O quarto estava mergulhado em penumbra.
A luz que entrava pela janela m*l iluminava o espaço, projetando sombras nas paredes — as mesmas sombras que pareciam morar dentro dele.
Cecília estava de pé, respirando rápido, o coração batendo tão alto que podia ouvir.
FK continuava imóvel, a encarando como se tentasse decifrar algo nela que ele mesmo não entendia.
— Por que você veio comigo? — ele perguntou, a voz rouca, quebrando o silêncio.
Ela hesitou, baixando os olhos.
— Eu… não sei. — respondeu, sincera. — Mas eu não consegui dizer não.
Ele deu um passo à frente, aproximando-se.
— Você devia ter dito. — murmurou, o olhar queimando. — Eu não sou bom pra você.
— E mesmo assim veio me buscar — retrucou ela, erguendo o olhar verde, firme, mesmo tremendo por dentro.
Um músculo pulsou na mandíbula dele. FK desviou o olhar por um instante, passou a mão pelos cabelos e soltou um suspiro impaciente.
— Você me deixa fora de controle, Cecília. Eu odeio isso.
Ela se aproximou devagar, como se enfrentasse um animal selvagem.
— Eu não te entendo. Uma hora você me afasta, na outra… — ela parou, a voz falhando. — Na outra, me beija como se fosse o fim do mundo.
FK encurtou a distância. Os olhos cor de mel brilharam na penumbra.
— Porque é isso que você faz comigo. — disse, antes de tocar o rosto dela.
O toque dele foi firme, mas inesperadamente delicado.
Ela fechou os olhos e encostou o rosto na palma dele — um gesto simples, mas que o desarmou por completo.
O beijo veio de novo, intenso e lento, sem pressa.
Não era como antes, movido só pelo impulso; era um beijo pesado, cheio de sentimentos que nenhum dos dois estava pronto pra admitir.
Quando se separaram, Cecília encostou a testa na dele, respirando ofegante.
— Você me assusta. — sussurrou.
— Eu sei. — respondeu ele, a voz quase um sussurro. — Mas você me acalma. E eu não sei o que é pior.
O silêncio tomou conta do quarto outra vez.
FK se afastou, sentando-se na beira da cama, os cotovelos apoiados nos joelhos, olhando pro chão.
Cecília ficou parada por um instante, observando aquele homem que o morro inteiro temia… e que agora parecia perdido, humano, vulnerável.
Sem pensar, ela foi até ele e o abraçou por trás.
Ele não se moveu de imediato, mas aos poucos, suas mãos tocaram as dela — e pela primeira vez, FK não se sentiu sozinho dentro do próprio inferno.
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O silêncio dominava o quarto.
Cecília ficou parada por alguns segundos, tentando acalmar o coração acelerado.
FK ainda estava sentado na cama, o olhar distante, tragando o cigarro que m*l lembrava de ter acendido.
Ela olhou em volta, nervosa, e disse baixinho:
— Posso… tomar um banho?
Ele a encarou por um instante, sem dizer nada. Depois assentiu, apontando o banheiro no canto do quarto.
— Lá dentro. Toalha limpa na prateleira.
Cecília entrou e fechou a porta devagar.
O banheiro era amplo, frio, com cheiro de sabonete e fumaça.
A água quente caía pelos ombros, trazendo um tipo estranho de paz.
Por alguns minutos, ela esqueceu o mundo lá fora — o morro, o medo, o que sentia.
Mas bastou lembrar dos olhos dele pra sentir o coração disparar de novo.
Quando saiu, vestindo apenas a camiseta que ele deixara pra ela, FK ainda estava ali, encostado na janela, olhando o céu da madrugada.
Ele se virou devagar, o olhar se prendendo nela como se o ar entre eles tivesse se tornado mais denso.
— Você não devia ficar aqui. — disse ele, a voz rouca.
— Eu sei… — respondeu ela, com sinceridade. — Mas eu quero.
FK se aproximou.
O cheiro dele era forte, o calor do corpo, quase sufocante.
Sem mais palavras, ele a puxou pela cintura e a beijou — um beijo intenso, urgente, cheio de sentimentos que nenhum dos dois sabia nomear.
O momento cresceu entre eles, inevitável.
O toque, os suspiros contidos, a entrega silenciosa.
