O baile fervia.
A fumaça dos cigarros se misturava às luzes piscando, o som das batidas graves fazia o chão vibrar.
Cecília ainda dançava, o corpo solto, o rosto corado pelo calor e pela bebida.
Ela tentava se distrair, fingir que não sentia o peso daquele olhar sobre ela — o olhar que, mesmo distante, ela reconheceria em qualquer lugar.
FK estava lá.
Descendo do camarote, silencioso, como uma sombra entre a multidão.
O olhar fixo nela, cada passo carregando uma fúria contida.
De longe, ele a observava.
Os olhos cor de mel agora eram quase âmbar sob as luzes coloridas.
Ele não via mais o baile, nem a multidão — só via Cecília, dançando, linda, viva, com um brilho que o deixava inquieto.
Um brilho que não era dele.
Mas antes que pudesse se aproximar, Juliana surgiu.
Vestido curto, sorriso provocante, o olhar decidido.
Ela se postou bem na frente dele, começou a dançar, passando as mãos pelo próprio corpo, tentando chamar atenção.
— Cê sumiu, FK — disse ela, quase gritando pra vencer o som alto. — Achei que tinha me esquecido.
Ele nem respondeu.
Os olhos não desgrudavam de Cecília.
Juliana percebeu, seguiu o olhar dele e viu pra onde ele olhava.
— É por causa dela? — perguntou, a voz azeda, o ciúme escorrendo. — Aquela menininha ali?
FK não respondeu.
Apenas desviou o corpo pra passar por ela, mas Juliana se colocou na frente outra vez.
— Tá ficando doido, é? Vai atrás de garotinha agora?
O ar ao redor dele pareceu gelar.
Mas antes que dissesse algo, um rapaz se aproximou de Cecília, dançando colado, a mão já tentando segurar sua cintura.
Ela recuou, empurrou de leve, balançando a cabeça.
— Não, obrigada — disse, tentando ser educada.
O cara riu e insistiu.
— Ah, só uma música, gatinha.
FK viu.
E naquele instante, o mundo dele se reduziu a uma única coisa: raiva.
O corpo dele se moveu antes mesmo de pensar.
Empurrou Juliana de lado com brutalidade — ela tropeçou, xingando — e ele abriu caminho pela multidão, o olhar assassino, o maxilar travado.
As pessoas foram abrindo espaço instintivamente, porque ninguém ousava ficar no caminho de FK quando ele estava daquele jeito.
Chegou perto.
A mão dele agarrou o braço do rapaz com força, fazendo o cara se virar assustado.
— Qual é, mano? — o rapaz começou, mas parou ao ver quem era.
O silêncio ao redor foi instantâneo.
FK o empurrou com brutalidade.
— Encosta nela de novo e tu vai sair daqui carregado — rosnou, a voz grave e fria.
O cara recuou, as mãos erguidas, gaguejando.
— De boa, chefe... não sabia que era tua...
Cecília, vermelha, assustada, tentou falar algo.
— FK, para...
— Cala a boca — cortou ele, sem olhar pra ela.
A raiva ainda pulsava nos olhos dele, o peito subindo e descendo com força.
Por um instante, o baile inteiro ficou em silêncio.
Nem a música parecia ter coragem de continuar.
Ele virou o rosto pra Cecília, o olhar carregado, dominado por um misto de ciúme e desejo.
— Bora. — Foi tudo o que disse.
Ela hesitou, mas o olhar dele não deixava espaço pra recusa.
Segurou a mão dela e foi puxando pra fora da quadra, sob o olhar de todos — Juliana, furiosa e humilhada, e a multidão, muda, tentando entender o que acabara de acontecer.
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A rua parecia outra.
O som do baile ficava distante, sumindo aos poucos enquanto o barulho do motor da moto cortava o ar da madrugada.
O vento batia no rosto de Cecília, os olhos marejados, o coração disparado.
FK pilotava em silêncio — o corpo rígido, o olhar fixo na estrada à frente, os dedos cerrados no guidão.
Nenhuma palavra.
Nenhum olhar.
Só a tensão densa, quase palpável, que crescia a cada curva.
Cecília o abraçava por instinto, as mãos apertando o peito dele.
Podia sentir o coração dele batendo rápido, forte, como se o corpo inteiro estivesse tomado por algo que ele tentava conter.
Quando a moto parou diante da mansão no alto do morro, o silêncio foi ainda mais pesado.
FK desceu primeiro, tirou o capacete e passou a mão pelos cabelos, respirando fundo, tentando se controlar.
Cecília o observava, sem saber o que dizer.
Ele virou-se de repente, o olhar duro.
— Desce.
Ela obedeceu.
Os portões se abriram automaticamente, e os dois entraram.
O som dos passos ecoava pelo pátio vazio.
