Capítulo 11 - Talvez o último

1333 Words
O despertador tocou antes mesmo que Cecília conseguisse dormir direito. A cabeça ainda girava, a boca ainda lembrava. Era como se o beijo tivesse ficado grudado nela, queimando a pele, o pensamento, tudo. Ela se levantou devagar, o corpo leve e pesado ao mesmo tempo. Olhou pro espelho e quase não se reconheceu — os olhos verdes estavam fundos, perdidos, e o coração batia do mesmo jeito que na noite anterior: rápido, descompassado, confuso. Na cozinha, Rute preparava o café enquanto Carla falava ao telefone com PH. Clara, como sempre, se arrumava demais pra sair. — Dormiu bem, menina? — perguntou a mãe, sem olhar pra ela. — Dormi. — mentiu, mexendo distraída no pão. Mas a verdade era que cada vez que piscava, via de novo o olhar dele. A firmeza, a proximidade, o jeito como o tempo parou por um segundo. E depois... o nada. Quando deu meio-dia, Cecília encontrou Maia no restaurante da dona Ivonete. A amiga tava rindo atrás do balcão, ajudando a mãe, o cabelo preso num coque alto, o sorriso de sempre. — Até que enfim, sumida! — Maia disse, animada. — Achei que cê tinha sido sequestrada. — É o cansaço. — respondeu Cecília, tentando disfarçar. Mas não passou despercebido. Maia era esperta demais pra deixar passar. — Cê tá diferente. — ela disse, estreitando os olhos. — O que foi? Cecília respirou fundo. Devia negar. Devia. Mas as palavras escaparam antes que pudesse segurar: — Eu... encontrei o FK ontem à noite. Maia largou o pano que segurava, arregalando os olhos. — O quê? Tá maluca, Cecília? Encont... como assim encontrou? — Eu tava voltando do trabalho... a gente discutiu e... — a voz dela falhou. — Ele me beijou. O restaurante ficou pequeno de repente. Maia piscou, sem acreditar. — Ele te beijou? Cecília apenas assentiu, envergonhada. — Cecília, cê tem noção do que tá falando? — a amiga sussurrou, nervosa. — É o FK! O cara que todo mundo respeita, que manda no morro inteiro! — Eu sei... — ela respondeu, a voz trêmula. — Mas foi tudo tão... rápido. Maia passou a mão no rosto, tentando processar. — E você... gostou? — perguntou baixinho, quase com medo da resposta. Cecília desviou o olhar. O silêncio dela foi suficiente pra responder. Maia suspirou, olhando em volta pra se certificar de que ninguém ouvia. — Amiga... cê tá brincando com fogo. Esse tipo de homem não é pra gente. Ele é perigo puro, entendeu? — Eu sei... — Cecília sussurrou. — Mas eu não consigo parar de pensar nele. Maia balançou a cabeça, preocupada. — Promete pra mim que vai se cuidar, tá? Que não vai atrás dele. — Eu prometo. — respondeu, mas sabia que era mentira. Porque lá no fundo, mesmo com o medo apertando o peito, ela sentia algo que não fazia sentido. E o pior — uma parte dela tinha certeza de que FK também não tinha esquecido. --- O sol do fim da tarde queimava o alto do morro, e o cheiro de churrasco e fumaça misturava com o som distante de motos e funk vindo da praça. FK subia a viela principal, ladeado por dois seguranças, observando tudo com aquele olhar atento de predador. Nada escapava dele. Nem os olhares. Nem os cochichos. Nem o movimento estranho de quem devia estar quieto. Mas o que o fez parar não foi nada disso. Foi o som de uma risada. Alta, leve, limpa — destoava daquele ambiente. FK virou o rosto na direção do som e viu ela. Cecília. Com o cabelo solto, uma blusa simples e o sorriso que ele não conseguiu esquecer desde aquela noite no beco. Ela subia o morro conversando com um vizinho — um garoto da idade dela, rindo, falando perto demais. E aquilo... incomodou. Incomodou de um jeito que ele não sabia explicar. — Que foi, chefe? — perguntou PH, que vinha logo atrás. FK não respondeu. Só ficou