Passou uma semana.
Sete dias em que FK se trancou dentro de si mesmo, como quem levanta muros pra não sentir nada.
O morro não parava — nunca parava.
Telefonemas, reuniões, cobranças, ameaças. Ele comandava tudo como um relógio de guerra, cada ordem medida, cada ação precisa.
O escritório, atrás da boca principal, era o coração do império: cheirava a cigarro, café e pólvora. Pilhas de dinheiro, rádios chiando, celulares vibrando sem parar.
FK ficava sentado na cadeira de couro, a pistola sobre a mesa, observando o movimento pelas câmeras.
— Os caras do Complexo tão tentando testar limite. — disse PH, entrando com o semblante sério.
— Testa quem quer. Morre quem insiste. — respondeu FK, sem levantar os olhos.
Era automático.
Trabalho, ordens, controle total.
O mesmo homem de sempre.
Mas o vazio… aquele vazio diferente, ele sentia mesmo quando não queria.
PH jogou o boné sobre a mesa. — Cê tá meio calado esses dias.
— E desde quando eu sou de conversa? — rebateu FK, frio.
— Não é isso. É que cê tá... com a cabeça em outro lugar. — PH o provocou, um sorriso de canto no rosto. — Ou em alguém.
FK levantou o olhar devagar.
— Cuidado com o que fala.
PH ergueu as mãos em rendição. — Tá, tá... relaxa. Só tô dizendo que desde aquela noite do baile cê tá diferente, chefe.
O silêncio voltou, pesado.
FK pegou o cigarro, acendeu e olhou pra fumaça subindo lenta, como se ela pudesse responder alguma coisa.
Mas não respondeu.
Nos últimos dias, evitou passar pelo caminho da casa dela, evitou até o restaurante da Ivonete.
Evitar. Era o que sabia fazer melhor.
E ainda assim, toda noite, quando o morro dormia, o rosto dela voltava na memória — os olhos verdes, o jeito tímido, o beijo que ele jurou esquecer e não conseguiu.
Ele se odiava por isso.
Por fraquejar.
Por sentir.
Pegou o rádio e falou com um dos homens:
— Quero reforço dobrado na entrada da Rocinha. E avisa o pessoal do ponto: ninguém se mete com o meu território essa semana.
A resposta veio rápida:
— Tá feito, chefe.
FK apagou o cigarro e ficou olhando o reflexo no vidro escuro do escritório.
Aquele olhar vazio de sempre ainda tava lá.
Mas, por trás dele, algo se mexia. Algo que ele tentava negar — e não sabia por quanto tempo ia conseguir.
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A semana passou arrastada, como se o tempo tivesse preguiça de andar.
O sol nascia e se punha, e Cecília seguia no mesmo ritmo de sempre — trabalho, casa, restaurante, risadas forçadas com as irmãs.
Mas por dentro, tudo parecia diferente.
Desde aquela noite no beco, FK não apareceu mais.
Nem um olhar, nem uma palavra, nada.
E, por mais que ela tentasse se convencer de que era melhor assim, o coração teimava em discordar.
O silêncio dele doía mais do que qualquer grosseria.
Naquela tarde de sábado, Cecília foi até o restaurante da dona Ivonete.
O lugar estava cheio, o cheiro de comida boa se espalhava pelas mesas, e a voz da Maia ecoava alegre enquanto ajudava no caixa.
Carla servia as mesas, rindo com PH, que como sempre fazia piada de tudo.
— Até que enfim, a bonita apareceu! — disse Maia, assim que viu a amiga entrar.
— Eu precisava sair um pouco de casa. — respondeu Cecília, sorrindo fraco.
— Cê anda sumida — comentou Carla, pegando uma jarra de suco. — Tá tudo bem no trabalho?
— Tá sim. Só… cansada, eu acho.
As duas trocaram um olhar rápido — aquele olhar de quem percebe, mas não quer apertar.
Maia, porém, não se segurou:
— Cê ainda tá pensando nele, né?
Cecília desviou o olhar, mexendo no canudo do copo.
— Eu nem devia pensar.
— Mas pensa. — completou Maia, sentando ao lado dela. — Eu te conheço, Cê. Quando cê começa a morder o canudo assim é porque tá nervosa.
Carla apoiou o cotovelo no balcão, observando a irmã mais nova com carinho.
— Esse tipo de homem não é pra você, Cecília. Ele vive num mundo que não perdoa sentimento.
— Eu sei disso… — respondeu baixo. — Só que não é tão simples.
O barulho dos pratos, das conversas e das risadas ao redor parecia distante.
Cecília olhava pro nada, lembrando da voz dele, do jeito que o coração disparava quando o via.
E agora, sem ele, o morro parecia mais frio.
— Talvez ele tenha te esquecido — disse Maia, tentando ser realista. — E isso é bom.
Cecília respirou fundo, apertando o guardanapo entre os dedos.
— Tomara. — mentiu.
Porque, no fundo, a parte mais silenciosa dela não queria ser esquecida.
Queria entender por que, de todos os olhares do mundo, só aquele conseguia bagunçar tudo.
