Capítulo 8 – Entre Perguntas e Olhares

714 Words
Alícia narrando O intervalo do jogo começou, e alguns dos meninos saíram do campo para beber água e descansar um pouco. Bryan veio junto, conversando e rindo com o restante do pessoal. Em determinado momento, parou perto de onde estávamos. — E aí? Vocês vêm aqui todo sábado? Sofia respondeu primeiro. — Quase todo. — A culpa é do Jonas — completou Pérola, rindo. — Se ele joga, a gente acaba vindo. Bryan deu um sorriso. — Então vocês já devem conhecer todo mundo por aqui. Alícia — Alguns de vista. Moro aqui perto há mais de trinta anos. Nem sempre sei o nome da pessoa, mas o rosto acaba ficando conhecido. Bryan arqueou as sobrancelhas, surpreso. — Sério? Assenti com um sorriso. — Esse local é praticamente minha segunda casa. Ele ficou pensativo por um instante. Então falou, em tom descontraído: — E aí... alguma de vocês já tá de olho em alguém daqui? Sofia foi a primeira a rir. — Credo... que pergunta aleatória! Pérola abaixou a cabeça para esconder o sorriso. Eu senti meu rosto esquentar. Não fazia sentido ficar nervosa. Era só uma pergunta. Mesmo assim, meu coração resolveu acelerar. — Não... — respondi rapidamente, antes que alguém resolvesse falar por mim. Bryan apenas assentiu, como se aquela resposta fosse suficiente. Mas, por um instante, tive a impressão de que ele tinha olhado para mim por tempo demais. __________________ Bryan narrando Eu tinha ido até perto da rede sem pensar muito. Ou, pelo menos, era isso que eu tentava convencer a mim mesmo. Os meninos continuaram conversando atrás de mim, mas minha atenção acabou parando no grupo das três meninas. Elas pareciam sempre estar juntas. A irmã do Jonas... a prima divertida... e a outra que vivia rindo das piadas delas. Respirei fundo. "Vai lá. É só conversar." Não era difícil falar com as pessoas. O difícil era fingir que eu não tinha um motivo. Comecei com perguntas simples. Perguntei se elas costumavam ir aos jogos, se moravam por ali e se já conheciam o pessoal do campo. Quando Alicia respondeu que morava ali havia mais de trinta anos, a informação ficou martelando na minha cabeça. Ela era mais velha do que eu imaginava. Mas, por algum motivo, isso não fez minha curiosidade diminuir. Muito pelo contrário. Eu queria conhecer um pouco mais sobre ela. Foi então que resolvi arriscar. — E aí... alguma de vocês tá interessada em alguém? Assim que terminei a pergunta, percebi que as três reagiram de um jeito diferente. A Sofia foi a primeira a rir. Pérola abaixou a cabeça, como se estivesse tentando esconder alguma coisa. Mas quem realmente chamou minha atenção foi a Alicia. Ela respondeu rápido demais. Como se quisesse encerrar o assunto antes que ele continuasse. Aquilo me fez pensar. "Será que ela ficou sem graça... ou só não queria responder?" Sorri de leve. Talvez eu ainda não tivesse resposta para essa pergunta. Mas tinha acabado de ganhar mais um motivo para continuar conversando com ela. — Alguns de vista — respondeu Alicia. — Moro aqui perto desde que nasci. Já faz mais de trinta anos. Por um instante, achei que tinha ouvido errado. Mais de trinta anos? Olhei para ela de novo, tentando disfarçar a surpresa. Ela não parecia se importar em falar aquilo com tanta naturalidade. Fiz as contas sem nem perceber. "Então..." "Ela é de 1990..." Engoli em seco. "Eu só tenho 15 anos." De repente, a diferença de idade apareceu na minha frente como uma placa impossível de ignorar. Dezoito anos. Era muita coisa. Qualquer pessoa no meu lugar provavelmente deixaria aquilo para lá. Eu deveria fazer o mesmo. Só que... Por mais que tentasse convencer a mim mesmo, minha curiosidade não diminuía. Se fosse apenas pela idade, aquele assunto já deveria ter acabado na minha cabeça. Mas não acabou. Continuei olhando para ela por alguns segundos. Ela ria da conversa com as primas, completamente alheia ao turbilhão que tinha acabado de criar dentro de mim. "Como isso foi acontecer logo comigo?" Balancei a cabeça, soltando um sorriso discreto. — Tá viajando, Bryan? — Fernandes perguntou. Voltei para a realidade. — Nada, não. Nada... ou pelo menos era isso que eu ia dizer. Porque, no fundo, eu sabia que aquela conversa tinha despertado uma curiosidade ainda maior.
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