Só o que não dizem

1280 Words
Luna Narrando Acordei com o sol invadindo o quarto pela fresta da cortina. O mesmo quarto que um dia foi da minha mãe. Agora parecia menor. Mais escuro, mesmo com a luz. Os móveis não mudaram. A cômoda velha ainda estava lá, com a tampa da gaveta quebrada. A colcha tinha cheiro de guardado, de ausência, de tempo que passou sem ninguém limpar as lembranças. Sentei na beira da cama, abracei os joelhos e fiquei ali, escutando o morro respirar lá fora. O som do ferro batendo, da panela esquentando, da moto subindo a ladeira, dos cachorros latindo ao longe. Tudo como antes. Só eu que já não era a mesma. Levantei, prendi o cabelo, lavei o rosto com a água fria da pia e olhei meu reflexo no espelho rachado. — Você voltou. Agora aguenta. Saí do quarto devagar. A casa tava em silêncio, mas eu sentia os olhos mesmo quando ninguém falava. Desci pra cozinha e encontrei a mesa posta com um prato só. Um. Achei estranho. Mãe sempre colocava dois, no mínimo. Por hábito. Por cuidado. Dante não tava. Mas deixou café passado. E um bilhete rabiscado no papel de pão: — Volto à noite. Tem reunião. Não sai sozinha. Kael vai passar aqui. Suspirei fundo. Ele ainda achava que podia me dar ordens. Como se eu tivesse doze anos. Como se eu tivesse esquecido como é ser filha da guerra. Preparei meu café, comi em silêncio, e fiquei olhando a janela. Lá fora, as pessoas passavam e olhavam. Não diretamente. Nunca diretamente. Mas pelos cantos dos olhos. Julgando. Comentando. Tentando entender o que a irmã do patrão veio fazer aqui depois de tanto tempo. Terminei de comer e fui até o portão. De lá dava pra ver o beco da frente. As paredes cheias de marcas, os fios pendurados, o menino vendendo bala no canto da viela. Tudo igual. Tudo... distorcido. E foi ali, do nada, que ele apareceu. Kael. Veio subindo devagar, com a camisa colada no corpo, suor na testa e o olhar de sempre. O olhar que diz tudo sem precisar de uma palavra. O olhar que me desnuda mesmo de roupa. Ele parou diante do portão e ficou ali, me olhando. Como se não soubesse se entrava ou se fugia. — Bom dia — falei, quebrando o gelo. — Não sei se é. Mas tô tentando. — Meu irmão te mandou? — Ele acha que preciso te vigiar. Eu acho que só vim porque quis. Aquelas palavras me acertaram num lugar que eu vinha tentando ignorar. O mesmo lugar que latejou quando vi ele pela primeira vez, ontem. O mesmo que não me deixou dormir. Abri o portão. — Então entra. Já que veio. Ele entrou devagar, como se pisasse em território proibido. E de certa forma, tava mesmo. Porque aqui dentro, a gente era só Kael e Luna. Sem farda. Sem função. Sem Dante no meio. — Tá diferente — ele disse, encostando na bancada da cozinha. — Você também. — Eu fiquei. Tu fugiu. — Eu não fugi. Fui arrancada. Ele assentiu. Mas não respondeu. E isso dizia mais do que qualquer frase. — Por que você nunca procurou por mim? — soltei. Sem filtro. Sem defesa. Kael me encarou. Demorou. Depois disse, baixo: — Porque se eu procurasse... não ia mais conseguir soltar. O silêncio que se fez depois disso foi denso. Cortava o ar. — Minha mãe morreu do nada — falei, desviando os olhos — Disseram que foi parada no coração. Mas ela não tinha nada. Nada grave. Eu sei que tem coisa errada. — Tem muita coisa errada nesse morro, Luna. E tu sabe disso. — Eu quero a verdade. — E se a verdade for pior do que tu aguenta? — Eu não vim aqui pra aguentar. Vim pra descobrir. E eu não vou parar até saber o que realmente matou minha