Capítulo -27 Arraiá do Complexo

1197 Words
A festa de aniversário do Bryan terminou do jeito que todo mundo imaginava. Muita risada. Música. Resenha até tarde. E, claro, muita zoação entre os amigos. Durante dias, o assunto na comunidade ainda era o aniversário. Henry não parava de implicar com Bryan. — Nunca vi aniversariante olhar mais pra rua do que pros convidados. — Vai dormir, Henry. — Tô mentindo? Os meninos caíam na gargalhada. Bryan apenas ria, fingindo que não entendia as indiretas. Enquanto isso... Do outro lado da comunidade... As meninas também comentavam sobre a festa. Helô contou como tinha sido. Lívia queria saber quem apareceu. Sofia queria saber quem fez mais bagunça. Já Pérola... Só observava Alícia em silêncio. — O quê? — perguntou Alícia, percebendo o olhar. — Nada... — Você tá com essa cara faz tempo. — Só acho engraçado certas coincidências. — Coincidências? — Vocês dois sempre estão na mesma festa. Alícia apenas deu de ombros. — A comunidade é pequena. — Sei... As amigas riram. Mas o assunto morreu ali. ... As semanas passaram. A rotina voltou ao normal. O campo continuava cheio todas as tardes. Os meninos jogavam bola praticamente todos os dias. As meninas apareciam de vez em quando para conversar, assistir aos jogos ou simplesmente passar um tempo juntas. Os olhares entre Bryan e Alícia continuavam acontecendo. Discretos. Rápidos. Quase sempre quando um achava que o outro não estava olhando. Bryan já sabia exatamente quem era Alícia. Alícia também já conhecia Bryan. Mas nenhum dos dois tinha dado o primeiro passo. Parecia que os dois esperavam o momento certo. E esse momento estava cada vez mais perto. O calendário avançou. Abril foi embora. Maio passou voando. Até que junho finalmente chegou. E, com ele, uma das épocas mais aguardadas da comunidade. As ruas começaram a ser enfeitadas com bandeirinhas coloridas. As barraquinhas começaram a ser montadas. O cheiro de milho cozido, canjica, pipoca e churrasquinho tomava conta do bairro. À noite, o forró já podia ser ouvido de longe. As crianças ensaiavam quadrilha. Os adultos organizavam a festa. E os adolescentes... Só pensavam em uma coisa. Quem encontrariam no arraiá. Mal sabiam eles que aquela festa junina seria responsável por aproximar alguns corações... e fazer outros acelerarem só com um simples cumprimento. _______________________ Bryan narrando Assim que entramos no arraiá, Henry abriu um sorriso. — Hoje é o dia. Olhei sem entender. — Dia de quê? — De você parar de ser frouxo. Todos começaram a rir. — Eu não vou fazer nada. — Vai sim. Lucas passou um braço pelo meu ombro. — Porque hoje tem correio elegante. Na mesma hora senti que aquilo não prestava. — Nem pensem... Henry sorriu daquele jeito que sempre significava problema. — Relaxa. — Quando você fala "relaxa", eu fico preocupado. ____________________ Do outro lado da festa... Alícia Narrando Nós cinco chegamos juntas. Helô usava um vestido vermelho xadrez. Lívia escolheu um azul. Sofia apareceu de maria-chiquinha. Pérola estava linda com um vestido vinho e botas. E eu... Optei por um vestido xadrez preto com vermelho. Assim que chegamos, Helô respirou fundo. — Eu amo festa junina. — Primeiro vamos comer. — disse Sofia. — Concordo. Enquanto caminhávamos entre as barracas... Senti alguém olhando. Levantei os olhos. Bryan. Ele também tinha acabado de me notar. Ficamos alguns segundos nos encarando. Até que os dois desviaram o olhar ao mesmo tempo. Pérola percebeu. Sorriu de canto. Mas não falou nada. ________________ Enquanto isso... Henry já estava colocando seu plano em prática. Ele