Capítulo 23 – A Rotina Voltou

1319 Words
Alícia Narrando O Carnaval acabou. E, como acontecia todos os anos, bastaram alguns dias para a comunidade voltar ao ritmo de sempre. As caixas de som foram silenciando. As ruas perderam o colorido das serpentinas. As fantasias voltaram para os guarda-roupas. E as latas de espuma deram lugar às mochilas da escola, aos uniformes de trabalho e às chuteiras espalhadas pelo campo. Os dias começaram a passar depressa. Fevereiro ficou para trás. Março chegou quase sem que ninguém percebesse. A rotina voltou a tomar conta da comunidade. No fim da tarde, o campo voltava a ser o ponto de encontro de todo mundo. Bryan, Henry, Ares, Gabb, Fernandes, Lucas, Jonas e os outros meninos apareciam quase todos os dias para b*******a bola. As resenhas continuavam as mesmas. Quem errava um gol era zoado. Quem caía sozinho virava motivo de piada. E quem chegava atrasado sempre escutava alguma gracinha. Enquanto isso... Nossa rotina também tinha voltado. Eu, Pérola, Lívia, Sofia e Helô sempre arrumamos um motivo para sair. Às vezes para comprar um açaí, no meu caso sorvete. Outras vezes para sentar na praça. Ou simplesmente caminhar pela comunidade conversando sobre qualquer assunto. E, quase sempre... Acabávamos passando pelo campo. Coincidência? Talvez. Ou talvez nem tanto. Porque, mesmo sem trocar uma única palavra... Os olhares continuavam acontecendo. _________________ Bryan narrando O futebol seguia do mesmo jeito. Campo cheio. Resenha. Gritos. Zoação. Tudo normal. Ou quase. Porque toda vez que Alícia passava pelo campo com as amigas... Meu olhar ia nela automaticamente. Nem era de propósito. Simplesmente acontecia. — Ô, Bryan! A voz do Henry me trouxe de volta. — Vai jogar ou vai ficar olhando pra rua? Os moleques começaram a rir. Peguei a bola no chão. — Joga a bola aí, engraçadinho. Henry deu uma risadinha. — Tá bom... mas depois não reclama quando perder o gol. Lucas olhou na direção da rua. Depois olhou pra mim. — Acho que eu já sei por que ele tá distraído. Revirei os olhos. — Vocês não têm o que fazer, não? Gabb entrou na brincadeira. — Tem. — Zoar você. Todo mundo caiu na gargalhada. _________________ Ares narrando Enquanto os meninos discutiam uma falta que ninguém concordava se existiu ou não... Meu olhar encontrou Pérola. Ela caminhava ao lado da Sofia, da Lívia, da Helô e da Alícia. Ela ria de alguma coisa. E era impossível não sorrir junto. Lucas percebeu. — Tá olhando pra quem? Voltei a atenção para ele. — Pra ninguém. Ele arqueou uma sobrancelha. — Ah, tá... Olhou discretamente para a Pérola. Depois voltou para mim. — Ninguém tem nome agora? Fernandes começou a rir. Henry ouviu a conversa e entrou na zoação. — Deixa ele. Desde o Carnaval esse aí tá diferente. Empurrei o Henry de leve. — Vai cuidar da tua vida. Bryan começou a rir. — Ih... Pegou ar. A roda inteira caiu na gargalhada. ___________________ Pérola narrando A gente passava pelo campo quase todos os dias. E, por mais que eu tentasse agir naturalmente... Meu olhar sempre acabava procurando a mesma pessoa. Ares. Às vezes ele estava jogando. Às vezes sentado conversando com os amigos. Outras vezes só observando a partida. Mas bastava nossos olhares se encontrarem... Que um sorriso discreto aparece dos dois lados. Nem eu sabia explicar aquilo. — Ele olhou de novo. Lívia falou baixinho. Fingi que não ouvi. — Quem? Sofia começou a rir. — Ah, Pérola... Nem você acredita nessa pergunta. Helô cruzou os braços. — Vocês acham que enganam alguém? Senti minhas bochechas esquentarem. — Vocês inventam demais. As quatro começaram a rir. E eu ri junto. Porque, no fundo... Elas estavam certas. Os dias continuaram passando. Uma semana. Depois outra. Sem que ninguém percebesse, março chegou ao fim. A rotina voltou completamente. Os meninos continuavam no campo. As meninas continuavam passeando pela comunidade. As resenhas nunca acabavam. Os olhares também não. Bryan