O restaurante já estava fechando.
As luzes mais fracas, as cadeiras viradas sobre as mesas, e o cheiro de sabão misturado ao de comida ainda no ar.
Cecília limpava o balcão enquanto Maia recolhia os pratos.
— Tu quer carona, Cê? — perguntou Maia. — O Tiago tá vindo me buscar.
— Não precisa, eu vou a pé. É pertinho.
Maia franziu o cenho. — Sozinha de novo?
— Eu tô acostumada, Maia. —
— Tá, mas se tu sumir, eu conto pra tua mãe que tu virou abduzida, hein. — brincou, pegando a bolsa.
Elas se abraçaram rápido. Maia saiu rindo, e Cecília ficou pra terminar de guardar as coisas.
O silêncio se instalou, quebrado só pelo som dos talheres sendo empilhados e da chuva fina começando lá fora.
Quando finalmente trancou a porta e saiu, o morro estava diferente.
As vielas molhadas refletiam as luzes fracas dos postes.
O ar estava frio, pesado.
Ela ajeitou a mochila nas costas e começou a andar, encolhendo-se sob o capuz.
Passou por becos conhecidos, tentando ignorar o medo que sempre vinha com a noite.
Até sentir o arrepio.
Aquela sensação de que alguém a observava.
Virou o rosto — e lá estava ele.
Encostado na parede, o cigarro entre os dedos, o olhar fixo.
FK.
A fumaça se misturava à chuva fina, e o som da água caindo parecia marcar o compasso do silêncio entre eles.
Ele deu dois passos à frente.
— Eu falei pra tu não andar sozinha. —
— Eu só… vim andando pra casa. — respondeu, com a voz trêmula.
— No morro, isso é o mesmo que pedir pra desaparecer. —
— Você não é meu dono. —
Ele soltou uma risada curta, quase sem humor.
— Ainda bem.
Cecília ficou parada. Queria ir embora, mas os pés não obedeciam.
O olhar dele a prendia — firme, intenso, frio e, de algum jeito, vivo.
— O que você quer comigo? — perguntou, sem conseguir conter.
Ele ficou em silêncio por um instante.
Depois deu mais um passo.
Estava tão perto que ela podia sentir o calor do corpo dele contrastando com o frio da noite.
— Eu também queria saber. — respondeu, a voz baixa.
A respiração dela ficou presa.
O coração batia rápido demais, o som das gotas ecoava nas paredes estreitas da viela.
Ele ergueu a mão devagar, os dedos roçando de leve uma mecha molhada do cabelo dela, afastando-a do rosto.
O toque foi quase nada — mas suficiente pra fazê-la estremecer.
— Tu devia fugir de mim, Cecília. — murmurou. — Mas eu sei que não vai.
Ela levantou o olhar, os olhos verdes brilhando sob a chuva.
— E você devia me deixar em paz.
— Também sei que não vou. —
O mundo ficou suspenso.
Os rostos tão próximos que bastaria um movimento pra que o inevitável acontecesse.
O ar cheirava a chuva e perigo.
Mas ele parou.
Respirou fundo, recuou um passo, e o olhar voltou a ser o mesmo de sempre — frio, impenetrável.
— Vai pra casa. — disse, apagando o cigarro com os dedos e jogando fora. — Antes que eu mude de ideia.
Cecília ficou parada por alguns segundos, sem conseguir responder.
Depois apenas acenou, virando-se devagar.
Caminhou rápido, sentindo o coração em chamas e o corpo inteiro tremendo.
FK ficou ali, sozinho na viela, observando a sombra dela desaparecer.
A chuva engrossou.
E ele pensou, irritado, que fazia tempo demais desde a última vez que alguma coisa o fez perder o controle.
---
A Rocinha já dormia em meio ao som distante dos bares, o cheiro de fumaça e as luzes piscando nas vielas. Cecília apertava o passo, a mochila nas costas, o coração batendo rápido. O relógio marcava quase meia-noite, e o vento frio da madrugada fazia o corpo dela arrepiar.
Ela virou a esquina do beco principal, o mesmo por onde sempre passava, mas dessa vez sentiu um arrepio diferente — o tipo de sensação que avisa que alguém a observa.
— Tá tarde pra andar sozinha, princesa. — a voz veio de trás, firme, baixa, carregada de autoridade.
Ela se virou devagar e o viu — o homem de presença inconfundível, a sombra que fazia o morro silenciar. FK estava encostado numa moto preta, cigarro aceso entre os dedos e aquele olhar cor de mel, frio e indecifrável, preso nela.
— Não é da sua conta — respondeu, tentando manter o tom firme, mesmo com a garganta apertada.
— Aqui tudo é da minha conta — ele rebateu, soltando a fumaça com calma. — Ainda mais quando uma menina resolve atravessar o beco sozinha, essa hora.
— Eu não pedi pra você se preocupar comigo.
