Capítulo 26 - Abrigo

1362 Words
Cecília descia as escadas com o rosto molhado de lágrimas, o coração batendo rápido demais. As mãos tremiam enquanto ela tentava não fazer barulho, só queria sair dali, respirar outro ar que não tivesse o cheiro dele. Quando chegou ao último degrau, ouviu um som suave vindo da cozinha. A luz amarelada iluminava a figura de Dona Helena, segurando um copo d’água. Os olhos atentos da mulher logo se fixaram nela. — Menina… o que foi isso? — perguntou baixinho, dando um passo à frente. — Eu ouvi barulho lá de cima, coisa quebrando. Cecília tentou disfarçar, enxugando o rosto com as costas da mão. — Nada, dona Helena… eu já tô indo embora. — Indo embora a essa hora? — A voz dela soou firme, preocupada. — Tu tá vendo como tá escuro lá fora? É perigoso, minha filha. — Eu preciso ir, de verdade. Helena pousou o copo na mesa e se aproximou, os olhos bondosos e cheios de sabedoria. — Tu acha que eu não sei o que acontece nesse morro depois que escurece? — Ela suspirou. — Fica aqui hoje, vai. Tem um quarto de hóspedes lá no fim do corredor. Amanhã cedo tu vai embora com o dia claro. Cecília hesitou, apertando o braço contra o corpo. — Eu não quero incomodar. — Incomodar? — Helena sorriu de leve, tocando o braço da menina com ternura. — Tu não incomoda, não. O que me incomoda é ver uma moça sair chorando dessa casa. Os olhos de Cecília marejaram de novo, e ela apenas assentiu, em silêncio. Helena a guiou até o quarto de hóspedes — simples, mas aconchegante, com colcha limpa e o cheiro de lavanda. — Dorme, minha filha. Amanhã tu pensa no que fazer. — Disse a mulher, ajeitando o lençol. — O mundo parece menor depois de uma boa noite de sono. Cecília apenas concordou, murmurando um “obrigada”. Quando Helena saiu e fechou a porta, o silêncio voltou a encher o cômodo. Cecília deitou, o corpo cansado e a mente em caos. Mesmo ferida, parte dela ainda sentia o toque dele, o olhar, o peso de cada palavra. E antes que o sono chegasse, uma lágrima solitária escorreu pelo seu rosto. Do lado de fora, no corredor, Dona Helena parou diante da porta do neto, ouvindo o som de passos pesados e o ranger da cama. Ela suspirou fundo, o coração apertado. — Esse menino ainda vai se perder… — murmurou, voltando para o seu quarto. --- FK passou a noite acordado. Deitado na cama, o teto parecia zombar dele. A cabeça latejava — entre flashes do rosto de Cecília e o som do copo se estilhaçando no chão. Cada vez que fechava os olhos, via o olhar dela, assustado. Não dormiu. Não conseguiu. O sol começava a nascer quando ele finalmente levantou, cansado, a expressão fria. Vestiu uma camiseta escura, prendeu o cordão no pescoço e desceu as escadas em silêncio. Na cozinha, o cheiro de café fresco e pão quente se misturava ao som do noticiário matinal. Dona Helena e Tiago já estavam sentados à mesa. O neto mais novo, de olhar sereno, o cumprimentou com um aceno. — Dormiu bem? — perguntou Tiago, erguendo a sobrancelha. FK não respondeu. Só se serviu do café e ficou de pé, encostado no balcão, o olhar perdido. Helena o observava em silêncio, até que largou a xícara e falou, firme, com aquele tom de quem já sabia mais do que deixava transparecer: — E então, Felipe… — ela usou o nome de batismo, o que raramente acontecia. — Tu vai fingir que nada aconteceu ontem à noite? FK franziu o cenho, sem olhar pra ela. — Não sei do que a senhora tá falando. — Sabe sim — retrucou Helena, olhando-o por cima dos óculos. — A menina ainda tá dormindo lá no quarto de hóspedes. O silêncio que se seguiu foi pesado. Tiago arregalou os olhos, surpreso. FK pousou a xícara com força na bancada. — Que menina? — perguntou, tentando manter o tom neutro. — A Cecília — respondeu Helena, sem hesitar. — Eu