continuava esperando, mesmo sem admitir, a hora em que Alícia passava em frente ao campo. Ares fazia exatamente a mesma coisa com Pérola. E elas... Mesmo fingindo que era coincidência... Já sabiam exatamente o horário em que encontrariam os dois. Era como se, sem perceber, todos já fizessem parte da rotina uns dos outros. E, enquanto a vida seguia seu curso... O calendário avançava. Abril finalmente havia chegado. E o dia 8 prometia marcar o início de uma nova fase na vida de Bryan. __________________ Alícia Narrando Abril finalmente chegou. Naquela tarde, como de costume, eu estava sentada na frente de casa conversando com a Helô, enquanto Lívia, Sofia e Pérola chegavam aos poucos. Foi Helô quem quebrou o silêncio. — Menina... descobri um negócio hoje. Olhei para ela, curiosa. — O quê? Ela sorriu de canto. — Hoje é aniversário do Bryan. Arregalei os olhos. — Sério? Helô confirmou com a cabeça. — Dezesseis anos. Lívia entrou na conversa na mesma hora. — Como você descobriu isso? — Minha vizinha tava comentando. Parece que os meninos tão pensando em fazer uma resenha lá na casa do Henry pra comemorar. Sofia sorriu. — Bem a cara deles. Pérola riu. — Churrasco, futebol e zoação. — Resumiu perfeitamente. — Helô respondeu, dando risada. Sem perceber, meu olhar foi até o campo. Os meninos já estavam reunidos. E Bryan ria de alguma coisa que o Henry tinha acabado de falar. Sorri de leve. — Então hoje é o dia dele... ___________________ Henry narrando — Rapaziada! Bati palma chamando a atenção de todo mundo. — Hoje ninguém foge, não. Bryan arqueou a sobrancelha. — Lá vem... — Aniversário do moleque. Tem que ter uma resenha. Lucas concordou na hora. — Minha mãe já falou que empresta a churrasqueira. Gabb levantou a mão. — Eu levo o refrigerante. Fernandes completou. — Eu passo no mercado pra comprar o carvão. Bryan começou a rir. — Vocês já decidiram tudo sem perguntar pra mim. Henry deu de ombros. — Aniversariante não manda em nada. Todo mundo caiu na gargalhada. Foi então que olhei para o outro lado da rua. As meninas estavam conversando em frente de casa. Olhei para os moleques. — Já que a gente fez amizade com elas no Carnaval... Que tal chamar as meninas também? Por alguns segundos... Todo mundo ficou em silêncio. _________________ Ares narrando Meu coração até acelerou. — Eu acho uma boa. Tentei responder naturalmente. — Quanto mais gente, melhor. Lucas me olhou com um sorriso de canto. — Ah... Tá explicado. Bryan começou a rir. — Descobri por que ele concordou tão rápido. Balancei a cabeça. — Concordei porque vai ficar mais animado. — Claro... Henry segurou a risada. — E não tem nada a ver com uma certa menina chamada Pérola. Os moleques começaram a rir. Passei a mão no rosto. — Vocês são insuportáveis. Bryan deu um t**a de leve no meu ombro. — Relaxa. Depois a gente faz esse favor pra tu. — Favor nenhum. — Sei... Lucas olhou para Henry. — Bora lá chamar elas? Henry fez que sim com a cabeça. — Bora. ______________ Pérola narrando Nós continuávamos conversando quando vimos Henry, Bryan, Ares, Lucas e os outros atravessando a rua. Lívia cochichou baixinho: — Lá vêm eles. Sofia deu uma risadinha. — Será que aprontaram alguma? Helô cruzou os braços. — Conhecendo esses meninos... Com certeza. Henry parou na nossa frente com um sorriso no rosto. — Boa tarde, meninas. — Boa tarde. — respondemos quase ao mesmo tempo. Ele apontou para Bryan, que já estava completamente sem graça. — Hoje é aniversário desse cidadão aqui. Todo mundo olhou para o Bryan. Alícia sorriu. — Parabéns. As outras fizeram o mesmo. Bryan agradeceu, claramente envergonhado. Henry continuou: — A gente vai fazer uma resenha lá em casa mais tarde... E queria saber se vocês topam ir também. O silêncio tomou conta por alguns segundos. Até que Lívia olhou para as meninas e abriu um sorriso. — Acho que a gente acabou de receber um convite... 😏
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