Helena acordou com o coração disparado.
O quarto estava escuro, o silêncio pesado demais para ser confortável. Por um segundo, ela não soube onde estava. O cheiro de fumaça parecia real demais. O calor, sufocante.
Ela sentou na cama ofegante.
— Não… — sussurrou.
Outro pesadelo.
Mas dessa vez, havia algo diferente.
No sonho, ela não estava sozinha.
Havia alguém puxando-a para fora das chamas.
E quando ela tentou ver o rosto…
era Rafael.
Helena passou o dia inteiro inquieta. A sensação de que algo estava prestes a explodir a acompanhava como uma sombra. Clara tentou conversar, mas ela m*l ouviu.
— Você precisa parar de sumir assim — Clara disse. — Parece que está sempre… fugindo.
Helena levantou os olhos.
— Fugindo de quê?
Clara hesitou.
— De si mesma.
A frase caiu como um golpe.
Naquela noite, Helena não tentou evitar. Não correu. Não mudou o caminho.
Ela sabia que ele estaria lá.
E estava.
— Você demorou — Rafael disse, encostado no carro, como sempre.
— Eu tive um pesadelo com você — Helena respondeu, direta.
Ele ficou imóvel.
— O que aconteceu no sonho?
— Você me salvava de algo que eu não conseguia ver.
Rafael desviou o olhar pela primeira vez.
— Então está na hora de você ver.
Ela sentiu o estômago gelar.
— Ver o quê?
Rafael abriu a porta do carro.
— Entra.
— Não.
— Helena — a voz dele estava diferente. Mais dura. Mais real. — O que eu vou te mostrar não pode ser dito no meio da rua.
— Isso está indo longe demais.
— Sempre esteve — ele respondeu. — Você só começou a perceber agora.
Depois de alguns segundos que pareceram uma eternidade, ela entrou.
O trajeto foi silencioso. A cidade passava pela janela como um borrão de luzes e sombras. Helena tentava controlar a respiração.
— Para onde estamos indo? — perguntou.
— Para o lugar onde tudo começou.
O carro parou diante de um prédio antigo, parcialmente abandonado. Janelas quebradas. Marcas escuras nas paredes.
Helena sentiu as pernas fraquejarem.
— Não… — sussurrou. — Isso não.
Rafael desligou o carro.
— Você já esteve aqui antes.
— Eu nunca vim a esse lugar.
Ele a encarou.
— Veio sim. Há sete anos.
Helena riu, nervosa.
— Eu lembraria.
— Não lembraria — ele corrigiu. — Porque sua mente fez o que precisou para sobreviver.
Ele abriu o porta-luvas e tirou uma pasta.
Dentro, fotos.
Do prédio em chamas.
De ambulâncias.
De uma garota coberta de fuligem sendo retirada pelos bombeiros.
Helena sentiu o mundo girar.
— Essa garota… — sua voz falhou.
— É você.
Ela negou com a cabeça.
— Isso é mentira.
— Não — Rafael disse, firme. — Isso é um relatório oficial.
Ela folheou os papéis com as mãos trêmulas.
— Tentativa de incêndio criminoso…? — leu em voz alta. — Duas vítimas fatais…
O ar desapareceu dos pulmões dela.
— Eu… eu nunca machucaria ninguém.
— Não intencionalmente — Rafael respondeu. — Você estava em dissociação. Presa em um episódio traumático severo.
Ela o encarou, os olhos cheios de lágrimas.
— Como você sabe tudo isso?
Rafael respirou fundo.
— Porque eu estava lá.
— Você… — Helena engoliu em seco. — Você era um bombeiro?
— Não — ele disse. — Eu era o primeiro policial a entrar naquele prédio.
O silêncio explodiu dentro dela.
— Você me conhece desde então… — sussurrou.
— Eu te encontrei inconsciente, segurando um isqueiro — Rafael continuou. — Repetindo o nome de alguém que te machucou por anos.
Helena começou a chorar.
— Eu não lembrava…
— Não lembrar foi o acordo — ele disse. — Arquivo selado. Novo nome. Nova vida.
Ela o encarou, em choque.
— Então tudo isso… não foi coincidência.
— Nunca foi.
— Você me observava porque…?
— Porque eu fui designado para te monitorar — Rafael confessou. — Para garantir que aquilo não acontecesse de novo.
Helena sentiu algo se quebrar dentro do peito.
— Então você se aproximou por obrigação.
— No começo — ele disse.
Ela riu em meio às lágrimas.
— Claro.
— Mas isso mudou — Rafael deu um passo à frente. — Mudou quando eu percebi que você não era o monstro que todos temiam.
— E agora? — ela perguntou, a voz baixa. — O que eu sou para você agora?
Rafael hesitou.
— Agora você é o meu maior erro.
— Porque se eu machucar alguém outra vez… — Helena sussurrou.
— Não — ele a interrompeu. — Porque se eu continuar perto, eu perco tudo.
Ela se aproximou dele, o rosto a poucos centímetros do seu.
— E mesmo assim você não se afasta.
Rafael fechou os olhos por um instante.
— Porque toda vez que eu olho para você… — disse, a voz falha — eu esqueço de quem deveria estar protegendo quem.
O silêncio entre eles era carregado de tudo que não podia ser dito.
— Você mentiu para mim — Helena disse.
— Eu te observei — ele respondeu. — Mas nunca deixei de te ver.
Ela deu um passo para trás.
— Eu preciso ficar sozinha.
— Eu sei.
Ela saiu do carro com o coração em ruínas.
Rafael ficou ali, encarando o prédio em silêncio.
Porque o maior perigo nunca foi Helena lembrar.
Foi ele começar a desejar alguém que jamais deveria amar.