vi ela descendo as escadas chorando de madrugada. Disse que ia embora. Tu sabe bem o perigo que é andar por essas vielas essa hora. Como é que tu deixou uma moça sair sozinha? Tiago olhou de um para o outro, confuso, sentindo a tensão crescer. FK respirou fundo, os punhos cerrados. — Eu não mandei ela sair — disse, seco. — Ela quis. Helena balançou a cabeça, decepcionada. — Às vezes eu me pergunto o que foi que o mundo fez contigo, Felipe. Essa frieza toda não te protege, só te afunda. Ele desviou o olhar, o maxilar trincado. Não havia resposta. Nem desculpa. Por dentro, algo se contorcia, um incômodo que ele não sabia nomear. Tiago tentou quebrar o silêncio. — Vó, deixa isso pra lá. A menina tá bem, né? Helena suspirou. — Tá dormindo. E vai continuar dormindo, pelo menos até o sol subir. FK terminou o café num gole só, pegou as chaves da moto e foi saindo pela porta dos fundos, com o coração batendo mais rápido do que gostaria. Não era culpa, ele dizia a si mesmo. Era outra coisa — algo que o deixava fraco. --- O sol já entrava tímido pelas frestas da cortina quando Cecília acordou. Por um momento, não soube onde estava — o lençol limpo, o perfume suave de lavanda, o som distante de vozes vindas da cozinha. A lembrança da noite anterior veio como um soco lento no peito. Suspirou fundo, sentou-se na cama e passou as mãos pelo rosto. Estava cansada, mas um pouco mais leve. Quando abriu a porta, o cheiro de pão fresco e café recém-passado a guiou até a cozinha. Dona Helena estava ali, mexendo na frigideira com calma, enquanto Tiago cortava frutas e arrumava a mesa. A cena parecia saída de outro mundo — um em que as pessoas se tratavam com gentileza. — Bom dia, menina — disse Helena, ao vê-la surgir no batente da porta. — Dormiu bem? Cecília assentiu, um pouco sem graça. — Sim, senhora. Desculpa ter dado trabalho ontem… Helena sorriu com ternura. — Que trabalho o quê. Foi bom ter companhia. Senta, vai. Fiz café pra todo mundo. Tiago levantou o olhar e sorriu de canto. — Finalmente a Bela Adormecida acordou. Cecília riu, tímida, sentando-se à mesa. — Que horas são? — Já passa das nove — respondeu Helena, colocando uma caneca diante dela. — Eu ia te chamar, mas tu parecia tão cansada… Cecília agradeceu, tomando o primeiro gole do café quente. Por um instante, esqueceu de tudo: o medo, o peso da noite anterior, o rosto dele. A conversa com Tiago foi leve — sobre música, sobre o morro, sobre o novo trabalho dela no shopping. Helena observava os dois com um brilho satisfeito nos olhos. O som da porta da frente se abrindo quebrou o momento. Logo em seguida, uma voz animada ecoou pela casa: — Dona Helena, posso entrar? Era Maia, com o cabelo preso num coque bagunçado e o sorriso de sempre. Ela entrou segurando uma sacola com pães e beijou Tiago na bochecha antes de perceber Cecília sentada à mesa. — Amiga! — exclamou, surpresa. — O que tu tá fazendo aqui? Cecília riu sem jeito. — Longa história… — História que eu quero ouvir — disse Maia, já se sentando ao lado dela. — Mas antes, deixa eu comer que tô morrendo de fome. Helena balançou a cabeça, divertida. — Essa menina chega aqui achando que a cozinha é dela. — E não é? — respondeu Maia, brincando, enquanto Tiago servia suco. O clima ficou leve, com risadas, comentários sobre a noite anterior e as brincadeiras carinhosas entre Tiago e Maia. Cecília se sentiu bem ali — acolhida, em paz, como se por algumas horas tivesse esquecido de quem era FK e do peso que o cercava. Mas, em algum canto da casa, havia um eco mudo, uma lembrança do olhar dele. E Cecília sabia que, por mais que tentasse fugir, aquele mundo e aquele homem ainda cruzariam seu caminho de novo. ---
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD