Ao chegarem no térreo, a voz doce e envelhecida de Dona Helena quebrou o silêncio.
— Filipe? — chamou, da cozinha, segurando uma caneca de café.
Cecília congelou no meio da sala.
O coração dela disparou. O nome Filipe soou estranho — pesado, íntimo.
FK levantou o olhar na direção da avó, o maxilar travado.
— Vó… — murmurou, num tom quase de aviso.
Dona Helena enxugou as mãos num pano e se aproximou, com um leve sorriso.
— Eu lembro de você, menina. — disse, olhando pra Cecília. — Tava no churrasco do PH, né?
Cecília assentiu, sem saber o que responder.
— Sim, senhora…
— E qual é o seu nome mesmo? — perguntou Helena, curiosa, com aquele olhar terno que parecia ver além das aparências.
— Cecília. — respondeu baixinho.
A senhora sorriu.
— Cecília… nome bonito. — disse, e então olhou pro neto com o cenho franzido. — Engraçado, Filipe. Nunca vi você trazer mulher nenhuma pra casa.
O silêncio que se seguiu foi quase palpável.
Cecília corou, e FK desviou o olhar, visivelmente irritado com o comentário, mas sem responder.
Dona Helena apenas deu um sorrisinho esperto, como se soubesse mais do que demonstrava.
— A gente já tá de saída, vó. — disse FK, firme, encerrando o assunto.
— Tá bom, meu filho… — respondeu ela, ainda observando os dois com curiosidade. — Se cuidem, viu?
Sem dizer mais nada, FK colocou o capacete em Cecília, ajustando a cinta no pescoço dela com movimentos firmes e calados.
A moto rugiu quando ele ligou o motor, e ela subiu atrás dele, sentindo o coração apertado.
O caminho até a viela próxima à casa dela foi silencioso.
O vento batia no rosto de Cecília, levando consigo o cheiro de pólvora, perfume e cigarro que parecia sempre cercar FK.
Nenhum dos dois disse uma palavra.
Quando ele parou a moto, Cecília desceu devagar, ajeitando o cabelo.
— Obrigada… por me trazer. — murmurou, sem saber se deveria olhar pra ele.
FK apenas acenou com a cabeça, o olhar firme, enigmático.
— Vai pra casa.
Ela assentiu, deu alguns passos pra longe… e, antes de virar na esquina, olhou pra trás.
Ele ainda estava lá, parado na moto, observando.
O olhar dele parecia uma promessa muda — ou uma ameaça silenciosa.
E Cecília, sem entender por quê, soube que aquela história entre eles estava apenas começando.
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O sol do fim da manhã já atravessava as janelas quando Cecília empurrou a porta de casa.
A mãe estava na cozinha, o cheiro de arroz e feijão se espalhando pelo ar.
— Cecília! — chamou, assim que a viu. — Dormiu fora de novo, menina?
Cecília sorriu sem graça, deixando a bolsa no sofá.
— Dormi na casa da Maia, mãe. A gente ficou assistindo filme e eu acabei pegando no sono. — mentiu com naturalidade, tentando parecer tranquila.
— Essa menina vive te prendendo lá — comentou Carla, cortando legumes na pia. — Qualquer dia você muda pra casa dela de vez.
— Melhor do que ficar em casa ouvindo as reclamações da mamãe — brincou Clara, rindo enquanto ajeitava a mesa.
Cecília apenas sorriu, sem responder. O corpo ainda doía em lugares que ela nem sabia que existiam.
E por mais que tentasse afastar as lembranças da noite anterior, elas vinham em flashes — o toque de FK, o olhar dele, o cheiro do quarto.
— Vem, senta pra almoçar — disse a mãe, colocando a travessa no centro da mesa. — Feijão tá fresquinho.
As três se sentaram, e o som dos talheres preenchia o silêncio confortável da casa.
Mas bastou alguns minutos pra Clara soltar, com aquele tom curioso de quem adora uma fofoca:
— Gente, vocês não vão acreditar no que eu ouvi lá no salão hoje de manhã.