A casa estava em meia-luz — só as lâmpadas do corredor acesas.
FK subiu as escadas em silêncio, o corpo tenso, os ombros rígidos.
Cecília o seguiu, hesitante.
Quando chegaram ao quarto dele, ele abriu a porta com força e entrou, parando no meio do cômodo.
— O que tu tava fazendo? — perguntou, a voz baixa, perigosa.
Cecília respirou fundo. — Eu… só tava dançando.
— Dançando? — Ele riu sem humor. — Na frente de todo mundo? E aquele cara encostando em você?
— Eu não deixei ele encostar! — respondeu, a voz tremendo. — Eu só… queria esquecer, um pouco…
Ele se aproximou, devagar, o olhar queimando o dela.
— Esquecer o quê?
— Você — soltou, quase num sussurro.
O silêncio entre os dois foi quebrado apenas pelo som da respiração.
FK ficou parado, a poucos centímetros dela, os olhos intensos, a raiva misturada com algo mais fundo — algo que ele não sabia lidar.
Ele passou a mão no rosto, virou de costas, tentando se acalmar.
— Tu não tem ideia do que tá mexendo, Cecília.
Ela deu um passo à frente, a voz baixa, trêmula.
— Então me explica…
FK se virou num impulso, a mandíbula trincada.
Por um instante, parecia prestes a gritar, mas apenas ficou encarando-a.
O ar entre eles pesava.
A tensão era elétrica.
Cecília tentou sustentar o olhar, mas sentiu o corpo estremecer.
Ele se aproximou mais um passo — agora tão perto que ela podia sentir o perfume dele misturado ao cheiro de cigarro e adrenalina.
O olhar dele desceu até os lábios dela.
Mas dessa vez, ele se conteve.
Virou o rosto e se afastou, indo até a varanda.
Acendeu um cigarro.
Ficou ali, calado, fumando no escuro.
Do lado de dentro, Cecília o observava em silêncio, com o coração apertado.
Sabia que havia atravessado uma linha — e que dali em diante, nada mais seria o mesmo.
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O som do vento batendo na varanda era o único ruído.
Cecília ficou parada, abraçando o próprio corpo, tentando entender o que estava acontecendo.
Do lado de fora, FK tragava o cigarro com força, o olhar perdido nas luzes do morro.
O peito subia e descia com violência.
Ele queria apagar tudo — o baile, o cara encostando nela, o olhar dela fugindo do dele.
Quando terminou o cigarro, jogou a bituca longe e entrou de volta no quarto.
A porta bateu atrás dele com força.
— Por que tu faz isso, hein? — perguntou, a voz rouca, carregada de raiva.
Cecília se assustou com o tom.
— Eu não fiz nada, FK.
— Não fez nada? — Ele deu um passo à frente, o olhar queimando. — Eu te vi! Dançando daquele jeito, todo mundo olhando pra ti! Tu acha bonito?
Ela tentou manter a calma. — Eu só tava me divertindo, eu bebi um pouco, tava com as meninas…
— Com as meninas? — Ele riu sem humor, sarcástico. — Tu quer bancar a santa e depois desce pra pista pra se esfregar em qualquer um?
— Ei! — Cecília gritou, ferida. — Eu não sou assim!
— Não é? — Ele chutou a cadeira ao lado, que bateu na parede com um estalo alto. — Então o que tu é, Cecília? Hein?! Me diz!
Ela recuou um passo, os olhos marejados.
— Eu… sou só eu.
FK passou as mãos pelos cabelos, respirando com força, a raiva transbordando.
O som do vidro quebrando ecoou quando ele pegou um copo da mesa e o atirou contra a parede.
Cecília se encolheu, o coração disparado.
Ele se virou de novo pra ela, o olhar duro.
— Tu não faz ideia do que é viver nesse mundo, não faz ideia do que tá se metendo. Tu é só uma menina… uma menina que acha que pode brincar com fogo e sair ilesa.
As lágrimas escorreram pelos olhos dela, silenciosas.
— Eu nunca brinquei com você.
Por um instante, ele pareceu hesitar.
Mas o orgulho era maior.
Ele desviou o olhar, trincando o maxilar.
— Vai embora, Cecília. Antes que eu diga algo pior.
Ela ficou parada por alguns segundos, paralisada entre a vontade de gritar e a de chorar.
Depois, respirou fundo e foi em direção à porta.
Quando saiu, FK chutou outra cadeira, o som ecoando pela casa.
Do lado de fora, Cecília desceu as escadas apressada, o coração em pedaços.
Dentro do quarto, FK encostou as mãos na parede, tentando controlar a respiração — mas a raiva só aumentava.
Raiva dela.
De si mesmo.
E da forma como, mesmo destruindo tudo, ele ainda só pensava nela.
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