Capítulo 25 - Linha de Fogo

1513 Words
O baile fervia. A fumaça dos cigarros se misturava às luzes piscando, o som das batidas graves fazia o chão vibrar. Cecília ainda dançava, o corpo solto, o rosto corado pelo calor e pela bebida. Ela tentava se distrair, fingir que não sentia o peso daquele olhar sobre ela — o olhar que, mesmo distante, ela reconheceria em qualquer lugar. FK estava lá. Descendo do camarote, silencioso, como uma sombra entre a multidão. O olhar fixo nela, cada passo carregando uma fúria contida. De longe, ele a observava. Os olhos cor de mel agora eram quase âmbar sob as luzes coloridas. Ele não via mais o baile, nem a multidão — só via Cecília, dançando, linda, viva, com um brilho que o deixava inquieto. Um brilho que não era dele. Mas antes que pudesse se aproximar, Juliana surgiu. Vestido curto, sorriso provocante, o olhar decidido. Ela se postou bem na frente dele, começou a dançar, passando as mãos pelo próprio corpo, tentando chamar atenção. — Cê sumiu, FK — disse ela, quase gritando pra vencer o som alto. — Achei que tinha me esquecido. Ele nem respondeu. Os olhos não desgrudavam de Cecília. Juliana percebeu, seguiu o olhar dele e viu pra onde ele olhava. — É por causa dela? — perguntou, a voz azeda, o ciúme escorrendo. — Aquela menininha ali? FK não respondeu. Apenas desviou o corpo pra passar por ela, mas Juliana se colocou na frente outra vez. — Tá ficando doido, é? Vai atrás de garotinha agora? O ar ao redor dele pareceu gelar. Mas antes que dissesse algo, um rapaz se aproximou de Cecília, dançando colado, a mão já tentando segurar sua cintura. Ela recuou, empurrou de leve, balançando a cabeça. — Não, obrigada — disse, tentando ser educada. O cara riu e insistiu. — Ah, só uma música, gatinha. FK viu. E naquele instante, o mundo dele se reduziu a uma única coisa: raiva. O corpo dele se moveu antes mesmo de pensar. Empurrou Juliana de lado com brutalidade — ela tropeçou, xingando — e ele abriu caminho pela multidão, o olhar assassino, o maxilar travado. As pessoas foram abrindo espaço instintivamente, porque ninguém ousava ficar no caminho de FK quando ele estava daquele jeito. Chegou perto. A mão dele agarrou o braço do rapaz com força, fazendo o cara se virar assustado. — Qual é, mano? — o rapaz começou, mas parou ao ver quem era. O silêncio ao redor foi instantâneo. FK o empurrou com brutalidade. — Encosta nela de novo e tu vai sair daqui carregado — rosnou, a voz grave e fria. O cara recuou, as mãos erguidas, gaguejando. — De boa, chefe... não sabia que era tua... Cecília, vermelha, assustada, tentou falar algo. — FK, para... — Cala a boca — cortou ele, sem olhar pra ela. A raiva ainda pulsava nos olhos dele, o peito subindo e descendo com força. Por um instante, o baile inteiro ficou em silêncio. Nem a música parecia ter coragem de continuar. Ele virou o rosto pra Cecília, o olhar carregado, dominado por um misto de ciúme e desejo. — Bora. — Foi tudo o que disse. Ela hesitou, mas o olhar dele não deixava espaço pra recusa. Segurou a mão dela e foi puxando pra fora da quadra, sob o olhar de todos — Juliana, furiosa e humilhada, e a multidão, muda, tentando entender o que acabara de acontecer. --- A rua parecia outra. O som do baile ficava distante, sumindo aos poucos enquanto o barulho do motor da moto cortava o ar da madrugada. O vento batia no rosto de Cecília, os olhos marejados, o coração disparado. FK pilotava em silêncio — o corpo rígido, o olhar fixo na estrada à frente, os dedos cerrados no guidão. Nenhuma palavra. Nenhum olhar. Só a tensão densa, quase palpável, que crescia a cada curva. Cecília o abraçava por instinto, as mãos apertando o peito dele. Podia sentir o coração dele batendo rápido, forte, como se o corpo inteiro estivesse tomado por algo que ele tentava conter. Quando a moto parou diante da mansão no alto do morro, o silêncio foi ainda mais pesado. FK desceu primeiro, tirou o capacete e passou a mão pelos cabelos, respirando fundo, tentando se controlar. Cecília o observava, sem saber o que dizer. Ele virou-se de repente, o olhar duro. — Desce. Ela obedeceu. Os portões se abriram automaticamente, e os dois entraram. O som dos passos ecoava