veio de mim.
Porque mulheres aprendem cedo que o corpo que gera, cansa, engorda e envelhece deve agradecer, não pedir.
Eu agradeço.
Mas também sinto.
Não quero voltar no tempo.
Não quero outro corpo.
Quero paz com o que tenho.
Às vezes consigo.
Em outras, o espelho acusa.
Ele não diz nada, mas lembra. Lembra que o tempo passou. Que eu passei. Que ninguém ficou igual.
E mesmo assim, eu estou aqui.
Inteira.
Viva.
Desejando.
Não como rebeldia.
Mas como prova de que ainda existo.
Talvez o corpo tenha mudado.
Mas ele ainda fala.
E eu estou começando, aos poucos, a escutar.