Cecília descia as escadas com o rosto molhado de lágrimas, o coração batendo rápido demais.
As mãos tremiam enquanto ela tentava não fazer barulho, só queria sair dali, respirar outro ar que não tivesse o cheiro dele.
Quando chegou ao último degrau, ouviu um som suave vindo da cozinha.
A luz amarelada iluminava a figura de Dona Helena, segurando um copo d’água.
Os olhos atentos da mulher logo se fixaram nela.
— Menina… o que foi isso? — perguntou baixinho, dando um passo à frente. — Eu ouvi barulho lá de cima, coisa quebrando.
Cecília tentou disfarçar, enxugando o rosto com as costas da mão.
— Nada, dona Helena… eu já tô indo embora.
— Indo embora a essa hora? — A voz dela soou firme, preocupada. — Tu tá vendo como tá escuro lá fora? É perigoso, minha filha.
— Eu preciso ir, de verdade.
Helena pousou o copo na mesa e se aproximou, os olhos bondosos e cheios de sabedoria.
— Tu acha que eu não sei o que acontece nesse morro depois que escurece? — Ela suspirou. — Fica aqui hoje, vai. Tem um quarto de hóspedes lá no fim do corredor. Amanhã cedo tu vai embora com o dia claro.
Cecília hesitou, apertando o braço contra o corpo.
— Eu não quero incomodar.
— Incomodar? — Helena sorriu de leve, tocando o braço da menina com ternura. — Tu não incomoda, não. O que me incomoda é ver uma moça sair chorando dessa casa.
Os olhos de Cecília marejaram de novo, e ela apenas assentiu, em silêncio.
Helena a guiou até o quarto de hóspedes — simples, mas aconchegante, com colcha limpa e o cheiro de lavanda.
— Dorme, minha filha. Amanhã tu pensa no que fazer. — Disse a mulher, ajeitando o lençol. — O mundo parece menor depois de uma boa noite de sono.
Cecília apenas concordou, murmurando um “obrigada”.
Quando Helena saiu e fechou a porta, o silêncio voltou a encher o cômodo.
Cecília deitou, o corpo cansado e a mente em caos.
Mesmo ferida, parte dela ainda sentia o toque dele, o olhar, o peso de cada palavra.
E antes que o sono chegasse, uma lágrima solitária escorreu pelo seu rosto.
Do lado de fora, no corredor, Dona Helena parou diante da porta do neto, ouvindo o som de passos pesados e o ranger da cama.
Ela suspirou fundo, o coração apertado.
— Esse menino ainda vai se perder… — murmurou, voltando para o seu quarto.
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FK passou a noite acordado.
Deitado na cama, o teto parecia zombar dele. A cabeça latejava — entre flashes do rosto de Cecília e o som do copo se estilhaçando no chão.
Cada vez que fechava os olhos, via o olhar dela, assustado.
Não dormiu. Não conseguiu.
O sol começava a nascer quando ele finalmente levantou, cansado, a expressão fria.
Vestiu uma camiseta escura, prendeu o cordão no pescoço e desceu as escadas em silêncio.
Na cozinha, o cheiro de café fresco e pão quente se misturava ao som do noticiário matinal.
Dona Helena e Tiago já estavam sentados à mesa.
O neto mais novo, de olhar sereno, o cumprimentou com um aceno.
— Dormiu bem? — perguntou Tiago, erguendo a sobrancelha.
FK não respondeu. Só se serviu do café e ficou de pé, encostado no balcão, o olhar perdido.
Helena o observava em silêncio, até que largou a xícara e falou, firme, com aquele tom de quem já sabia mais do que deixava transparecer:
— E então, Felipe… — ela usou o nome de batismo, o que raramente acontecia. — Tu vai fingir que nada aconteceu ontem à noite?
FK franziu o cenho, sem olhar pra ela.
— Não sei do que a senhora tá falando.
— Sabe sim — retrucou Helena, olhando-o por cima dos óculos. — A menina ainda tá dormindo lá no quarto de hóspedes.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Tiago arregalou os olhos, surpreso.
FK pousou a xícara com força na bancada.
— Que menina? — perguntou, tentando manter o tom neutro.
