O barulho da porta se abrindo foi como um trovão silencioso.
Cecília levantou os olhos da xícara de café e viu FK parado na cozinha.
O corpo firme, os olhos cor de mel queimando, a expressão mais sombria do que qualquer coisa que ela já tinha visto.
O ar pareceu congelar.
Tiago e Maia se entreolharam, entendendo imediatamente que era melhor não intervir.
Helena, com o olhar atento, respirou fundo, mas ficou quieta.
FK avançou um passo em direção a Cecília.
— Sobe comigo — disse, a voz baixa, mas carregada de comando.
Ela engoliu em seco, o corpo tenso, o coração disparado.
— Eu… eu não sei… — murmurou, hesitando.
— Não discute — respondeu ele, firme. — Agora.
Cecília ficou parada, sem forças, e acabou seguindo-o.
Cada passo em direção ao quarto dele parecia um risco, cada degrau um teste de coragem.
Quando chegaram, FK fechou a porta com força atrás deles.
O quarto estava em meia-luz, o cheiro dele ainda impregnado no ar, a cama ainda desfeita.
O silêncio entre os dois era pesado, quase sufocante.
— Eu não quero mais nada disso — disse Cecília, finalmente, a voz trêmula. — Eu não quero mais… nada com você.
FK deu um passo à frente, tão perto que ela podia sentir o calor do corpo dele.
— Essa opção não existe — murmurou, a voz baixa, mas cheia de autoridade e possessividade.
Cecília recuou, mas não havia muito espaço.
O medo misturava-se à adrenalina, à atração que ela não conseguia controlar.
Ele inclinou o rosto, aproximando os lábios dos dela.
— Cecília… tu é minha — disse, quase em sussurro, antes de beijá-la.
O beijo era intenso, carregado de força e de emoção contida.
Ela tentou resistir, empurrar, mas o corpo não obedeceu completamente.
O coração disparava, a respiração falhava, e o quarto parecia girar ao redor deles.
Por alguns segundos, o mundo desapareceu.
Só existia ele, o beijo e a tensão que não podia ser ignorada.
Cecília finalmente se afastou um pouco, respirando com dificuldade.
— FK… eu… — começou, mas ele a segurou pelo braço, impedindo que se afastasse.
— Cala a boca — disse ele, a voz rouca, quase um rugido. — Não deixa eu ouvir essas palavras. Não existe “não” entre nós.
Ela engoliu em seco, o medo e a entrega se misturando, sem saber se queria fugir ou se entregar de vez.
O silêncio voltou, pesado e carregado, só interrompido pelo som da respiração deles e pelo bater do coração de Cecília, que parecia anunciar que dali em diante, nada seria igual.
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O quarto estava mergulhado em meia-luz.
FK segurava Cecília firme contra o corpo, o olhar penetrante, quase queimando.
O silêncio era denso, pesado, carregado de tensão, até que ele inclinou o rosto e beijou-a com intensidade, sem pedir permissão, mas também sem violência.
Ela tentou recuar, mas o corpo não obedecia.
O beijo deles parecia falar tudo o que nenhuma palavra conseguiria: raiva, desejo, possessão e uma estranha ternura que só FK sabia demonstrar.
Os minutos se transformaram em horas.
Eles se perderam no tempo, entre olhares, toques e proximidade, entregando-se um ao outro de forma quase silenciosa.
Cecília podia sentir que cada gesto dele carregava força, mas também cuidado, tentando ser carinhoso, mesmo sem saber como.
Quando o sol começou deixar de iluminar o quarto, eles se afastaram levemente, sentando na cama, ainda respirando rápido.
O silêncio voltou, mas agora havia uma estranha calma no ar, uma i********e que não podia ser ignorada.
— Por que tu faz isso comigo? — Cecília perguntou, a voz baixa, quase trêmula.
— Faz o quê? — FK respondeu, sem olhar de imediato, passando a mão pelos cabelos.