puxou Lucas e Gabb para um canto. — Escutem. — Lá vem. — Vamos mandar um correio elegante pro Bryan. — Assinado por quem? Henry olhou discretamente para Alícia. — Por ninguém. Só quero ver a reação dos dois. Lucas caiu na risada. — Você é muito fofoqueiro. Poucos minutos depois... A moça do correio elegante subiu no palco. — Atenção! Temos um recado! A música abaixou um pouco. Ela abriu o papel. — Esse vai para... Bryan! Na mesma hora... Todos os amigos começaram a gritar. — AÊÊÊÊ! — FINALMENTE! Bryan levou a mão ao rosto. — Eu mato vocês. A mulher começou a ler. "Dizem que você vive procurando uma certa morena pela comunidade... Talvez esteja na hora de criar coragem e falar com ela. Assinado: alguém que já percebeu tudo." O arraiá inteiro deu risada. Henry e Lucas quase caíram no chão de tanto rir. Bryan olhou imediatamente para eles. — Foram vocês. — Prova. Mas o pior aconteceu. Sem querer... Bryan olhou na direção de Alícia. E encontrou exatamente ela olhando para o palco. Os dois prenderam o olhar por alguns segundos. Alícia sorriu, completamente sem graça. Bryan também. Foi a primeira vez que um sorriso surgiu entre os dois. Sem palavras. Só um sorriso. ________________ Cinco minutos depois... Henry voltou. — Agora é a vez do Ares. Ares arregalou os olhos. — Nem pensar. Ninguém ouviu. Outro papel foi entregue. A apresentadora sorriu. — Mais um correio elegante! Esse vai para... Ares! Os meninos começaram a bater palma. Pérola olhou curiosa. A mulher abriu o papel. "Tem um rapaz que toda vez que você passa esquece até o assunto da conversa. Só falta ele criar coragem para chegar em você. Assinado: os cupidos da comunidade." Ares ficou vermelho na hora. Henry gargalhava sem conseguir respirar. Pérola não conseguiu segurar a risada. Quando olhou para Ares... Ele estava completamente sem jeito. Ela resolveu provocar. Levantou discretamente a mão... E fez um pequeno aceno para ele. Ares respondeu quase automaticamente. Os amigos perceberam. — IH! — AGORA JÁ ERA! — O CUPIDO ACERTOU! Ares apenas abaixou a cabeça, rindo de vergonha. Bryan olhou para a cena e balançou a cabeça. — Vocês não prestam. Henry deu um sorriso de missão cumprida. — Ainda nem comecei. E, enquanto a quadrilha era anunciada no palco, ele já preparava mais uma ideia maluca para aproximar, nem que fosse por alguns minutos, Bryan de Alícia. Afinal, para Henry, toda boa história de amor precisava de um cupido... mesmo que fosse um completamente s*******o. ____________________ Ares narrando Respirei fundo. — Quer saber? Tenho dezoito anos. Se eu não criar coragem agora, vou ficar ouvindo o Henry me zoar pelo resto da vida. Lucas caiu na risada. — Finalmente falou igual homem. Vai lá. Balancei a cabeça, ri sem graça e comecei a andar em direção à Pérola. Quando ela me viu se aproximando, abriu um sorriso discreto. — Oi. — Oi... Tudo bem? — Tudo. E você? — Agora tô melhor. Ela riu baixinho. — Então... aquele correio elegante... Cocei a nuca, um pouco envergonhado. — Eu não escrevi... mas, se eu tivesse escrito, teria falado a mesma coisa. Pérola abaixou a cabeça sorrindo. — Seus amigos são impossíveis. — São mesmo... mas, dessa vez, acho que tenho que agradecer a eles. Ela levantou os olhos novamente. — Quer dar uma volta pela festa? — Quero. Enquanto isso,de longe, Henry observa a cena e dá um t**a no ombro do Bryan. — Tá vendo? O Ares teve coragem. Agora falta você. Bryan revira os olhos. — Para de cuidar da minha vida. Henry dá uma risada. — Pode deixar... daqui a pouco chega a sua vez também.
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