Capítulo 17 - Marcas

1332 Words
O quarto estava mergulhado em penumbra. A luz que entrava pela janela m*l iluminava o espaço, projetando sombras nas paredes — as mesmas sombras que pareciam morar dentro dele. Cecília estava de pé, respirando rápido, o coração batendo tão alto que podia ouvir. FK continuava imóvel, a encarando como se tentasse decifrar algo nela que ele mesmo não entendia. — Por que você veio comigo? — ele perguntou, a voz rouca, quebrando o silêncio. Ela hesitou, baixando os olhos. — Eu… não sei. — respondeu, sincera. — Mas eu não consegui dizer não. Ele deu um passo à frente, aproximando-se. — Você devia ter dito. — murmurou, o olhar queimando. — Eu não sou bom pra você. — E mesmo assim veio me buscar — retrucou ela, erguendo o olhar verde, firme, mesmo tremendo por dentro. Um músculo pulsou na mandíbula dele. FK desviou o olhar por um instante, passou a mão pelos cabelos e soltou um suspiro impaciente. — Você me deixa fora de controle, Cecília. Eu odeio isso. Ela se aproximou devagar, como se enfrentasse um animal selvagem. — Eu não te entendo. Uma hora você me afasta, na outra… — ela parou, a voz falhando. — Na outra, me beija como se fosse o fim do mundo. FK encurtou a distância. Os olhos cor de mel brilharam na penumbra. — Porque é isso que você faz comigo. — disse, antes de tocar o rosto dela. O toque dele foi firme, mas inesperadamente delicado. Ela fechou os olhos e encostou o rosto na palma dele — um gesto simples, mas que o desarmou por completo. O beijo veio de novo, intenso e lento, sem pressa. Não era como antes, movido só pelo impulso; era um beijo pesado, cheio de sentimentos que nenhum dos dois estava pronto pra admitir. Quando se separaram, Cecília encostou a testa na dele, respirando ofegante. — Você me assusta. — sussurrou. — Eu sei. — respondeu ele, a voz quase um sussurro. — Mas você me acalma. E eu não sei o que é pior. O silêncio tomou conta do quarto outra vez. FK se afastou, sentando-se na beira da cama, os cotovelos apoiados nos joelhos, olhando pro chão. Cecília ficou parada por um instante, observando aquele homem que o morro inteiro temia… e que agora parecia perdido, humano, vulnerável. Sem pensar, ela foi até ele e o abraçou por trás. Ele não se moveu de imediato, mas aos poucos, suas mãos tocaram as dela — e pela primeira vez, FK não se sentiu sozinho dentro do próprio inferno. --- O silêncio dominava o quarto. Cecília ficou parada por alguns segundos, tentando acalmar o coração acelerado. FK ainda estava sentado na cama, o olhar distante, tragando o cigarro que m*l lembrava de ter acendido. Ela olhou em volta, nervosa, e disse baixinho: — Posso… tomar um banho? Ele a encarou por um instante, sem dizer nada. Depois assentiu, apontando o banheiro no canto do quarto. — Lá dentro. Toalha limpa na prateleira. Cecília entrou e fechou a porta devagar. O banheiro era amplo, frio, com cheiro de sabonete e fumaça. A água quente caía pelos ombros, trazendo um tipo estranho de paz. Por alguns minutos, ela esqueceu o mundo lá fora — o morro, o medo, o que sentia. Mas bastou lembrar dos olhos dele pra sentir o coração disparar de novo. Quando saiu, vestindo apenas a camiseta que ele deixara pra ela, FK ainda estava ali, encostado na janela, olhando o céu da madrugada. Ele se virou devagar, o olhar se prendendo nela como se o ar entre eles tivesse se tornado mais denso. — Você não devia ficar aqui. — disse ele, a voz rouca. — Eu sei… — respondeu ela, com sinceridade. — Mas eu quero. FK se aproximou. O cheiro dele era forte, o calor do corpo, quase sufocante. Sem mais palavras, ele a puxou pela cintura e a beijou — um beijo intenso, urgente, cheio de sentimentos que nenhum dos dois sabia nomear. O momento cresceu entre eles, inevitável. O toque, os suspiros contidos, a entrega