Ele riu baixo, um som rouco, provocante. — E eu também não pedi pra você responder desse jeito.
Cecília deu um passo pra trás, mas ele avançou, com a calma de quem domina o espaço. A luz fraca do poste refletia nas cicatrizes do rosto dele, nos traços duros e perigosos.
— Por que você sempre fala como se fosse dono de tudo? — ela sussurrou, irritada e nervosa. — Como se todo mundo tivesse que se curvar pra você?
Ele parou bem perto, o suficiente pra ela sentir o cheiro forte do perfume misturado com o da pólvora. — Porque aqui em cima, ou você domina... ou é dominado. — a voz dele soou baixa, quase um sussurro.
O silêncio entre eles pesou. O olhar dele desceu pros lábios dela, e Cecília tentou desviar, mas não conseguiu.
O coração batia descompassado, e o medo se confundia com algo que ela não queria nomear.
FK inclinou a cabeça, a respiração quente tocando o rosto dela. — Você devia me odiar, né? — murmurou, provocando.
— Eu... eu não sei o que sentir. — respondeu quase num fio de voz.
Foi então que ele segurou o queixo dela com firmeza, sem dar tempo pra pensar.
O beijo veio como uma faísca — forte, inesperado, carregado de raiva e desejo contido.
Cecília tentou resistir, mas o corpo não obedeceu. O tempo parou por um instante, e o beco pareceu inteiro pertencer só aos dois.
Quando FK se afastou, o olhar dele estava mais sombrio ainda.
— Não devia ter feito isso — ele disse, a voz rouca, como se falasse mais pra si do que pra ela.
— Então por que fez? — Cecília perguntou, ofegante, os olhos marejados de confusão.
Ele jogou o cigarro no chão e respondeu sem olhar pra ela:
— Porque eu sempre pego o que quero. Mesmo quando não devia.
E antes que ela pudesse responder, FK subiu na moto, ligou o motor e desapareceu na curva do beco, deixando Cecília ali — tremendo, perdida entre o medo e algo muito mais perigoso: a vontade de sentir de novo.
---
O ronco da moto cortava a madrugada da Rocinha, mas o barulho não era suficiente pra abafar o que ecoava dentro da cabeça dele.
FK acelerava sem destino, descendo pelas vielas, desviando de becos e luzes piscando, tentando — em vão — apagar a lembrança do que acabara de acontecer.
O gosto dela ainda estava ali.
Suave. Doce. Errado.
Ele parou a moto de repente, no alto do mirante, onde dava pra ver o morro inteiro — o território dele, o império que construiu com sangue, suor e medo. Tirou o capacete e acendeu outro cigarro. O vento batia forte, mas a mente dele queimava mais que a ponta do filtro.
“Merda.”
A palavra escapou entre os dentes, quase num rosnado.
Ele nunca perdia o controle.
Nunca.
Mas bastou aquela garota — aquela menina com olhar limpo demais praquele lugar — atravessar o caminho dele e tudo pareceu desandar por um segundo.
Um segundo de fraqueza.
FK respirou fundo, o cigarro tremendo levemente entre os dedos.
Não era amor, nem podia ser. Aquilo era curiosidade, instinto, sei lá. Ela era só... diferente.
Diferente demais pra ele tocar.
E mesmo assim ele tocou.
Jogou o cigarro longe e passou as mãos pelo rosto, frustrado.
Na cabeça, flashes do beijo: os olhos dela arregalados, a respiração presa, a boca macia.
Aquilo não era pra ter acontecido. Ele não era o tipo que se deixava levar.
FK não se apaixonava. FK não se apegava.
Lá embaixo, o morro seguia vivo — gente bebendo, rindo, vendendo, correndo.
Mas dentro dele, o caos era silencioso.
O celular vibrou no bolso. Era o PH.
— Fala. — a voz de FK saiu seca, fria.
— Tá tudo certo na boca. Mas os cara do Complexo tão se mexendo.
— Deixa eles tentarem. — respondeu, sem hesitar. — Amanhã eu resolvo.
Desligou sem se despedir.
A mente ainda presa em Cecília.
Por que diabos ele se importava?
Não era por desejo — ele já teve dezenas de mulheres, todas descartáveis. Mas aquela menina... o olhar dela o atravessava como uma lâmina.
Ela não pertencia àquele mundo, e isso o irritava profundamente.
Porque uma parte dele queria que ela continuasse longe.
E outra, a parte mais obscura, queria puxá-la pra dentro — pra dentro da escuridão dele, onde ninguém mais saia o mesmo.
FK guardou a arma na cintura e deu a partida de novo.
O motor rugiu e ele acelerou, como se pudesse fugir de si mesmo.
Mas sabia que não adiantava.
Porque a partir daquele beijo, aquela menina de olhos verdes tinha cruzado a linha.
E ninguém cruza a linha de FK.
---