Capítulo 3 - O Dono

1484 Words
A manhã nasceu abafada, o tipo de calor que grudava na pele. Cecília acordou com o som das crianças brincando lá fora e o cheiro de café vindo da cozinha. Rute já estava lavando roupa, cantando baixinho uma música antiga, tentando disfarçar o cansaço. O pai ainda dormia, jogado no sofá, e o ronco alto ecoava pela casa. No quarto ao lado, Carla se arrumava pra ir trabalhar no restaurante da Ivonete. Ela sempre foi a mais calma das três irmãs, mas quando o assunto era PH, os olhos dela brilhavam diferente. Já Clara, a mais velha, estava sentada em frente ao espelho, passando batom vermelho e conferindo o decote da blusa. — Tu vai pra onde, Clara? — perguntou Cecília, pegando um copo d’água. — Pra rua, ué. — respondeu a irmã, sem olhar. — Ou tu acha que as contas se pagam sozinhas? Cecília suspirou. Clara era bonita, provocante e sabia disso. Gostava do perigo — principalmente quando o perigo tinha tatuagens, arma na cintura e dinheiro no bolso. — Só toma cuidado. — disse Cecília, baixinho. Clara riu. — Cuidado é coisa pra gente fraca, Cê. Aqui, quem tem medo, morre. As palavras ficaram ecoando na cabeça de Cecília, enquanto ela colocava o uniforme da loja. Não era covardia o que sentia — era um tipo de prudência que o morro ensinava. --- Mais tarde, depois do trabalho, ela encontrou Maia no ponto de ônibus. O sol já descia, tingindo o céu de laranja e rosa. As duas caminharam juntas pelas vielas, desviando das poças d’água e das motos que subiam rápido demais. — Tô morta. — reclamou Maia. — Faculdade de manhã, restaurante de tarde... tô precisando de umas férias em Copacabana. Cecília riu. — Só se for pra limpar a areia. — Ah, mas eu ia de boa! — Maia gargalhou. — Só de pensar em ver o mar sem ter que olhar pra trás o tempo todo já valia. Elas viraram a esquina e entraram na lanchonete da Ivonete, que cheirava a pastel frito e café fresco. O lugar estava cheio, como sempre. — Mãe, olha quem veio! — gritou Maia. — A Cê! Ivonete apareceu do balcão com um sorriso caloroso. — Ô, menina, cê anda sumida! Senta aqui, vou botar pastel pra tu comer. — Nem precisava, dona Ivonete... — disse Cecília, mas o cheiro já a fez mudar de ideia. As três sentaram-se num canto, rindo e conversando. O assunto, inevitavelmente, virou os meninos do morro. — E o Tiago, hein, Maia? — provocou Cecília. — Ainda te faz sorrir à toa? Maia ficou corada. — Cala a boca, Cê! Ele é o irmão do FK, pelo amor de Deus! — E daí? — respondeu ela, brincando. — O Tiago é diferente. Ivonete sorriu. — Diferente mesmo. Aquele menino é um anjo no meio do inferno. Cecília pensou nisso por um instante. Tiago era o oposto do irmão. Educado, estudioso, sempre ajudando os moradores com o que podia. Mas o nome “FK” sempre pairava no ar quando ele era mencionado — como uma sombra inevitável. — E falando nele... — murmurou Maia, abaixando o tom. — Ontem, uns caras passaram aqui perguntando de um tal de “chefe”. — O FK? — perguntou Ivonete, preocupada. — É... — respondeu Maia. — PH disse pra eles sumirem antes que alguém ouvisse. O clima ficou pesado por alguns segundos. Cecília sentiu um arrepio na nuca. Aquele nome, só de ser dito, parecia carregar um peso que o morro inteiro respeitava. — Melhor mudar de assunto. — disse Ivonete, tentando aliviar. — Cê, tu devia sair mais, menina. Sábado vai ter baile na quadra, por que tu não vai com a Maia? — Eu? — Cecília riu, nervosa. — Deus me livre. Aquelas festas são cheias de confusão. — Confusão e homem bonito — brincou Maia. — Vai que tu conhece alguém. — Homem bonito eu já vejo o suficiente no shopping — retrucou Cecília, sorrindo. — Só que lá eles não andam com fuzil. Todas riram. Mas no fundo, Cecília sabia que o humor escondia um medo real. Naquele morro, o perigo podia aparecer em forma de charme. --- Quando o sol se pôs, as duas amigas subiram o morro juntas. As vielas começaram a escurecer, o som dos baile ecoando de longe. Cecília olhou pra cima e viu as luzes da quadra dali. — Sabe quem manda, né? — disse Maia, percebendo o olhar da amiga. — Sei. — respondeu Cecília, baixinho. — O