Helena passou o dia inteiro tentando não pensar nele.
Falhou em todas as tentativas.
Cada som do celular fazia seu coração disparar. Cada sombra refletida no vidro parecia carregada de intenção. Ela se odiava por isso. Odiava a curiosidade. Odiava o fato de uma parte sua — pequena, mas insistente — querer vê-lo outra vez.
Quando a noite caiu, a cidade pareceu mais silenciosa do que o normal.
Helena saiu do prédio com cuidado, os passos contidos. O ar estava pesado, abafado, como se algo estivesse prestes a acontecer.
— Você demorou hoje.
A voz surgiu ao lado dela.
Helena estremeceu.
— Você faz isso de propósito — disse, sem virar o rosto.
— Sim.
Ela finalmente o encarou.
Rafael estava encostado no carro escuro, os braços cruzados, o olhar fixo nela como se tivesse passado o dia inteiro esperando por aquele momento.
— Eu pedi para você ficar longe — ela disse.
— E eu disse que você pediria isso muitas vezes.
— Isso não é um jogo.
— É — ele respondeu calmamente. — Você só não conhece as regras ainda.
Helena respirou fundo.
— O que você quer agora?
— Conversar — disse ele. — De verdade.
— Aqui? No meio da rua?
— Não — Rafael abriu a porta do carro. — Aqui não.
O coração dela acelerou.
— Eu não vou entrar no seu carro.
Ele deu um passo à frente, sem tocá-la.
— Então eu entro no seu silêncio — murmurou. — E isso costuma ser mais perigoso.
— Você me assusta.
Rafael sustentou o olhar.
— Eu sei.
— E mesmo assim continua.
— Porque você não foi embora.
Ela engoliu em seco.
— Isso não significa nada.
— Significa tudo.
O silêncio se estendeu entre eles. Pessoas passavam ao longe, alheias ao que acontecia naquele pequeno espaço carregado de tensão.
— Cinco minutos — ela disse de repente. — Em um lugar público.
Rafael sorriu de leve.
— Você acabou de quebrar sua própria regra.
Eles caminharam até um café quase vazio, as luzes baixas, o som distante de música antiga preenchendo o ar. Sentaram-se frente a frente.
— Agora fala — Helena disse. — O que você quer de mim?
Rafael apoiou os cotovelos na mesa.
— Quero que você pare de fingir que não sente.
— Sentir o quê?
— Isso — ele respondeu, baixando a voz. — Esse incômodo no estômago. Essa vontade de fugir e ficar ao mesmo tempo.
Ela desviou o olhar.
— Você não deveria ter esse poder.
— Eu não tomei — ele disse. — Você ofereceu.
— Quando?
— Quando não foi embora naquela primeira noite.
Helena fechou os olhos por um instante.
— Você faz parecer que tudo é escolha minha.
— Porque é.
Ela riu, sem humor.
— Você me observa. Sabe coisas sobre mim. Aparece quando quer.
— E mesmo assim — Rafael inclinou-se levemente para a frente — você está aqui.
O olhar dele caiu em seus lábios por um segundo. Foi rápido. Mas foi suficiente para o ar mudar.
Helena sentiu o corpo reagir antes da mente.
— Não faz isso — ela sussurrou.
— Fazer o quê?
— Olhar desse jeito.
— Eu sempre olho — ele respondeu. — Você só começou a perceber agora.
Ela se levantou bruscamente.
— Eu vou embora.
Rafael não tentou impedi-la.
— Você vai voltar.
Ela parou.
— Não vou.
— Vai — ele disse com firmeza. — Porque agora você sabe que não está sozinha no escuro.
Helena virou-se, os olhos brilhando.
— Você não tem ideia do quanto isso me apavora.
Rafael se levantou devagar, diminuindo a distância entre eles até restar apenas o espaço necessário para respirar.
— E você não tem ideia do quanto isso me prende.
Por um instante, o mundo desapareceu. Não houve toque. Apenas proximidade. Calor. Respirações que se misturavam.
— Se você cruzar essa linha — Helena murmurou — não tem volta.
Rafael inclinou a cabeça, os lábios próximos ao ouvido dela, sem encostar.
— Eu cruzei no momento em que decidi te conhecer.
Ela se afastou de repente.
— Isso é errado.
— Quase tudo que importa é.
Helena saiu do café com o coração em guerra.
Rafael ficou ali, observando-a ir, sabendo que aquela noite tinha mudado algo entre eles.
Não porque haviam se tocado.
Mas porque ambos queriam.
E o desejo, quando nasce do medo,
costuma cobrar um preço alto.