Capítulo 10 - Aquele beijo

1576 Words
O restaurante já estava fechando. As luzes mais fracas, as cadeiras viradas sobre as mesas, e o cheiro de sabão misturado ao de comida ainda no ar. Cecília limpava o balcão enquanto Maia recolhia os pratos. — Tu quer carona, Cê? — perguntou Maia. — O Tiago tá vindo me buscar. — Não precisa, eu vou a pé. É pertinho. Maia franziu o cenho. — Sozinha de novo? — Eu tô acostumada, Maia. — — Tá, mas se tu sumir, eu conto pra tua mãe que tu virou abduzida, hein. — brincou, pegando a bolsa. Elas se abraçaram rápido. Maia saiu rindo, e Cecília ficou pra terminar de guardar as coisas. O silêncio se instalou, quebrado só pelo som dos talheres sendo empilhados e da chuva fina começando lá fora. Quando finalmente trancou a porta e saiu, o morro estava diferente. As vielas molhadas refletiam as luzes fracas dos postes. O ar estava frio, pesado. Ela ajeitou a mochila nas costas e começou a andar, encolhendo-se sob o capuz. Passou por becos conhecidos, tentando ignorar o medo que sempre vinha com a noite. Até sentir o arrepio. Aquela sensação de que alguém a observava. Virou o rosto — e lá estava ele. Encostado na parede, o cigarro entre os dedos, o olhar fixo. FK. A fumaça se misturava à chuva fina, e o som da água caindo parecia marcar o compasso do silêncio entre eles. Ele deu dois passos à frente. — Eu falei pra tu não andar sozinha. — — Eu só… vim andando pra casa. — respondeu, com a voz trêmula. — No morro, isso é o mesmo que pedir pra desaparecer. — — Você não é meu dono. — Ele soltou uma risada curta, quase sem humor. — Ainda bem. Cecília ficou parada. Queria ir embora, mas os pés não obedeciam. O olhar dele a prendia — firme, intenso, frio e, de algum jeito, vivo. — O que você quer comigo? — perguntou, sem conseguir conter. Ele ficou em silêncio por um instante. Depois deu mais um passo. Estava tão perto que ela podia sentir o calor do corpo dele contrastando com o frio da noite. — Eu também queria saber. — respondeu, a voz baixa. A respiração dela ficou presa. O coração batia rápido demais, o som das gotas ecoava nas paredes estreitas da viela. Ele ergueu a mão devagar, os dedos roçando de leve uma mecha molhada do cabelo dela, afastando-a do rosto. O toque foi quase nada — mas suficiente pra fazê-la estremecer. — Tu devia fugir de mim, Cecília. — murmurou. — Mas eu sei que não vai. Ela levantou o olhar, os olhos verdes brilhando sob a chuva. — E você devia me deixar em paz. — Também sei que não vou. — O mundo ficou suspenso. Os rostos tão próximos que bastaria um movimento pra que o inevitável acontecesse. O ar cheirava a chuva e perigo. Mas ele parou. Respirou fundo, recuou um passo, e o olhar voltou a ser o mesmo de sempre — frio, impenetrável. — Vai pra casa. — disse, apagando o cigarro com os dedos e jogando fora. — Antes que eu mude de ideia. Cecília ficou parada por alguns segundos, sem conseguir responder. Depois apenas acenou, virando-se devagar. Caminhou rápido, sentindo o coração em chamas e o corpo inteiro tremendo. FK ficou ali, sozinho na viela, observando a sombra dela desaparecer. A chuva engrossou. E ele pensou, irritado, que fazia tempo demais desde a última vez que alguma coisa o fez perder o controle. --- A Rocinha já dormia em meio ao som distante dos bares, o cheiro de fumaça e as luzes piscando nas vielas. Cecília apertava o passo, a mochila nas costas, o coração batendo rápido. O relógio marcava quase meia-noite, e o vento frio da madrugada fazia o corpo dela arrepiar. Ela virou a esquina do beco principal, o mesmo por onde sempre passava, mas dessa vez sentiu um arrepio diferente — o tipo de sensação que avisa que alguém a observa. — Tá tarde pra andar sozinha, princesa. — a voz veio de trás, firme, baixa, carregada de autoridade. Ela se virou devagar e o viu — o homem de presença inconfundível, a sombra que fazia o morro silenciar. FK estava encostado numa moto preta, cigarro aceso entre os dedos e aquele olhar cor de mel, frio e indecifrável, preso nela. — Não é da sua conta — respondeu, tentando manter o tom firme, mesmo com a garganta apertada. — Aqui tudo é da minha conta — ele rebateu, soltando a fumaça com calma. — Ainda mais quando uma menina resolve atravessar o beco sozinha, essa hora. — Eu não pedi pra você se preocupar comigo. Ele riu baixo, um som rouco, provocante. — E