Alícia Narrando
Era sábado à tarde.
Eu, Pérola, Kamilly e Yumi resolvemos ir caminhando até o shopping.
O caminho era longo, mas a conversa fazia o tempo passar rápido.
Falávamos de tudo.
Da escola.
Do trabalho.
Da última peneira dos meninos.
E, claro...
Das piadas que o Henry e os outros não cansavam de fazer.
Kamilly ria de qualquer coisa.
— Gente, vocês viram a cara do Bryan quando bebeu sua água? — perguntou, segurando a risada.
Revirei os olhos.
— Kamilly...
— O quê? Eu só tô comentando.
Pérola começou a rir.
— Ela nunca "só comenta".
Continuamos andando pela calçada.
Foi então que ouvi o barulho de uma bicicleta se aproximando.
Olhei para o lado.
Era o Bryan.
Ele vinha pedalando tranquilamente pela rua.
No exato momento em que passou por nós...
Kamilly simplesmente esqueceu que existia volume de voz.
Colocou a mão na boca como se fosse um megafone e gritou:
— OLHA, ALÍCIA! O TEU CRUSH!
Meu coração parou.
— KAMILLY!
Na mesma hora, Bryan virou o rosto na nossa direção.
Nossos olhares se encontraram.
Meu rosto queimou de vergonha.
Olhei para a Kamilly com vontade de esconder ela dentro de um buraco.
Ela apenas colocou as duas mãos na boca.
— Ai...
Foi sem querer...
Bryan continuava olhando para mim.
Por alguns segundos, parecia que ele nem lembrava que estava pedalando.
Então...
Um sorriso apareceu.
Um sorriso tão espontâneo e bonito que parecia impossível de esconder.
Ele ficou tão distraído olhando para mim que quase veio para cima da calçada.
— Bryan! — gritou Pérola, rindo.
Ele voltou à realidade no último segundo, puxando o guidão rapidamente e desviando por muito pouco da gente.
— Caraca! — ele soltou, já rindo da própria distração.
Eu não consegui segurar a risada.
Ele balançou a cabeça, completamente sem graça.
— Foi mal...
Acenou rapidamente antes de continuar pedalando.
Assim que ele dobrou a esquina...
Todas as meninas olharam para a Kamilly.
Ao mesmo tempo.
— KAMILLY!
Ela começou a rir sem conseguir parar.
— Gente... eu esqueci que ele tava perto!
Cruzei os braços.
— Você gritou!
— Eu sei!
— A rua inteira escutou!
Ela já estava quase chorando de tanto rir.
— Eu juro que saiu sem querer!
Pérola levou a mão à testa.
— Um dia a Alícia ainda te mata.
Yumi concordou rindo.
— E eu acho que esse dia tá chegando.
Balancei a cabeça, ainda morrendo de vergonha.
Mas, no fundo...
A única coisa que não saía da minha cabeça era o sorriso que ele tinha dado antes de quase atropelar a gente.
Baixei os olhos, tentando esconder o meu próprio sorriso.
"Esse menino ainda vai me deixar maluca..."
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Bryan Narrando
Eu estava voltando para casa de bicicleta.
A rua estava tranquila.
Pedalava sem pressa, pensando em como tinham sido as últimas semanas.
A peneira.
A água que a Alícia levou.
As conversas.
O sorriso dela.
Sem perceber, já estava sorrindo sozinho.
Foi então que vi quatro meninas caminhando pela calçada.
Alícia.
Pérola.
Kamilly.
E Yumi.
Diminuí um pouco a velocidade e levantei a mão em cumprimento.
Foi aí que aconteceu.
Kamilly olhou para mim...
Depois olhou para a Alícia.
E, do nada, gritou:
— OLHA, ALÍCIA! O TEU CRUSH!
Meu cérebro simplesmente travou.
"Hã?"
Olhei automaticamente para a Alícia.
Ela estava completamente vermelha.
Com uma cara de quem queria m***r a Kamilly naquele exato instante.
Meu coração disparou.
"Espera..."
"Ela falou comigo mesmo?"
"Ou eu entendi errado?"
Antes que eu conseguisse pensar em qualquer coisa...
Nossos olhares se encontraram.
Sem perceber...
Abri um sorriso.
Daqueles que simplesmente acontecem.
