Pérola narrando
A espuma na cabeça de Lívia virou a grande atração do nosso grupo.
Eu ria junto com as meninas, mas, por um instante, meu olhar se desviou do rosto completamente branco da minha amiga e começou a passear pela praça.
Foi quando eu o vi.
Ares.
Ele estava alguns metros de distância com Bryan, Henry, Gabb, Fernandes, Lucas e os outros meninos. Pareciam conversar sobre alguma coisa, rindo de uma piada qualquer.
Como se sentisse meu olhar, ele virou a cabeça.
E me encontrou.
Nossos olhos se prenderam um no outro.
Ao redor, a música continuava alta, crianças corriam com pistolas de espuma, vendedores gritavam oferecendo churrasquinho e refrigerante.
Mas, por alguns segundos...
Nada daquilo existiu.
Só existia aquela troca de olhares.
Ele não desviava.
Eu também não.
Era estranho como um simples olhar parecia dizer tanta coisa.
Nem eu sabia explicar.
Ele me encarava daquele jeito sério, com os olhos semicerrados, como se estivesse tentando me entender.
E eu fazia exatamente a mesma coisa.
Foi Sofia quem destruiu aquele momento.
— Pérola? Terra chamando a Pérola!
Ela estalou os dedos bem na frente do meu rosto.
Pisquei algumas vezes.
— Hã?... Oi...
As meninas começaram a rir.
Disfarcei limpando um pouco da espuma que tinha caído no meu braço.
Mas senti minhas bochechas esquentarem.
E, mesmo olhando para outro lado...
Eu tinha a impressão de que ele ainda continuava me olhando.
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Ares narrando
— Sei...
Henry soltou uma risadinha de lado.
— Tá prestando atenção em nada que a gente tá falando, né?
Nem respondi.
Minha atenção estava completamente presa no grupo das meninas.
Mais especificamente...
Na Pérola.
Ela ria da situação da Lívia toda coberta de espuma.
Até que virou o rosto.
E me encontrou.
Meu coração simplesmente resolveu acelerar.
Ela não desviou.
Muito pelo contrário.
Sustentou meu olhar.
Foi como se todo o resto da praça desaparecesse.
Eu não estava olhando por acaso.
Ela sabia disso.
E eu também sabia que ela tinha percebido.
Os olhos dela tinham um brilho diferente sob o sol da tarde.
Ela parecia tão curiosa sobre mim quanto eu estava sobre ela.
A gente não falou uma única palavra.
Nem precisava.
Parecia uma conversa inteira acontecendo apenas pelos olhos.
Até que uma das amigas chamou por ela.
Ela desviou o olhar rapidamente.
Mas o leve sorriso que surgiu no rosto dela entregou que aquele momento também tinha mexido com ela.
Sem conseguir evitar...
Sorri de canto.
— Bora, pô... — falei para os meninos, voltando a andar.
Henry olhou para mim desconfiado.
— Tá sorrindo por quê?
— Tô não.
— Tá, sim.
Bryan deu uma risada.
— Ih... lá vem história.
Balancei a cabeça tentando disfarçar.
Mas, pela primeira vez naquele Carnaval...
Eu tinha certeza absoluta de que aquele interesse não era só da minha parte.
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Bryan narrando
A praça tava lotada.
Música estourando nas caixas de som, criança correndo com pistola de espuma, gente fantasiada passando pra lá e pra cá.
A gente andava no meio daquela bagunça quando percebi que o Ares tinha parado de prestar atenção na conversa.
Segui o olhar dele.
Pérola.
Ela também olhava pra ele.
Os dois pareciam ter esquecido que o Carnaval inteiro tava acontecendo ao redor.
Dei uma cotovelada no Henry.
— Tá vendo aquilo ali?
Henry olhou e soltou uma risadinha.
— Rapaz... o homem travou.
Lucas começou a rir.
— Se alguém jogar espuma nele agora, ele nem percebe.
