Capítulo 5 — O Que Se Quebra Não Volta ao Lugar

759 Words
Helena não voltou para casa naquela noite. Caminhou sem destino, como se o corpo estivesse em movimento apenas para fugir da mente. As ruas pareciam irreais, distantes, como se ela estivesse observando a própria vida através de um vidro embaçado. Cada passo ecoava uma pergunta. Eu fiz aquilo? Eu machuquei pessoas? Eu sou… perigosa? Quando finalmente entrou no apartamento, trancou a porta com força demais. Escorregou pela parede até sentar no chão, puxando os joelhos contra o peito. A memória não vinha inteira. Vinham fragmentos. Calor. Gritos abafados. O cheiro de fumaça que sempre voltava nos pesadelos. — Não… — ela sussurrou, pressionando as mãos contra a cabeça. — Isso não sou eu. Mas era. Ou pelo menos, tinha sido. O espelho do corredor refletia seu rosto pálido. Helena se levantou devagar e se aproximou. Observou os próprios olhos, como Rafael havia dito que ela evitava. — Quem é você? — perguntou ao reflexo. O silêncio respondeu. ⸻ Rafael passou a noite em claro. O telefone vibrava sobre a mesa, ignorado. O dossiê de Helena estava aberto, exposto como uma ferida que ele nunca conseguiu fechar de verdade. Ele tinha quebrado todas as regras. Não era apenas vigilância. Nunca foi. — Eu devia ter me afastado — murmurou, passando a mão pelo rosto. Mas então o celular vibrou de novo. Dessa vez, ele atendeu. — Cruz — uma voz masculina disse do outro lado. — Precisamos conversar. Rafael ficou tenso. — Não temos mais nada para conversar. — Temos sim — a voz respondeu, fria. — Especialmente sobre ela. O ar ficou pesado. — O arquivo está selado — Rafael disse. — Você sabe disso. — Estava — o homem respondeu. — Até alguém decidir reabrir. Rafael fechou os olhos. — Não encosta nela. — Isso não depende mais só de você. A ligação caiu. Rafael ficou imóvel por alguns segundos. Então pegou as chaves. ⸻ Helena estava sentada no escuro quando ouviu a batida na porta. Seu corpo inteiro reagiu. — Helena — a voz de Rafael soou do outro lado. — Abre. Por favor. Ela demorou. Mas abriu. Ele a encarou e sentiu o impacto. Ela parecia menor. Mais frágil. Como se tivesse perdido algo essencial. — Você não devia estar aqui — ela disse, a voz baixa. — Eu sei — ele respondeu. — Mas você também não devia ficar sozinha agora. — Você decidiu isso por mim de novo? Rafael respirou fundo. — Alguém mexeu no seu arquivo. O chão pareceu se mover sob os pés dela. — O quê? — Seu passado não está mais tão enterrado quanto eu prometi. — Prometeu? — Helena riu, sem humor. — Você prometeu muitas coisas sem me perguntar nada. — Eu sei — ele se aproximou um passo. — E eu vou pagar por isso. — O que eles querem? — ela perguntou. — Controle — Rafael respondeu. — E você é a moeda perfeita. Helena sentiu o medo subir pela garganta. — Eles acham que eu posso… perder o controle de novo? — Eles querem que isso pareça possível. Ela começou a tremer. — Eu não confio em mim mesma — sussurrou. — E isso é o que mais me assusta. Rafael a segurou pelos ombros, firme, mas cuidadoso. — Olha pra mim. Ela levantou o olhar. — Você não é o que aconteceu com você — ele disse, com intensidade. — Você sobreviveu. — E se eu machucar alguém outra vez? — Então eu estarei entre você e o mundo — ele respondeu, sem hesitar. Ela engoliu em seco. — Isso vai te destruir. — Talvez — ele disse. — Mas já destruiu no momento em que eu me apaixonei por alguém que eu devia apenas vigiar. O silêncio explodiu entre eles. — Não diz isso — Helena sussurrou. — É tarde demais. Ela se afastou um passo. — Se eles me usarem… se fizerem você escolher… — Eu já escolhi — Rafael respondeu. — E essa é a parte que ninguém pode desfazer. Helena se aproximou lentamente. Não houve toque imediato. Apenas proximidade. Respirações desencontradas. — Se ficarmos aqui — ela disse — não tem volta. Rafael apoiou a testa na dela, os olhos fechados. — Eu sei. — Isso pode acabar muito m*l. — Quase tudo que importa acaba — ele respondeu. Ela fechou os olhos. E naquele instante, sem precisar dizer mais nada, os dois cruzaram a linha invisível que ainda os separava do abismo. Não houve promessa de salvação. Apenas a certeza de que, a partir dali, qualquer queda seria juntos.
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