O despertador tocou antes mesmo que Cecília conseguisse dormir direito.
A cabeça ainda girava, a boca ainda lembrava.
Era como se o beijo tivesse ficado grudado nela, queimando a pele, o pensamento, tudo.
Ela se levantou devagar, o corpo leve e pesado ao mesmo tempo. Olhou pro espelho e quase não se reconheceu — os olhos verdes estavam fundos, perdidos, e o coração batia do mesmo jeito que na noite anterior: rápido, descompassado, confuso.
Na cozinha, Rute preparava o café enquanto Carla falava ao telefone com PH. Clara, como sempre, se arrumava demais pra sair.
— Dormiu bem, menina? — perguntou a mãe, sem olhar pra ela.
— Dormi. — mentiu, mexendo distraída no pão.
Mas a verdade era que cada vez que piscava, via de novo o olhar dele.
A firmeza, a proximidade, o jeito como o tempo parou por um segundo.
E depois... o nada.
Quando deu meio-dia, Cecília encontrou Maia no restaurante da dona Ivonete.
A amiga tava rindo atrás do balcão, ajudando a mãe, o cabelo preso num coque alto, o sorriso de sempre.
— Até que enfim, sumida! — Maia disse, animada. — Achei que cê tinha sido sequestrada.
— É o cansaço. — respondeu Cecília, tentando disfarçar.
Mas não passou despercebido. Maia era esperta demais pra deixar passar.
— Cê tá diferente. — ela disse, estreitando os olhos. — O que foi?
Cecília respirou fundo. Devia negar. Devia.
Mas as palavras escaparam antes que pudesse segurar:
— Eu... encontrei o FK ontem à noite.
Maia largou o pano que segurava, arregalando os olhos.
— O quê? Tá maluca, Cecília? Encont... como assim encontrou?
— Eu tava voltando do trabalho... a gente discutiu e... — a voz dela falhou. — Ele me beijou.
O restaurante ficou pequeno de repente. Maia piscou, sem acreditar.
— Ele te beijou?
Cecília apenas assentiu, envergonhada.
— Cecília, cê tem noção do que tá falando? — a amiga sussurrou, nervosa. — É o FK! O cara que todo mundo respeita, que manda no morro inteiro!
— Eu sei... — ela respondeu, a voz trêmula. — Mas foi tudo tão... rápido.
Maia passou a mão no rosto, tentando processar.
— E você... gostou? — perguntou baixinho, quase com medo da resposta.
Cecília desviou o olhar.
O silêncio dela foi suficiente pra responder.
Maia suspirou, olhando em volta pra se certificar de que ninguém ouvia.
— Amiga... cê tá brincando com fogo. Esse tipo de homem não é pra gente. Ele é perigo puro, entendeu?
— Eu sei... — Cecília sussurrou. — Mas eu não consigo parar de pensar nele.
Maia balançou a cabeça, preocupada.
— Promete pra mim que vai se cuidar, tá? Que não vai atrás dele.
— Eu prometo. — respondeu, mas sabia que era mentira.
Porque lá no fundo, mesmo com o medo apertando o peito, ela sentia algo que não fazia sentido.
E o pior — uma parte dela tinha certeza de que FK também não tinha esquecido.
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O sol do fim da tarde queimava o alto do morro, e o cheiro de churrasco e fumaça misturava com o som distante de motos e funk vindo da praça. FK subia a viela principal, ladeado por dois seguranças, observando tudo com aquele olhar atento de predador.
Nada escapava dele.
Nem os olhares. Nem os cochichos. Nem o movimento estranho de quem devia estar quieto.
Mas o que o fez parar não foi nada disso.
Foi o som de uma risada.
Alta, leve, limpa — destoava daquele ambiente.
FK virou o rosto na direção do som e viu ela.
Cecília.
Com o cabelo solto, uma blusa simples e o sorriso que ele não conseguiu esquecer desde aquela noite no beco.
Ela subia o morro conversando com um vizinho — um garoto da idade dela, rindo, falando perto demais.
E aquilo... incomodou.
Incomodou de um jeito que ele não sabia explicar.
— Que foi, chefe? — perguntou PH, que vinha logo atrás.