silenciosa. Foi intenso, carregado de emoção e desejo reprimido — mas sem pressa, sem brutalidade. FK, o homem que o morro temia, tocava Cecília com uma mistura rara de domínio e cuidado. Quando o silêncio voltou, ela respirava devagar, a cabeça encostada no peito dele. No pescoço e nos ombros dela, marcas visíveis começavam a surgir — vestígios da posse inconsciente dele. Chupões que denunciavam o instinto de FK de deixar o próprio nome gravado na pele dela, como se quisesse dizer ao mundo inteiro: ela é minha. Cecília o olhou, meio assustada, meio fascinada. — Você me marcou… — murmurou. Ele encostou o rosto no dela, sussurrando: — Pra ninguém esquecer. Nem você. Ela sentiu um arrepio percorrer o corpo inteiro. Pouco depois, FK apagou o cigarro no cinzeiro ao lado da cama, deitou-se ao lado dela e a puxou pra perto, até que a respiração dos dois se misturasse. Cecília adormeceu primeiro, envolta no calor dele. E FK, acordado, observou o rosto dela por longos minutos. Naquela madrugada, sem admitir pra si mesmo, percebeu que algo dentro dele — frio e trancado por anos — começava a rachar. --- A luz suave do amanhecer começava a invadir o quarto, filtrando-se pelas cortinas. Cecília acordou devagar, o corpo ainda cansado, envolto pelo lençol e pelo cheiro inconfundível de FK. Por um momento, ficou apenas observando o teto, tentando distinguir o que era sonho e o que tinha sido real. O peso do corpo dele ao lado a fez prender a respiração. FK dormia — ou parecia dormir. O rosto sereno, os traços duros suavizados pela luz dourada. Ela se virou devagar, com cuidado, como se cada movimento pudesse quebrar o silêncio que os cercava. Pegou a calça jogada no chão, vestiu a camiseta dele que ainda estava em seu corpo, e respirou fundo. Precisava ir embora. Antes que tudo parecesse mais complicado do que já era. Mas quando deu o primeiro passo em direção à porta, a voz dele ecoou atrás dela: — Acha mesmo que eu ia te deixar sair sem falar comigo? Cecília congelou. Virou-se devagar. Ele estava sentado na cama, o lençol escorrendo pela cintura, o olhar cor de mel cravado nela — intenso, perigoso e indecifrável. — Eu… não queria te acordar. — disse ela, nervosa. — Acordou. — ele respondeu, seco, levantando-se. Deu alguns passos até ela, a presença dele dominando o espaço. — Tá fugindo de mim, é isso? — Não… eu só… preciso ir pra casa. Minha mãe, minhas irmãs… vão perguntar. Ele ficou em silêncio por alguns segundos, analisando cada traço dela. — Ontem você não parecia com pressa de ir embora. Cecília baixou o olhar, sentindo o rosto corar. — Ontem… foi diferente. FK aproximou o rosto, o suficiente pra ela sentir o calor da respiração dele. — Diferente por quê? — sussurrou. — Porque ontem… — ela hesitou, procurando as palavras. — Ontem parecia que você se importava. Por um instante, algo nos olhos dele mudou. Um lampejo quase imperceptível de humanidade. Mas desapareceu tão rápido quanto veio. — Eu não me importo. — disse ele, firme. — Só não quero ninguém te olhando com aquelas marcas. Ela tocou o pescoço, sentindo os chupões ainda sensíveis. — Eu posso esconder… Ele se inclinou mais perto. — Não é pra esconder. — murmurou. — É pra lembrar. O coração dela disparou. Era confuso. Assustador. Intenso. E mesmo assim, ela não conseguia se mover. Depois de alguns segundos, FK deu um passo pra trás, pegou uma camiseta jogou pra ela. — Eu te levo. — Eu posso ir sozinha. — Eu te levo, Cecília. — repetiu, a voz firme, sem espaço pra discussão. Ela apenas assentiu, em silêncio, sabendo que resistir a ele era inútil. Enquanto desciam juntos, o som dos sapatos dele ecoava no corredor — e Cecília teve a sensação de que, a partir daquele amanhecer, sua vida nunca mais seria a mesma. ---
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