mãe. Ele fechou os olhos por um segundo, como se aquilo doesse nele também. — Então começa perguntando pro teu irmão. — Ele não fala. — Às vezes o que não é dito diz mais do que parece. Ficamos ali, em pé, frente a frente. Os dois quebrados. Os dois presos. Kael me olhou de novo. O olhar era o mesmo de antes. Aquele que beirava a loucura. — Tu não faz ideia do que tá mexendo, Luna. — Faço sim. Eu só não tenho mais medo. Ele respirou fundo. Passou a mão na nuca. Se aproximou. Só um passo. Mas foi o bastante. A tensão entre nós era quase física. Se ele me tocasse, eu não recuaria. E talvez ele soubesse disso. Porque não tocou. Se afastou. — Vou ficar do lado de fora. Qualquer coisa, chama. E saiu. Deixando pra trás só o cheiro, a tensão e um rastro de sentimento que eu não sabia se podia permitir. Mas uma coisa eu já entendia: O que me trouxe de volta foi a morte da minha mãe. Mas o que vai me manter aqui... é ele. Kael. Meu erro antigo. Meu perigo constante. Meu desejo mais errado. Kael saiu, e o silêncio voltou comigo. Mas não era um silêncio leve. Era daqueles que grudam na pele, que andam pela casa com a gente. Um silêncio cheio de coisa não dita, cheio de desejo contido e memória demais. Encostei na porta, tentando normalizar a respiração. O coração ainda batia rápido. Cada vez que ele se aproximava, meu corpo inteiro gritava. Não era só química. Era história. Era dor misturada com vontade. Era lembrança e falta tudo junto. Eu devia me afastar. Devia colocar uma muralha entre nós. Mas em vez disso, fui até o quarto da minha mãe. Abri a gaveta da cômoda, aquela com a alça quebrada, e comecei a fuçar. A parte de baixo ainda tinha algumas coisas dela. Lenços, umas cartas antigas, uma Bíblia marcada com pedaços de papel. E no fundo... encontrei uma agenda. Velha, de capa marrom, as folhas amareladas. Quando abri, senti o cheiro da minha infância. A caligrafia dela era firme, como sempre. Mãe escrevia como quem queria manter o mundo sob controle. Folheei sem pressa. Anotações do mercado, compromissos com a igreja, consultas médicas. Tudo normal. Até que uma frase me parou. — Ele voltou. Disse que o que sabe pode destruir tudo. Não sei mais quem proteger. A mão congelou. Não havia data exata. Mas era recente. Pelo tipo de caneta, pelo lugar onde a anotação estava. E o pior… havia várias outras páginas rasgadas logo depois. Ele quem? O que ele sabe? E o que exatamente minha mãe queria proteger? Fechei o caderno com cuidado, sentindo o estômago revirar. Peguei o caderninho e enfiei dentro da mochila sem fazer barulho. Voltei pra cozinha, tentando parecer normal, mas minha cabeça tava a mil. Sentei na cadeira e fiquei olhando pra porta. Kael tava lá fora. Vigiando. Protegendo. Fingindo que era só mais uma missão. Mas eu sabia que não era. Nem pra ele. Nem pra mim. O que me preocupava de verdade era outra coisa. Se minha mãe deixou pistas... é porque sabia que algo ia acontecer. E se alguém descobrisse que eu encontrei isso... podia ser perigoso. Levantei devagar. Fui até a porta. Abri. Kael tava encostado na parede, o rádio na mão, a arma no cós da calça, olhar atento. Ele virou o rosto pra mim. Só com o olhar, sabia que ele sentia a diferença. — Tá tudo bem? — perguntou. — Não. Mas vai ficar. Ele não respondeu. Só assentiu. Como quem entende quando a guerra começa por dentro. E talvez fosse isso. A guerra começou. E eu não ia parar. Nem por dor. Nem por amor. Nem por ele.
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