pelo pátio vazio. A casa estava em meia-luz — só as lâmpadas do corredor acesas. FK subiu as escadas em silêncio, o corpo tenso, os ombros rígidos. Cecília o seguiu, hesitante. Quando chegaram ao quarto dele, ele abriu a porta com força e entrou, parando no meio do cômodo. — O que tu tava fazendo? — perguntou, a voz baixa, perigosa. Cecília respirou fundo. — Eu… só tava dançando. — Dançando? — Ele riu sem humor. — Na frente de todo mundo? E aquele cara encostando em você? — Eu não deixei ele encostar! — respondeu, a voz tremendo. — Eu só… queria esquecer, um pouco… Ele se aproximou, devagar, o olhar queimando o dela. — Esquecer o quê? — Você — soltou, quase num sussurro. O silêncio entre os dois foi quebrado apenas pelo som da respiração. FK ficou parado, a poucos centímetros dela, os olhos intensos, a raiva misturada com algo mais fundo — algo que ele não sabia lidar. Ele passou a mão no rosto, virou de costas, tentando se acalmar. — Tu não tem ideia do que tá mexendo, Cecília. Ela deu um passo à frente, a voz baixa, trêmula. — Então me explica… FK se virou num impulso, a mandíbula trincada. Por um instante, parecia prestes a gritar, mas apenas ficou encarando-a. O ar entre eles pesava. A tensão era elétrica. Cecília tentou sustentar o olhar, mas sentiu o corpo estremecer. Ele se aproximou mais um passo — agora tão perto que ela podia sentir o perfume dele misturado ao cheiro de cigarro e adrenalina. O olhar dele desceu até os lábios dela. Mas dessa vez, ele se conteve. Virou o rosto e se afastou, indo até a varanda. Acendeu um cigarro. Ficou ali, calado, fumando no escuro. Do lado de dentro, Cecília o observava em silêncio, com o coração apertado. Sabia que havia atravessado uma linha — e que dali em diante, nada mais seria o mesmo. --- O som do vento batendo na varanda era o único ruído. Cecília ficou parada, abraçando o próprio corpo, tentando entender o que estava acontecendo. Do lado de fora, FK tragava o cigarro com força, o olhar perdido nas luzes do morro. O peito subia e descia com violência. Ele queria apagar tudo — o baile, o cara encostando nela, o olhar dela fugindo do dele. Quando terminou o cigarro, jogou a bituca longe e entrou de volta no quarto. A porta bateu atrás dele com força. — Por que tu faz isso, hein? — perguntou, a voz rouca, carregada de raiva. Cecília se assustou com o tom. — Eu não fiz nada, FK. — Não fez nada? — Ele deu um passo à frente, o olhar queimando. — Eu te vi! Dançando daquele jeito, todo mundo olhando pra ti! Tu acha bonito? Ela tentou manter a calma. — Eu só tava me divertindo, eu bebi um pouco, tava com as meninas… — Com as meninas? — Ele riu sem humor, sarcástico. — Tu quer bancar a santa e depois desce pra pista pra se esfregar em qualquer um? — Ei! — Cecília gritou, ferida. — Eu não sou assim! — Não é? — Ele chutou a cadeira ao lado, que bateu na parede com um estalo alto. — Então o que tu é, Cecília? Hein?! Me diz! Ela recuou um passo, os olhos marejados. — Eu… sou só eu. FK passou as mãos pelos cabelos, respirando com força, a raiva transbordando. O som do vidro quebrando ecoou quando ele pegou um copo da mesa e o atirou contra a parede. Cecília se encolheu, o coração disparado. Ele se virou de novo pra ela, o olhar duro. — Tu não faz ideia do que é viver nesse mundo, não faz ideia do que tá se metendo. Tu é só uma menina… uma menina que acha que pode brincar com fogo e sair ilesa. As lágrimas escorreram pelos olhos dela, silenciosas. — Eu nunca brinquei com você. Por um instante, ele pareceu hesitar. Mas o orgulho era maior. Ele desviou o olhar, trincando o maxilar. — Vai embora, Cecília. Antes que eu diga algo pior. Ela ficou parada por alguns segundos, paralisada entre a vontade de gritar e a de chorar. Depois, respirou fundo e foi em direção à porta. Quando saiu, FK chutou outra cadeira, o som ecoando pela casa. Do lado de fora, Cecília desceu as escadas apressada, o coração em pedaços. Dentro do quarto, FK encostou as mãos na parede, tentando controlar a respiração — mas a raiva só aumentava. Raiva dela. De si mesmo. E da forma como, mesmo destruindo tudo, ele ainda só pensava nela. ---
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