Naquele momento, esqueci completamente que estava pedalando.
Quando dei por mim...
A bicicleta já estava indo na direção delas.
— Caraca!
Puxei o guidão rapidamente.
A roda passou raspando no meio-fio.
Consegui desviar no último segundo.
As meninas começaram a rir.
Passei a mão na nuca, completamente sem graça.
— Foi mal...
Pérola ainda ria, mas balançava a cabeça olhando para a Kamilly.
Acenei para elas e continuei pedalando.
Só que agora...
Meu coração parecia que ia sair pela boca.
Assim que dobrei a esquina, parei a bicicleta.
Encostei um pé no chão e fiquei alguns segundos tentando entender o que tinha acabado de acontecer.
"Ela gritou..."
"O teu crush..."
"Será que..."
Balancei a cabeça.
— Não...
Deve ter sido uma brincadeira.
Só pode.
Mas, por mais que eu tentasse convencer a mim mesmo...
Uma imagem insistia em voltar.
A Alícia.
Toda vermelha.
Tentando fuzilar a Kamilly com o olhar.
Sorri sozinho.
— Será...?
Voltei a pedalar.
Dessa vez...
Com um sorriso que não saía mais do rosto.
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Alícia Narrando
Assim que o Bryan dobrou a esquina...
Nós quatro continuamos andando.
Ou pelo menos tentamos.
Porque a Kamilly não conseguia parar de olhar para mim.
Uns dez segundos depois...
Ela respirou fundo.
— Alícia...
Não respondi.
Continuei andando.
— Amiga...
Silêncio.
Ela olhou para a Pérola.
— Acho que ela tá brava comigo.
Pérola deu de ombros.
— Eu também estaria.
Kamilly fez um biquinho.
— Foi sem querer.
Continuei sem olhar para ela.
Mais alguns passos.
— Alícia...
Desculpa.
Respirei fundo.
— Kamilly...
— Eu sei.
Eu gritei.
— Gritou.
— Mas eu juro que não foi de propósito.
Yumi começou a rir.
— Pela décima vez, Kamilly.
Ela levou a mão ao peito.
— Eu tô arrependida.
Pérola entrou na brincadeira.
— Tá nada.
Tu tá é se segurando pra não rir.
Kamilly tentou ficar séria.
Durou exatamente dois segundos.
Depois começou a rir de novo.
— É que a cara de vocês foi muito engraçada!
Parei de andar e olhei para ela.
— Kamilly...
Ela endireitou a postura na mesma hora.
— Oi?
— Você praticamente anunciou isso pra rua inteira.
Ela abaixou a cabeça.
— Eu sei...
— E ainda fez o menino quase atropelar a gente.
Kamilly colocou as mãos no rosto.
— Meu Deus...
Foi pior do que eu imaginava.
Yumi já ria sem conseguir se controlar.
— Você quase provocou um acidente.
Kamilly soltou um suspiro dramático.
— Eu prometo...
Nunca mais faço isso.
As três olharam para ela ao mesmo tempo.
Pérola foi a primeira a falar.
— Você promete isso desde a quinta série.
Yumi concordou.
— E nunca cumpre.
Não consegui segurar.
Acabei rindo.
Kamilly abriu um sorriso enorme.
— Então você não tá mais brava?
Balancei a cabeça, ainda rindo.
— Tô.
Ela fez um biquinho.
— Desculpa...
Pela décima primeira vez.
Revirei os olhos.
— Tá desculpada.
Mas da próxima vez...
Antes de abrir a boca...
Pensa.
Kamilly levou a mão à boca como se estivesse fechando um zíper.
— Fechou.
Yumi caiu na gargalhada.
— Tu não aguenta cinco minutos.
Pérola concordou.
— Cinco minutos? Eu dou trinta segundos.
Kamilly colocou a mão no peito, fingindo indignação.
— Que falta de confiança é essa?
Eu ri.
— Porque a gente te conhece.
Ela deu uma piscadinha.
— Tá... talvez vocês tenham um pouquinho de razão.
Nós quatro começamos a rir outra vez.
No fim das contas...
Era impossível ficar brava com a Kamilly por muito tempo.
Ela falava pelos cotovelos.
E, quase sempre...
Criava as maiores confusões sem nem perceber.