— A Cecília — respondeu Helena, sem hesitar. — Eu vi ela descendo as escadas chorando de madrugada. Disse que ia embora. Tu sabe bem o perigo que é andar por essas vielas essa hora. Como é que tu deixou uma moça sair sozinha?
Tiago olhou de um para o outro, confuso, sentindo a tensão crescer.
FK respirou fundo, os punhos cerrados.
— Eu não mandei ela sair — disse, seco. — Ela quis.
Helena balançou a cabeça, decepcionada.
— Às vezes eu me pergunto o que foi que o mundo fez contigo, Felipe. Essa frieza toda não te protege, só te afunda.
Ele desviou o olhar, o maxilar trincado.
Não havia resposta. Nem desculpa.
Por dentro, algo se contorcia, um incômodo que ele não sabia nomear.
Tiago tentou quebrar o silêncio.
— Vó, deixa isso pra lá. A menina tá bem, né?
Helena suspirou.
— Tá dormindo. E vai continuar dormindo, pelo menos até o sol subir.
FK terminou o café num gole só, pegou as chaves da moto e foi saindo pela porta dos fundos, com o coração batendo mais rápido do que gostaria.
Não era culpa, ele dizia a si mesmo. Era outra coisa — algo que o deixava fraco.
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O sol já entrava tímido pelas frestas da cortina quando Cecília acordou.
Por um momento, não soube onde estava — o lençol limpo, o perfume suave de lavanda, o som distante de vozes vindas da cozinha.
A lembrança da noite anterior veio como um soco lento no peito.
Suspirou fundo, sentou-se na cama e passou as mãos pelo rosto.
Estava cansada, mas um pouco mais leve.
Quando abriu a porta, o cheiro de pão fresco e café recém-passado a guiou até a cozinha.
Dona Helena estava ali, mexendo na frigideira com calma, enquanto Tiago cortava frutas e arrumava a mesa.
A cena parecia saída de outro mundo — um em que as pessoas se tratavam com gentileza.
— Bom dia, menina — disse Helena, ao vê-la surgir no batente da porta. — Dormiu bem?
Cecília assentiu, um pouco sem graça.
— Sim, senhora. Desculpa ter dado trabalho ontem…
Helena sorriu com ternura.
— Que trabalho o quê. Foi bom ter companhia. Senta, vai. Fiz café pra todo mundo.
Tiago levantou o olhar e sorriu de canto.
— Finalmente a Bela Adormecida acordou.
Cecília riu, tímida, sentando-se à mesa.
— Que horas são?
— Já passa das nove — respondeu Helena, colocando uma caneca diante dela. — Eu ia te chamar, mas tu parecia tão cansada…
Cecília agradeceu, tomando o primeiro gole do café quente.
Por um instante, esqueceu de tudo: o medo, o peso da noite anterior, o rosto dele.
A conversa com Tiago foi leve — sobre música, sobre o morro, sobre o novo trabalho dela no shopping.
Helena observava os dois com um brilho satisfeito nos olhos.
O som da porta da frente se abrindo quebrou o momento.
Logo em seguida, uma voz animada ecoou pela casa:
— Dona Helena, posso entrar?
Era Maia, com o cabelo preso num coque bagunçado e o sorriso de sempre.
Ela entrou segurando uma sacola com pães e beijou Tiago na bochecha antes de perceber Cecília sentada à mesa.
— Amiga! — exclamou, surpresa. — O que tu tá fazendo aqui?
Cecília riu sem jeito.
— Longa história…
— História que eu quero ouvir — disse Maia, já se sentando ao lado dela. — Mas antes, deixa eu comer que tô morrendo de fome.
Helena balançou a cabeça, divertida.
— Essa menina chega aqui achando que a cozinha é dela.
— E não é? — respondeu Maia, brincando, enquanto Tiago servia suco.
O clima ficou leve, com risadas, comentários sobre a noite anterior e as brincadeiras carinhosas entre Tiago e Maia.
Cecília se sentiu bem ali — acolhida, em paz, como se por algumas horas tivesse esquecido de quem era FK e do peso que o cercava.
Mas, em algum canto da casa, havia um eco mudo, uma lembrança do olhar dele.
E Cecília sabia que, por mais que tentasse fugir, aquele mundo e aquele homem ainda cruzariam seu caminho de novo.
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