FK não respondeu. Só ficou observando.
O cara estendeu a mão pra pegar uma sacola que Cecília carregava, e ela riu de novo, agradecendo.
FK trincou o maxilar, o olhar se tornando uma linha de gelo.
— Quem é aquele? — ele perguntou baixo.
PH olhou rápido. — Vizinho dela, eu acho. Trabalha num mercado lá embaixo.
— Tá muito à vontade pro meu gosto. — respondeu FK, a voz cortante.
PH deu uma risada curta. — Tá parecendo até ciúme, chefe.
FK lançou um olhar tão frio que o amigo preferiu ficar quieto.
Ele observou enquanto o garoto se despedia de Cecília e ela seguia sozinha, subindo a viela.
O vento bagunçou o cabelo dela, e por um instante, FK sentiu de novo aquela sensação irritante de vulnerabilidade — algo que ele odiava.
“Isso não pode acontecer de novo.”
Pensou, acendendo um cigarro e tragando fundo.
Mas o problema é que já tinha acontecido.
E cada vez que ele via Cecília, o controle que tanto prezava parecia escorregar pelos dedos.
PH quebrou o silêncio:
— Vai deixar barato?
— Por enquanto. — respondeu, frio. — Quero ver até onde ela vai achar que pode brincar comigo.
Jogou o cigarro no chão, esmagando com a bota.
Os olhos cor de mel subiram mais uma vez na direção da casa dela, e o olhar endureceu.
— Se aquele moleque encostar nela de novo, eu mesmo resolvo.
E virou as costas, voltando pra moto.
Mas por dentro, FK sabia — o problema não era o vizinho.
O problema era ele.
Porque, pela primeira vez em anos, alguém tinha mexido com o que ele mais temia perder: o controle.
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O relógio já passava das dez quando Cecília subia o morro. A rua estava quase vazia, iluminada por uns poucos postes e pelas janelas ainda acesas. O som distante dos bares ecoava como batida de coração.
Ela só queria chegar em casa, tomar banho e dormir.
Mas o destino parecia ter outros planos.
No meio do beco estreito, uma moto preta bloqueava a passagem.
Encostado nela, cigarro entre os dedos e olhar fixo, estava ele.
FK.
Cecília parou. O coração acelerou no mesmo instante.
— Tá me seguindo agora? — perguntou, tentando soar firme.
Ele jogou o cigarro no chão e deu dois passos lentos na direção dela.
— Não costumo repetir ordens, mas já falei que esse horário não é pra você andar sozinha.
— Você não é meu dono.
— Ainda não. — ele respondeu, com a voz baixa e perigosa.
Ela cruzou os braços, irritada. — Por que cê tá fazendo isso? Cê manda no morro todo, mas acha pouco? Quer mandar em mim também?
O olhar dele endureceu.
— Não gosto que encostem no que é meu.
— Eu não sou sua coisa! — Cecília retrucou, a voz trêmula, entre raiva e medo.
Ele se aproximou até o corpo dela ficar encurralado contra a parede do beco.
O cheiro do perfume dele misturado à fumaça e ao concreto úmido a envolveu.
— Eu devia te manter longe. — ele murmurou, a respiração quente perto do rosto dela. — Mas toda vez que te vejo... eu perco o juízo.
Cecília tentou responder, mas as palavras travaram.
A intensidade no olhar dele era demais.
Antes que pudesse entender o que acontecia, FK segurou o rosto dela, firme, e a boca dele encontrou a dela num beijo que misturava fúria e necessidade.
O tempo pareceu parar.
Era como se todo o morro tivesse silenciado pra ouvir o som da respiração dos dois.
Quando ele se afastou, o olhar cor de mel estava turvo, entre desejo e raiva.
— Isso não devia ter acontecido — ele disse, com a voz rouca.
— Mas aconteceu. — respondeu Cecília, o coração batendo rápido demais.
FK deu um meio sorriso, sem humor.
— E vai ser o último... se eu ainda tiver controle sobre mim.
Ele montou na moto e acelerou, desaparecendo na curva do beco, deixando Cecília ali — tremendo, confusa e sentindo que, a partir daquela noite, as coisas estavam mudando.
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