eu também não pedi pra você responder desse jeito. Cecília deu um passo pra trás, mas ele avançou, com a calma de quem domina o espaço. A luz fraca do poste refletia nas cicatrizes do rosto dele, nos traços duros e perigosos. — Por que você sempre fala como se fosse dono de tudo? — ela sussurrou, irritada e nervosa. — Como se todo mundo tivesse que se curvar pra você? Ele parou bem perto, o suficiente pra ela sentir o cheiro forte do perfume misturado com o da pólvora. — Porque aqui em cima, ou você domina... ou é dominado. — a voz dele soou baixa, quase um sussurro. O silêncio entre eles pesou. O olhar dele desceu pros lábios dela, e Cecília tentou desviar, mas não conseguiu. O coração batia descompassado, e o medo se confundia com algo que ela não queria nomear. FK inclinou a cabeça, a respiração quente tocando o rosto dela. — Você devia me odiar, né? — murmurou, provocando. — Eu... eu não sei o que sentir. — respondeu quase num fio de voz. Foi então que ele segurou o queixo dela com firmeza, sem dar tempo pra pensar. O beijo veio como uma faísca — forte, inesperado, carregado de raiva e desejo contido. Cecília tentou resistir, mas o corpo não obedeceu. O tempo parou por um instante, e o beco pareceu inteiro pertencer só aos dois. Quando FK se afastou, o olhar dele estava mais sombrio ainda. — Não devia ter feito isso — ele disse, a voz rouca, como se falasse mais pra si do que pra ela. — Então por que fez? — Cecília perguntou, ofegante, os olhos marejados de confusão. Ele jogou o cigarro no chão e respondeu sem olhar pra ela: — Porque eu sempre pego o que quero. Mesmo quando não devia. E antes que ela pudesse responder, FK subiu na moto, ligou o motor e desapareceu na curva do beco, deixando Cecília ali — tremendo, perdida entre o medo e algo muito mais perigoso: a vontade de sentir de novo. --- O ronco da moto cortava a madrugada da Rocinha, mas o barulho não era suficiente pra abafar o que ecoava dentro da cabeça dele. FK acelerava sem destino, descendo pelas vielas, desviando de becos e luzes piscando, tentando — em vão — apagar a lembrança do que acabara de acontecer. O gosto dela ainda estava ali. Suave. Doce. Errado. Ele parou a moto de repente, no alto do mirante, onde dava pra ver o morro inteiro — o território dele, o império que construiu com sangue, suor e medo. Tirou o capacete e acendeu outro cigarro. O vento batia forte, mas a mente dele queimava mais que a ponta do filtro. “Merda.” A palavra escapou entre os dentes, quase num rosnado. Ele nunca perdia o controle. Nunca. Mas bastou aquela garota — aquela menina com olhar limpo demais praquele lugar — atravessar o caminho dele e tudo pareceu desandar por um segundo. Um segundo de fraqueza. FK respirou fundo, o cigarro tremendo levemente entre os dedos. Não era amor, nem podia ser. Aquilo era curiosidade, instinto, sei lá. Ela era só... diferente. Diferente demais pra ele tocar. E mesmo assim ele tocou. Jogou o cigarro longe e passou as mãos pelo rosto, frustrado. Na cabeça, flashes do beijo: os olhos dela arregalados, a respiração presa, a boca macia. Aquilo não era pra ter acontecido. Ele não era o tipo que se deixava levar. FK não se apaixonava. FK não se apegava. Lá embaixo, o morro seguia vivo — gente bebendo, rindo, vendendo, correndo. Mas dentro dele, o caos era silencioso. O celular vibrou no bolso. Era o PH. — Fala. — a voz de FK saiu seca, fria. — Tá tudo certo na boca. Mas os cara do Complexo tão se mexendo. — Deixa eles tentarem. — respondeu, sem hesitar. — Amanhã eu resolvo. Desligou sem se despedir. A mente ainda presa em Cecília. Por que diabos ele se importava? Não era por desejo — ele já teve dezenas de mulheres, todas descartáveis. Mas aquela menina... o olhar dela o atravessava como uma lâmina. Ela não pertencia àquele mundo, e isso o irritava profundamente. Porque uma parte dele queria que ela continuasse longe. E outra, a parte mais obscura, queria puxá-la pra dentro — pra dentro da escuridão dele, onde ninguém mais saia o mesmo. FK guardou a arma na cintura e deu a partida de novo. O motor rugiu e ele acelerou, como se pudesse fugir de si mesmo. Mas sabia que não adiantava. Porque a partir daquele beijo, aquela menina de olhos verdes tinha cruzado a linha. E ninguém cruza a linha de FK. ---
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD