Capítulo 1- O primeiro olhar. Algumas histórias chegam fazendo barulho. A minha começou com uma pergunta.
Alícia narrando
Eu me chamo Alícia, tenho 33 anos e, alguns meses atrás, perdi umas das pessoas mais importante da minha vida: minha mãe, minha rainha.
Desde então, passei a maior parte dos meus dias dentro de casa. Meu passatempo era conversar pelo w******p com as minhas primas e tentar ocupar a cabeça.
Nós éramos muito unidas.
Na verdade... éramos quase uma equipe.
A Sofia tinha 25 anos e era a mais engraçada de nós três. Não importava o assunto, ela sempre conseguia transformar tudo em motivo de risada.
Já a Pérola, de 21 anos, era completamente diferente. Observadora, curiosa e dona de um radar que parecia detectar qualquer coisa fora do lugar. Nada escapava dos olhos dela.
E eu?
Bom...
Segundo elas, eu era a líder das investigações.
Eu preferia dizer que era apenas curiosa.
Nosso passatempo favorito era conversar durante horas sobre qualquer assunto. Desde de indicações de séries até as situações mais aleatórias que aconteciam durante a semana.
Resumindo se existisse uma faculdade de investigação de fofocas, nós três certamente nos formaríamos com honras.
Até que, naquele sábado qualquer, meu irmão Jonas resolveu me chamar para assistir ao jogo dele.
Sem imaginar que aquele convite mudaria tanta coisa, eu aceitei.
Bem naquele fim de tarde, o céu estava pintado em tons de laranja, e a quadra já estava cheia. O som da bola batendo no chão, as conversas espalhadas pela arquibancada improvisada e as risadas de quem assistia aos jogos faziam parte da rotina daquele lugar.
Aproximei-me da grade, como sempre fazia, procurando meu irmão entre os jogadores.
Enquanto observava a movimentação, meus olhos acabaram encontrando um rapaz parado a poucos metros dali.
Ele parecia ter a minha idade?
Não.
Na verdade, aparentava ser bem mais novo.
Vestia uma camiseta branca, um short preto de futebol e chinelos. A mochila estava apoiada no chão, perto da grade, mas o celular permanecia firme em sua mão. De tempos em tempos, ele desviava a atenção do jogo para conferir o aparelho, como se tivesse medo de uma bola perdida acertá-lo.
Achei engraçada aquela preocupação.
Voltei a prestar atenção na partida, mas, poucos segundos depois, ouvi uma voz ao meu lado.
— Você veio ver seu filho jogar?
Olhei para ele, surpresa.
Demorei alguns segundos para entender que a pergunta era para mim.
— Não... eu não tenho filho.
Ele ficou em silêncio por alguns instantes, como se estivesse procurando outra resposta.
— Ah... então você veio ver seu marido jogar?
Sorri.
— Também não. Não sou casada.
Mas ele parecia decidido a descobrir por que eu estava ali.
— Então você veio ver seu namorado?
Resolvi acabar com o mistério.
— Não. Vim ver meu irmão jogar.
— Quem é seu irmão?
Apontei para dentro da quadra.
— Aquele ali... de short preto com listra laranja, blusa preta e colete amarelo.
Ele acompanhou meu dedo com o olhar e, logo em seguida, perguntou:
— Você é irmã do Jonas?
— Sou.
Achei que, finalmente, o interrogatório tinha terminado.
Só achei.
Ele olhou para o celular na própria mão e perguntou:
— Tia... tem como você olhar meu celular pra mim?
Olhei para ele indignada.
— Tia? Menino, quantos anos você tem?
Ele respondeu com a maior naturalidade do mundo:
— Quinze.
Naquele momento, meu orgulho sofreu um pequeno abalo.
Ser chamada de "tia" não estava nos meus planos.
Mas... fazer o quê?
Eu realmente era mais velha.
Respirei fundo e respondi, rindo:
— Tá bom... pode me chamar de tia.
Ele sorriu de canto enquanto me entregava o celular.
Depois de alguns minutos, o jogo continuou, e cada um voltou a prestar atenção na quadra.
O silêncio tomou conta da conversa.
Naquele momento, achei que aquele diálogo estranho terminaria ali mesmo.
Afinal, ele era apenas um garoto curioso que resolveu fazer perguntas demais para uma completa desconhecida.
Mal sabia eu que aquela conversa, iniciada por perguntas tão inesperadas, seria o primeiro capítulo de uma história que eu levaria comigo por muito tempo.
Naquele fim de tarde, ele ainda era apenas um desconhecido.
E eu nem imaginava que, algum tempo depois, descobriria seu nome.