Bryan... quer dizer, eu mesmo, só balancei a cabeça.
— Já era. Esse aí tá apaixonado.
Antes que a zoação aumentasse, um menino passou correndo e espirrou espuma na gente.
— Ô, filho da...
Todo mundo começou a rir e saiu correndo atrás dele, enquanto o Ares finalmente piscava e voltava pra realidade.
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Henry narrando
Não dava pra levar o Ares a sério.
O cara sempre dizia que não ligava pra ninguém.
Agora bastava a Pérola aparecer que esquecia até onde tava.
— Bora, apaixonado! — falei, puxando ele pelo ombro.
Ele fez cara de quem não tinha entendido.
— Tá maluco?
— Tô nada.
Passei espuma no cabelo dele antes que ele pudesse fugir.
— Vai curtir o Carnaval, pô!
Ele reclamou na hora.
— Henry!
— Agora ficou bonito.
Todo mundo caiu na gargalhada.
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Sofia narrando
Eu só precisava chamar a Pérola uma vez.
Ela demorou pra responder.
Quando olhei na direção em que ela tava encarando...
Entendi tudo.
Ares ainda olhava pra ela.
Cheguei perto da Alícia.
— Tá vendo?
Ela sorriu.
— Tô.
Lívia apareceu do nosso lado segurando uma lata de espuma.
— Então bora fazer eles acordarem.
Antes que alguém pudesse impedir...
Ela apertou o gatilho.
Uma nuvem de espuma voou na nossa direção.
— LÍVIA!
Em menos de cinco segundos, ninguém mais tava limpo.
A troca de olhares acabou.
Mas os sorrisos discretos dos dois...
Esses continuaram ali, escondidos no meio da folia do terceiro dia de Carnaval.
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Alícia narrando
Os dias do carnaval passaram voando.
Então enfim chegou o último dia.
Entre brincadeira e risadas dos 5 dias seguidos do carnaval.
Hj o último dia parecia que já estava no fim, porém…
Não demorou nem dez minutos para a paz acabar.
Lívia apareceu com duas latas de espuma nas mãos e um sorriso que já entregava suas intenções.
— Meninas...
Ela olhou para cada uma de nós.
— Hoje ninguém sai limpo!
Antes que alguém pudesse responder...
PSSSHHH!
Um jato de espuma acertou em cheio o cabelo da Sofia.
Ela ficou alguns segundos parada.
Sem acreditar.
Depois olhou para a Lívia.
— Você acabou de fazer isso?
Lívia começou a rir.
— Fiz.
Sofia sorriu daquele jeito que significava problema.
— Então agora aguenta.
Pegou uma lata que estava na bolsa da Helô e revidou na mesma hora.
Em menos de um minuto...
Nós cinco já estávamos correndo pela praça, rindo igual crianças.
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Bryan narrando
Eu tava conversando com Henry quando ouvi um grito.
— BRYAAAN!
Olhei para frente.
As cinco vinham correndo.
Só que não estavam fugindo.
Estavam atacando.
— RAPAZ!
Nem deu tempo de pensar.
Alícia apertou a lata de espuma bem na minha direção.
— Ô!
Levantei os braços tentando me proteger.
Os meninos começaram a rir.
Henry já saiu correndo.
— Cada um por si!
— Covarde! — gritei.
Peguei uma lata no bolso e olhei para os outros.
— Agora é guerra!
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Pérola narrando
A praça inteira parecia ter entrado na brincadeira.
Toda hora alguém aparecia coberto de espuma.
Eu ria tanto que minha barriga já começava a doer.
Foi quando senti alguém parar na minha frente.
Levantei a cabeça.
Ares.
Ele segurava uma lata de espuma.
Sorriu de canto.
— Dessa vez eu prometo que não vou te atacar.
Ergui uma sobrancelha.
— Promete?
— Prometo.
Olhei desconfiada.