dono disso tudo. Maia assentiu. — E o tipo de homem que a gente não deve nem cruzar o olhar. Cecília ficou em silêncio. Mas no fundo, sabia que o destino não respeitava regras — e que um simples olhar, às vezes, era tudo o que bastava pra mudar uma vida inteira. --- O som estourava nos alto-falantes da quadra principal da Rocinha. O batidão de funk fazia o chão vibrar, a fumaça das grelhas subia misturada ao cheiro de cerveja e perfume barato. A multidão se agitava, dançando, rindo, vivendo cada segundo como se fosse o último — porque ali, realmente podia ser. Mas quando ele chegou, o tempo pareceu parar. O carro preto subiu a ladeira escoltado por duas motos. Assim que estacionou, os olhares se voltaram. Os homens abaixaram a cabeça. As mulheres suspiraram — umas de desejo, outras de medo. FK desceu devagar. Camisa preta justa, calça jeans escura, correntes de prata no pescoço. O olhar — cor de mel e vazio — varreu a multidão como uma lâmina. Ninguém ousava cruzar o caminho dele. — O chefe chegou. — murmurou um dos seguranças, com respeito. PH veio logo atrás, rindo, uma garrafa de whisky na mão. — Bora aproveitar, parceiro. Hoje o baile é nosso. FK apenas assentiu. Subiu pro camarote montado na parte de cima da quadra — de lá, via tudo. A favela inteira parecia pulsar sob seus pés, como se respirasse por ele. As luzes piscavam em vermelho e azul. Os MCs gritavam seu nome, exaltando o poder que dominava aquele lugar. E ele... só observava. O cigarro entre os dedos, o copo de whisky na outra mão. O olhar sempre atento, calculando cada movimento, cada olhar que durava tempo demais. Ele não dançava. Não sorria. Não curtia. Apenas vigiava — como o predador que era. Até que uma voz feminina o chamou de longe: — FK! Juliana. Roupa justa, salto alto, perfume forte. Ela se aproximou com aquele sorriso atrevido que fingia coragem. — Achei que tu nem vinha. — disse, passando a mão no peito dele. — Eu nunca deixo de aparecer onde me esperam. — respondeu, sem emoção. Ela riu, mordendo o lábio. — E eu sempre espero. FK a olhou de cima a baixo, como quem escolhe uma arma antes do confronto. — Vamos. — disse apenas. Ela sabia o que significava. Pegou na mão dele e desceu com ele pelos corredores laterais até um beco escuro atrás da quadra — um dos muitos lugares que ele usava quando queria fugir dos olhos curiosos. Ali, a música continuava ecoando ao longe, abafada pelas paredes. Juliana o beijou com urgência, tentando arrancar dele qualquer reação. Mas FK não sentia nada. Apenas movimento, carne, calor. — Fala alguma coisa... — sussurrou ela, ofegante. — Me diz que sente. — Cala a boca. — respondeu ele, a voz rouca e fria. E ela calou. Não por medo — mas porque sabia que dele, o máximo que receberia era o silêncio. O momento foi bruto, rápido, sem carinho, sem olhar. Quando acabou, FK se afastou, ajeitou a camisa e pegou o cigarro de novo. Juliana ainda tentava recuperar o fôlego. — Tu vai ficar comigo hoje? — perguntou, esperançosa. Ele tragou o cigarro, sem olhar pra ela. — Eu nunca fico. E saiu. --- Lá fora, o baile continuava. A multidão gritava o nome dele, os flashes piscavam. Mas nada daquilo o tocava. Nenhum som, nenhuma mulher, nenhuma festa conseguia quebrar o gelo dentro dele. Subiu de volta pro camarote, olhou o morro do alto — seu império. Tudo ali era dele. Cada viela, cada esquina, cada olhar submisso. E ainda assim, dentro dele, o vazio era ensurdecedor. — Bora, PH. — disse, depois de alguns minutos. — Cansei. — Já, mano? O baile nem começou direito. — Já vi o que tinha que ver. — respondeu, descendo as escadas. Os seguranças abriram caminho. As pessoas se afastavam instintivamente. E quando FK passou, o ar pareceu mudar — pesado, denso, como se até o vento respeitasse. --- Do outro lado da favela, Cecília olhou pela janela do quarto. As luzes da quadra piscavam à distância, e a música subia pela noite quente. Ela não sabia por quê, mas um arrepio correu por todo o corpo. Como se algo — ou alguém — tivesse acabado de acordar o destino dela. ---
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