Cecília congelou, o garfo a meio caminho da boca.
— O quê? — perguntou Carla, animada.
— Que o FK apareceu ontem com uma garota. — respondeu Clara, abaixando a voz como se fosse um segredo perigoso. — Ninguém sabe quem é. Disseram que foi no churrasco do PH… e depois sumiram os dois.
O coração de Cecília disparou.
Ela engoliu em seco, tentando parecer indiferente.
— E o que tem isso? — perguntou, mexendo no prato, sem levantar o olhar.
— Ué, é estranho, né? — disse Clara, dando de ombros. — Dizem que ele nunca leva mulher nenhuma pra lugar nenhum. Aí do nada aparece com uma e some?
Clara riu, achando graça.
— Aposto que é mais uma dessas meninas que acham que vão mudar bandido.
Cecília forçou um sorriso fraco, o estômago revirando.
A mãe apenas balançou a cabeça, cansada do assunto.
— Esse rapaz vive no meio da confusão. Melhor vocês nem se meterem nesses papos.
— Concordo — murmurou Cecília, num fio de voz. — Essas histórias nunca acabam bem.
Mas por dentro, o coração dela gritava o contrário.
Ela sabia muito bem quem era a garota misteriosa.
E, por mais que quisesse negar, uma parte dela queria ser lembrada exatamente assim:
como o segredo que FK nunca contou pra ninguém.
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O motor da moto ainda vibrava baixinho quando FK encostou na esquina próxima ao shopping.
O capacete preto escondia o olhar, mas sob a viseira, os olhos dele estavam fixos em uma única direção: a saída de funcionários.
Era o fim do expediente, e a calçada se enchia de gente cansada, rindo, mexendo no celular, pegando ônibus.
E entre eles, ela surgiu.
Cecília.
O cabelo preso num coque simples, o uniforme dobrado até o cotovelo, a mochila nas costas.
Tinha algo nela que o desarmava e irritava ao mesmo tempo — aquela calma, aquele jeito alheio ao caos do mundo dele.
Ela atravessou a rua sem perceber a presença dele, parando na esquina pra comprar um picolé num carrinho.
FK acendeu um cigarro, os olhos seguindo cada movimento.
Não se aproximou, não chamou. Só observou.
Era como se precisasse ter certeza de que ela estava bem… e ao mesmo tempo lembrar a si mesmo que ninguém mais podia olhar pra ela daquele jeito.
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Logo depois já na Rocinha.
Cecília virou a esquina e sumiu na viela.
Ele esperou mais um pouco, tragando o cigarro até o fim, o peito pesado de algo que não sabia nomear.
PH apareceu pouco depois, vindo em direção contrária.
— Tu tá sumido, mano — disse, encostando no portão. — Tá tudo certo?
FK apenas assentiu.
— Sempre tá.
— Sei. — PH o olhou de lado, desconfiado. — E aquela história lá da Juliana? O bagulho ainda repercutindo.
FK bufou, jogando o cigarro fora.
— Não quero ouvir nome dessa mulher, não.
— Beleza, parceiro. Só tô dizendo… o morro inteiro tá comentando.
FK não respondeu.
Pegou o capacete e subiu na moto, encerrando a conversa com o silêncio costumeiro.
— Partiu boca — murmurou, e o ronco do motor engoliu as últimas palavras de PH.
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Na boca, o ritmo era o de sempre: dinheiro, olhares atentos, comandos secos.
FK se movia como uma máquina — calculado, frio, letal.
Contava o dinheiro, conferia a segurança, dava ordens.
Mas, entre um acerto e outro, o rosto dela surgia de relance na mente dele.
O sorriso distraído, o toque suave, o som da voz chamando o nome dele pela primeira vez.
E aquilo o enfurecia.
Porque FK não se deixava prender por ninguém.
Mas, naquela noite, enquanto olhava pro alto da favela iluminada, soube que Cecília já estava marcada de um jeito que ele não conseguiria apagar.
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