— Tô começando a achar que você não sabe cumprir promessas.
Ele riu.
— Juro.
Cruzei os braços.
— Tá bom...
Dei um passo para frente.
Foi exatamente quando Bryan passou correndo atrás do Henry.
Esbarrou no ombro do Ares.
Sem querer.
O dedo dele apertou o gatilho.
PSSSHHH!
A espuma veio inteira na minha direção.
Fechei os olhos.
Quando abri...
Ares estava com a mão na boca tentando segurar a risada.
— Eu... eu juro que não foi de propósito.
Olhei para ele.
Depois para a lata na minha mão.
Sorri.
— Agora você está perdido.
Ares correndo desesperado.
— Bryan! Me ajuda, caramba!
Bryan olha pra trás, vê a Pérola vindo igual um foguete com a lata de espuma.
Olha pra Ares.
Olha pra Pérola.
Faz as contas.
— Rapaz... eu tenho amor à minha vida.
E sai correndo.
Ares fica indignado.
— TU ME ABANDONOU!
Henry já estava dobrado de rir.
— Eu falei que amizade de homem acaba na primeira dificuldade!
Lucas grita do outro lado da praça:
— O Bryan fez igual no Titanic!
Fernandes completa:
— Salvou a própria vida e deixou o parceiro afundar!
Todo mundo começa a rir.
Nisso...
PSSSSHHHH!
Pérola descarrega espuma na cara do Ares.
Ele fecha os olhos na hora.
Fica completamente branco.
Silêncio.
Ele passa a mão no rosto devagar.
Olha pra Pérola.
Ela já está rindo sem conseguir respirar.
Ele balança a cabeça.
— Tá feliz?
Ela tenta responder...
Mas tá rindo tanto que só consegue fazer "aham" com a cabeça.
Ares sorri.
— Então valeu a pena.
Aí quem fica sem reação é a Pérola.
Ela para de rir por dois segundos.
As bochechas esquentam.
Sofia percebe na hora.
Cutuca a Alícia.
— Ihhh...
Alícia sorri.
— Ele sabe o que tá fazendo.
Lívia olha pros dois.
— Eu falei que esses dois iam dar trabalho.
Enquanto isso...
Bryan está correndo da Alícia.
— ALÍCIA, FOI O HENRY!
Henry para no meio da praça.
— O QUÊ?!
Bryan aponta pra ele.
— Foi ideia dele!
Henry arregala os olhos.
— CÊ É MENTIROSO!
Cinco segundos depois...
As cinco meninas mudam o alvo.
Henry sai correndo igual um maluco.
— BRYAN, EU VOU TE m***r!
A praça inteira cai na gargalhada.
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Ares narrando
Nem deu tempo de pedir desculpas.
Ela veio correndo na minha direção.
— Ares!
Comecei a rir.
— Calma!
Ela apertou o gatilho sem dó.
Em poucos segundos, eu já estava completamente branco de espuma.
Os meninos começaram a gritar.
— AÍ SIM!
— NÃO DEIXA BARATO!
— REVIDA!
Olhei para a Pérola.
Ela ria tanto que m*l conseguia parar em pé.
Sorri.
— Então é assim?
Corri atrás dela.
Ela saiu correndo pela praça, gargalhando.
E, pela primeira vez desde que a gente tinha se conhecido...
Não havia vergonha.
Não existiam olhares escondidos.
Só duas pessoas se divertindo como se já fossem amigas há muito tempo.
Enquanto isso, Bryan e Alícia também entravam na brincadeira, correndo um atrás do outro no meio da praça, arrancando risadas de Henry, Gabb, Fernandes, Lucas, Sofia, Lívia e Helô.
Aquela guerra de espuma virou assunto da comunidade inteira.
E, sem que nenhum de nós percebesse, o último dia de Carnaval estava nos dando muito mais do que boas lembranças.
Estava aproximando pessoas que, até poucas semanas antes, eram apenas desconhecidas.