Foi intenso, carregado de emoção e desejo reprimido — mas sem pressa, sem brutalidade.
FK, o homem que o morro temia, tocava Cecília com uma mistura rara de domínio e cuidado.
Quando o silêncio voltou, ela respirava devagar, a cabeça encostada no peito dele.
No pescoço e nos ombros dela, marcas visíveis começavam a surgir — vestígios da posse inconsciente dele.
Chupões que denunciavam o instinto de FK de deixar o próprio nome gravado na pele dela, como se quisesse dizer ao mundo inteiro: ela é minha.
Cecília o olhou, meio assustada, meio fascinada.
— Você me marcou… — murmurou.
Ele encostou o rosto no dela, sussurrando:
— Pra ninguém esquecer. Nem você.
Ela sentiu um arrepio percorrer o corpo inteiro.
Pouco depois, FK apagou o cigarro no cinzeiro ao lado da cama, deitou-se ao lado dela e a puxou pra perto, até que a respiração dos dois se misturasse.
Cecília adormeceu primeiro, envolta no calor dele.
E FK, acordado, observou o rosto dela por longos minutos.
Naquela madrugada, sem admitir pra si mesmo, percebeu que algo dentro dele — frio e trancado por anos — começava a rachar.
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A luz suave do amanhecer começava a invadir o quarto, filtrando-se pelas cortinas.
Cecília acordou devagar, o corpo ainda cansado, envolto pelo lençol e pelo cheiro inconfundível de FK.
Por um momento, ficou apenas observando o teto, tentando distinguir o que era sonho e o que tinha sido real.
O peso do corpo dele ao lado a fez prender a respiração.
FK dormia — ou parecia dormir. O rosto sereno, os traços duros suavizados pela luz dourada.
Ela se virou devagar, com cuidado, como se cada movimento pudesse quebrar o silêncio que os cercava.
Pegou a calça jogada no chão, vestiu a camiseta dele que ainda estava em seu corpo, e respirou fundo.
Precisava ir embora. Antes que tudo parecesse mais complicado do que já era.
Mas quando deu o primeiro passo em direção à porta, a voz dele ecoou atrás dela:
— Acha mesmo que eu ia te deixar sair sem falar comigo?
Cecília congelou.
Virou-se devagar. Ele estava sentado na cama, o lençol escorrendo pela cintura, o olhar cor de mel cravado nela — intenso, perigoso e indecifrável.
— Eu… não queria te acordar. — disse ela, nervosa.
— Acordou. — ele respondeu, seco, levantando-se.
Deu alguns passos até ela, a presença dele dominando o espaço.
— Tá fugindo de mim, é isso?
— Não… eu só… preciso ir pra casa. Minha mãe, minhas irmãs… vão perguntar.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos, analisando cada traço dela.
— Ontem você não parecia com pressa de ir embora.
Cecília baixou o olhar, sentindo o rosto corar.
— Ontem… foi diferente.
FK aproximou o rosto, o suficiente pra ela sentir o calor da respiração dele.
— Diferente por quê? — sussurrou.
— Porque ontem… — ela hesitou, procurando as palavras. — Ontem parecia que você se importava.
Por um instante, algo nos olhos dele mudou.
Um lampejo quase imperceptível de humanidade.
Mas desapareceu tão rápido quanto veio.
— Eu não me importo. — disse ele, firme. — Só não quero ninguém te olhando com aquelas marcas.
Ela tocou o pescoço, sentindo os chupões ainda sensíveis.
— Eu posso esconder…
Ele se inclinou mais perto.
— Não é pra esconder. — murmurou. — É pra lembrar.
O coração dela disparou.
Era confuso. Assustador. Intenso.
E mesmo assim, ela não conseguia se mover.
Depois de alguns segundos, FK deu um passo pra trás, pegou uma camiseta jogou pra ela.
— Eu te levo.
— Eu posso ir sozinha.
— Eu te levo, Cecília. — repetiu, a voz firme, sem espaço pra discussão.
Ela apenas assentiu, em silêncio, sabendo que resistir a ele era inútil.
Enquanto desciam juntos, o som dos sapatos dele ecoava no corredor — e Cecília teve a sensação de que, a partir daquele amanhecer, sua vida nunca mais seria a mesma.
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