observando. O cara estendeu a mão pra pegar uma sacola que Cecília carregava, e ela riu de novo, agradecendo. FK trincou o maxilar, o olhar se tornando uma linha de gelo. — Quem é aquele? — ele perguntou baixo. PH olhou rápido. — Vizinho dela, eu acho. Trabalha num mercado lá embaixo. — Tá muito à vontade pro meu gosto. — respondeu FK, a voz cortante. PH deu uma risada curta. — Tá parecendo até ciúme, chefe. FK lançou um olhar tão frio que o amigo preferiu ficar quieto. Ele observou enquanto o garoto se despedia de Cecília e ela seguia sozinha, subindo a viela. O vento bagunçou o cabelo dela, e por um instante, FK sentiu de novo aquela sensação irritante de vulnerabilidade — algo que ele odiava. “Isso não pode acontecer de novo.” Pensou, acendendo um cigarro e tragando fundo. Mas o problema é que já tinha acontecido. E cada vez que ele via Cecília, o controle que tanto prezava parecia escorregar pelos dedos. PH quebrou o silêncio: — Vai deixar barato? — Por enquanto. — respondeu, frio. — Quero ver até onde ela vai achar que pode brincar comigo. Jogou o cigarro no chão, esmagando com a bota. Os olhos cor de mel subiram mais uma vez na direção da casa dela, e o olhar endureceu. — Se aquele moleque encostar nela de novo, eu mesmo resolvo. E virou as costas, voltando pra moto. Mas por dentro, FK sabia — o problema não era o vizinho. O problema era ele. Porque, pela primeira vez em anos, alguém tinha mexido com o que ele mais temia perder: o controle. --- O relógio já passava das dez quando Cecília subia o morro. A rua estava quase vazia, iluminada por uns poucos postes e pelas janelas ainda acesas. O som distante dos bares ecoava como batida de coração. Ela só queria chegar em casa, tomar banho e dormir. Mas o destino parecia ter outros planos. No meio do beco estreito, uma moto preta bloqueava a passagem. Encostado nela, cigarro entre os dedos e olhar fixo, estava ele. FK. Cecília parou. O coração acelerou no mesmo instante. — Tá me seguindo agora? — perguntou, tentando soar firme. Ele jogou o cigarro no chão e deu dois passos lentos na direção dela. — Não costumo repetir ordens, mas já falei que esse horário não é pra você andar sozinha. — Você não é meu dono. — Ainda não. — ele respondeu, com a voz baixa e perigosa. Ela cruzou os braços, irritada. — Por que cê tá fazendo isso? Cê manda no morro todo, mas acha pouco? Quer mandar em mim também? O olhar dele endureceu. — Não gosto que encostem no que é meu. — Eu não sou sua coisa! — Cecília retrucou, a voz trêmula, entre raiva e medo. Ele se aproximou até o corpo dela ficar encurralado contra a parede do beco. O cheiro do perfume dele misturado à fumaça e ao concreto úmido a envolveu. — Eu devia te manter longe. — ele murmurou, a respiração quente perto do rosto dela. — Mas toda vez que te vejo... eu perco o juízo. Cecília tentou responder, mas as palavras travaram. A intensidade no olhar dele era demais. Antes que pudesse entender o que acontecia, FK segurou o rosto dela, firme, e a boca dele encontrou a dela num beijo que misturava fúria e necessidade. O tempo pareceu parar. Era como se todo o morro tivesse silenciado pra ouvir o som da respiração dos dois. Quando ele se afastou, o olhar cor de mel estava turvo, entre desejo e raiva. — Isso não devia ter acontecido — ele disse, com a voz rouca. — Mas aconteceu. — respondeu Cecília, o coração batendo rápido demais. FK deu um meio sorriso, sem humor. — E vai ser o último... se eu ainda tiver controle sobre mim. Ele montou na moto e acelerou, desaparecendo na curva do beco, deixando Cecília ali — tremendo, confusa e sentindo que, a partir daquela noite, as coisas estavam mudando. ---
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