— Me domina… me confunde… — ela completou, olhando para o chão. — Eu não sei mais o que sentir…
Ele finalmente levantou os olhos para ela.
— Porque eu nunca senti isso por ninguém — disse ele, a voz rouca, baixa, mas sincera. — E talvez nem saiba direito o que é sentir, mas tu mexeu comigo de um jeito que ninguém mexeu.
Cecília engoliu em seco, tentando entender.
— Mas você é… tão… — começou, mas as palavras falharam.
— Frio? — completou ele, com um meio sorriso sombrio. — Eu sei. Eu sou tudo isso. Mas contigo… — ele respirou fundo — contigo, é diferente. Tu não é como ninguém nesse mundo de merda que eu vivo.
Ela sentiu o coração apertar.
— E o que significa isso?
— Significa que, por mais que eu tente fugir, por mais que eu tente controlar tudo… tu entrou aqui — disse ele, batendo levemente no próprio peito. — E agora… não tem volta.
O silêncio caiu de novo, mas agora era mais leve, mais verdadeiro.
Cecília olhou para ele, a mistura de medo, fascínio e desejo ainda pulsando, mas agora com uma ponta de compreensão.
Ela sabia que não seria fácil, mas algo dentro dela dizia que aquele homem, sombrio e implacável, era o único que poderia entendê-la de verdade.
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O quarto estava mergulhado em penumbra.
A luz da madrugada filtrava-se pelas frestas da janela, desenhando faixas suaves sobre a cama desfeita.
FK estava sentado na poltrona ao lado, apenas observando.
O cigarro queimava entre seus dedos, mas ele nem percebia a fumaça subir e desaparecer.
O olhar dele estava preso na menina que dormia em sua cama — Cecília, envolta na camiseta dele, o rosto tranquilo, o corpo pequeno perdido nos lençóis escuros.
Ele nunca havia permitido que ninguém dormisse ali.
Aquele espaço era território proibido, sagrado de certa forma — um abrigo que só ele conhecia.
Mas agora, ela estava ali, respirando devagar, trazendo uma paz que ele não entendia.
Por alguns minutos, FK apenas observou, calado.
Os pensamentos se atropelavam.
Como algo tão simples podia abalar tanto o que ele era?
Como uma menina que vinha do mesmo morro, mas de um mundo tão diferente, conseguia desarmar o homem que o próprio crime temia?
Ele apagou o cigarro, levantou-se e, sem saber por quê, deitou ao lado dela.
Ficou ali, quieto, sentindo o cheiro do cabelo dela e o calor da respiração suave.
Cecília se mexeu um pouco, ainda dormindo, e encostou a cabeça no peito dele, num gesto instintivo, inocente.
FK fechou os olhos.
O corpo relaxou como não acontecia há anos.
E pela primeira vez em muito tempo — talvez desde a infância — ele dormiu de verdade.
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O dia amanheceu lento.
Cecília acordou primeiro, ainda meio tonta, o coração acelerado.
Demorou alguns segundos pra perceber onde estava — o teto, o quarto, o cheiro… ele.
Virou-se devagar e viu FK dormindo ao lado.
Sem as sombras no olhar, o rosto dele parecia outro.
Mais jovem. Menos c***l.
Ela ficou ali, observando, tentando decifrar quem era aquele homem quando o silêncio tomava conta.
As cicatrizes nos ombros e no braço contavam histórias que ela não ousava perguntar.
Os lábios entreabertos, a respiração pesada.
Ele parecia… humano.
Cecília estendeu a mão, quase tocando o rosto dele, mas recuou.
Não queria acordá-lo.
Parte dela ainda sentia medo, outra parte só queria entender o que estava sentindo.
O sol começou a invadir o quarto, dourando o lençol e o corpo dele.
E naquele instante, Cecília percebeu que, por mais que tentasse negar, algo dentro dela já estava marcado — como se aquele homem, aquele vulgo que o morro inteiro temia, tivesse deixado um traço invisível em sua alma.
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