Dante Narrando
Reunião marcada pra sete. Cheguei antes das seis e meia. Aprendi isso cedo. Quem manda, chega primeiro. Observa. Lê no silêncio o que os outros tentam esconder nas palavras. No morro, ninguém fala tudo o que pensa. Mas o corpo entrega, o olhar denuncia. A casa de reunião era na parte alta, num dos becos mais protegidos. A gente chamava de Reduto. Quatro homens na entrada, dois nos fundos, todos armados. Só entra quem tem nome e função. O resto nem respira perto.
Kael já tava lá. Sentado no canto, calado, olhando o celular como se quisesse se distrair de algo. Eu sabia o quê. Dei um toque com a cabeça. Ele retribuiu. Sem palavra. Do jeito que é. Aos poucos foram chegando: Tatu, que comanda a parte baixa; Russo, que cuida dos corres do Jardim; Zé Velho, da linha do trem; e Tonhão, meu contato direto com a milícia lá de baixo, onde o Estado faz de conta que manda.
Todos sentaram. Alguém fechou a porta.
Começou.
— A gente precisa falar do que tá vindo pela esquerda da grota — comecei, direto. — Tem movimentação estranha há uns três dias. Olheiro que não é nosso. Drone voando em área cega. E rádio mudo na boca da laje ontem à noite.
Russo foi o primeiro a responder:
— Isso é aviso, Dante. Os caras tão testando o campo. Querem ver se tua estrutura ainda aguenta.
— E aguenta — falei, seco.
Zé Velho coçou o queixo, pensativo:
— E tua irmã? Voltou agora por quê?
A pergunta caiu como chumbo no meio da sala. Ninguém falou por segundos. Só o estalo do isqueiro do Tatu quebrou o clima.
— Isso não é pauta. Assunto de família fica fora da mesa.
— Se fosse só família, tudo bem. Mas é sangue teu. E sangue teu mexe com tudo aqui dentro — insistiu Tonhão, olhando direto pra mim. — Pior ainda se tiver envolvimento com funcionário teu.
Kael nem se mexeu. Mas eu percebi. O maxilar travou.
— Tô sabendo de uns boatos — Tonhão continuou. — Gente do lado de fora dizendo que tua irmã voltou pra tomar lugar. Que tá mexendo onde não devia. Se ela abrir a boca errada...
— Ninguém vai abrir boca nenhuma — cortei.
A tensão subiu. Mas meu tom impõe. Sempre impôs.
— Minha irmã tá de luto. Veio enterrar a mãe. Não veio buscar guerra. Mas se tentarem fazer dela isca, eu mesmo boto fogo em quem for.
Silêncio. Todo mundo sabia que eu não ameaçava à toa.
Zé Velho deu um gole no café frio e jogou:
— E se o que matou tua mãe não foi natural?
Aquilo me travou por dentro. Mas por fora, não deixei vazar nada.
— Tu tá dizendo o quê?
— Tô dizendo que todo mundo sente quando a energia muda. E desde que tua irmã voltou, tem coisa se movendo no escuro. Muita gente calada demais. Isso, pra mim, é pista.
Kael olhou pra mim. Rápido. Quase imperceptível. Mas vi que ele também já tinha pensado nisso. Talvez a morte da mãe não tenha sido só fatalidade.
Talvez...
Mas não ali. Não na frente de todo mundo.
— A reunião acabou — falei, levantando. — Aumenta a ronda na grota. Reforça o ponto do Cimento. E qualquer passo fora do script, vocês me avisam. Direto. Sem intermediário.
Todo mundo levantou. Ninguém discutiu. Enquanto saíam, puxei Kael de lado.
— Ela mexeu em alguma coisa?
Ele hesitou.
— Achou um caderno. Um bilhete. Coisa da mãe.
Senti o sangue gelar. A garganta fechar.
— Ela te mostrou?
— Não. Mas eu vi no olhar. Ela vai cavar. E não vai parar até encontrar o fundo.
Fiquei quieto. Pensando rápido.
Se a Luna acha a verdade... tudo desmorona. Inclusive o que a gente fez pra protegê-la.
— Então tu vai fazer uma escolha — falei, olhando direto nos olhos dele. — Ou tu protege ela... ou tu protege o que resta de nós.
Ele ficou em silêncio. Mas o silêncio dele... já era resposta. E isso, pra mim, era o começo do fim. Fiquei na casa da reunião até o último sair. Sentei de novo. Apaguei a luz. Fiquei só com o cigarro aceso e a cabeça fervendo. Eles não falam com todas as letras, mas eu sei. Estão desconfiando. Testando minha firmeza. Achando que minha irmã é rachadura. Que meu sangue virou fraqueza. Mas se tem uma coisa que aprendi, é que nesse jogo não dá pra demonstrar nada. Nem cansaço, nem dor, nem dúvida. Principalmente dúvida. Porque no dia que tu hesita, o morro engole. A liderança quebra. E o respeito vira pó. A pergunta do Zé Velho não saiu da minha mente: E se o que matou tua mãe não foi natural?
Eu já tinha pensado nisso. Mas só pensar já doía. Porque se for verdade... então tem traidor dentro do meu círculo. E isso é pior do que qualquer invasão de rival. Isso é apodrecimento interno. É podridão enraizada. E se minha mãe foi calada? Se foi eliminada porque sabia de algo? Talvez sobre mim. Sobre os acordos que tive que fazer. Sobre as mortes que autorizei. Ou... talvez sobre o pai da Luna. Porque sim. Isso também é um buraco que ninguém nunca teve coragem de abrir. O homem que todo mundo achava ser nosso pai... não era dela. E ela nunca soube. Ou soube tarde demais.
Passei a mão na testa. O suor escorrendo devagar, mesmo com a brisa da madrugada entrando pela janela. Pensei na Luna pequena. O jeito que ela me seguia pela casa. Que me perguntava tudo. Que me olhava como se eu fosse herói. Pensei no dia em que tive que mandá-la embora. No ônibus descendo a serra com ela sem entender nada. No jeito que ela chorava sem fazer barulho. Eu não soube consolar. Só soube proteger. E às vezes... proteger é sumir com a pessoa do perigo. Ou da verdade. Mas agora ela voltou. E voltou com sede. Sede de saber. Sede de tocar em ferida. E pior... sede de olhar pro Kael com aquela intensidade que ninguém mais viu.
Kael.
Aquele desgraçado é o único homem que eu respeito de verdade. Porque ele não finge. Porque ele é leal. Mas é por isso mesmo que ele me fode. Porque se tiver que escolher entre mim e ela... Ele vai escolher ela. E eu não posso permitir. Ou melhor. Não posso ignorar. Levantei da cadeira, joguei o cigarro fora, ajeitei o rádio no cinto e saí andando pelo beco. Cada passo meu era um martelo dentro do crânio. Eu precisava achar uma solução. Rápida. Talvez tirar a Luna de novo. Talvez cortar o Kael. Ou talvez encarar que o passado voltou pra cobrar o preço. E dessa vez... não vai ter como pagar sem sangue.