Do lado de fora, o som distante de motos ecoava pelo morro.
E, por um instante, Cecília sentiu o coração bater mais forte — como se pressentisse algo.
Mas quando olhou pela janela, não havia ninguém.
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O restaurante da dona Ivonete estava cheio.
Era fim de tarde, e o sol entrava pelas janelas, tingindo o chão de dourado. Cecília lavava algumas xícaras no balcão, enquanto Maia e Carla organizavam as mesas. O som dos talheres, as vozes misturadas, o cheiro de comida — tudo normal.
Pelo menos até a porta abrir.
— Meninaaaa, se tu soubesse! — a voz de Clara ecoou antes mesmo de ela entrar.
Juliana vinha logo atrás, rindo alto, cheia de si. As duas pareciam ter vindo direto do salão, com o cabelo solto e perfume forte que dominou o ar.
Cecília sentiu o corpo enrijecer. Fingiu que não viu, abaixou o olhar pro pano de prato.
— Eu não aguento mais, Clara! — Juliana dizia, arrastando a cadeira pra se sentar. — O homem some, não dá sinal, e ainda acha que pode me deixar esperando.
— Mas tu vai atrás dele hoje, né? — provocou Clara, com um sorriso debochado.
— Hoje mesmo! — respondeu Juliana, jogando o cabelo pro lado. — Faz semanas que ele não me procura. E dessa vez, se ele quiser me ignorar, vai ter que fazer isso olhando na minha cara.
As duas riram, sem perceber que Cecília, a poucos metros dali, tremia por dentro.
As palavras batiam como socos no estômago, cada risada delas parecia zombar do que ela sentia.
Maia, que já tinha percebido, se aproximou discretamente.
— Cissa... finge que nem tá ouvindo.
— Eu tô tentando. — respondeu num sussurro, apertando o pano molhado entre os dedos.
Mas era impossível.
O nome dele não foi dito, mas não precisava.
O jeito que Juliana falava, o olhar de Clara — tudo deixava claro. Era dele que estavam falando. De FK.
Cecília respirou fundo, tentando disfarçar a dor que subia pelo peito.
Juliana continuava, sem perceber o estrago que causava:
— Ele pode ser o rei desse morro, mas até rei precisa de alguém que lembre o caminho de casa. E hoje, eu vou lembrar ele.
Carla veio até o balcão, observando Cecília com preocupação.
— Quer ir lá fora um pouco?
— Não… — murmurou. — Tá tudo bem.
Mentira.
Nada estava bem.
Cada palavra de Juliana doía, queimando devagar.
E quando a mulher riu mais uma vez, dizendo que “essa noite ele ia lembrar de quem era dele”, Cecília sentiu o coração despencar — junto com toda a ilusão que ainda restava.
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A boca principal estava viva, mas diferente.
O som das balas de caça-níquel misturado ao murmúrio dos homens armados, o cheiro de pólvora, suor e café frio, tudo se misturava no ar pesado.
FK sentava atrás da mesa do escritório, olhando o movimento através das câmeras, os dedos tamborilando no couro da cadeira.
— Chefe… — disse PH, entrando sem bater. — Tudo sob controle.
Ele nem respondeu, a mente distante.
Ela não saía da cabeça dele.
Cecília. Sempre Cecília.
O ranger da porta fez o olhar dele se erguer.
— Juliana. — a voz seca, quase sem emoção.
Ela entrou confiante, perfume forte, sorriso provocante.
— Vim ver você. — disse, aproximando-se dele.
FK suspirou internamente, irritado com a audácia dela, mas deixou o corpo reagir antes do cérebro.
Não havia sentimento.
Não havia desejo real.
Era apenas uma necessidade carnal, rápida, fria, mecânica — um ato sem lembrança afetiva.
Enquanto ela se aproximava, ele sentiu a tensão crescer, mas não com Juliana.
Não mesmo.
Cada gesto, cada toque, cada movimento… tudo isso o fazia pensar nela.
No sorriso tímido, nos olhos verdes, no cabelo molhado depois da chuva, no beijo que ainda queimava a memória.
Quando Juliana se afastou, satisfeita, ele se recostou na cadeira, exalando fumaça do cigarro que acendera sem pensar.
A boca continuava cheia de homens, os rádios vibrando, e o morro vivo lá fora.
Mas FK não estava lá.
A mente dele estava presa nos olhos de Cecília, no arrepio que sentiu toda vez que a tocou, no beijo que ele nunca admitiria que desejava sentir de novo.
— Cê tá bem, chefe? — perguntou PH, percebendo o silêncio incomum.
Ele olhou para o amigo, respirou fundo, e respondeu frio:
— Perfeitamente. — mas não era verdade.
Porque, por mais que tentasse manter o controle absoluto, a única coisa que FK não conseguia dominar era ela.
E quanto mais tentava se afastar, mais ela invadia cada pensamento, cada instante, cada decisão.
O mundo dele continuava c***l, calculista, implacável.
Mas agora havia uma rachadura no muro.
E Cecília era a culpa, o perigo e o desejo que ele nunca admitiria.
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