Capítulo 3

2015 Words
Chegou a noite. Megan estava muito nervosa, tinha feito Stacey maquiar ela umas cinco vezes, Stacey tirava os pincéis da maleta, maquiava, Megan olhava o resultado, se olhava de frente, de perfil, alguma coisa a desagradava, se achava "feia", "cafona", "brega", "apagada", "exagerada", corria no banheiro, lavava o rosto, pedia outra maquiagem para Stacey, m*l deixava a pobre terminar de maquiar, ia olhar no espelho outra vez, tirava o vestido, tornava a vestir, achava vulgar, perguntava se estava muito curto, rodopiava pelo quarto, tropeçava nos saltos altos, mordia o colar de pérolas, assustava a pobre da Marie que só queria dormir na sua caminha. Tia Rachel, sentada numa poltrona, não se cansava de admirar a "sua menina", e aquela agitação toda só parou quando ouviram John batendo na porta, avisando que miss Lily só tinha mais quinze minutos para se vestir: - Faça ela andar logo, tia Rachel, ou chegaremos atrasados! - Claro, John, ela já está indo. - Virando-se para Megan com um ar severo - o que é isso, menina, parece que nunca desfilou nas passarelas mais elegantes de Paris! - Ah, tia Rachel - Megan baixou a cabeça desanimada - desculpe, não queria deixar a senhora chateada. Mas estou tão ansiosa! E além do mais, não é a mesma coisa. Lá em Paris era só trabalho. Hoje é totalmente diferente: quero tanto causar uma boa impressão no meu noivo, quero tanto que ele me ache bonita! - Nessa altura da fala de Megan, tia Rachel e Stacey que até então ouviam a moça com atenção e um pouco de pena, caíram na gargalhada. - Mas menina! Você já é tão linda! - disse tia Rachel tentando segurar o riso. - A senhorita pode muito bem ir na festa vestida com um saco de batatas que ele ficará impressionado, miss Lily - garantiu Stacey - como fez a Marilyn Monroe. Megan olhava ambas com um ar de dúvida, e logo recomeçou o rodopio pelo quarto. O problema agora eram os cabelos: deveria ir com eles soltos ou presos? - Presos - disse tia Rachel. - Soltos - opinou Stacey. Megan já estava ficando até com dor de cabeça de tanto nervosismo. Tia Rachel ainda sorria. Mas era mesmo uma coisa pra se rir, alguém no mundo achar sua Megan uma moça feia, ainda mais aquele roqueiro cabeludo - tia Rachel compartilhava com John Roth a aversão a músicos e artistas em geral, achava que eram todos um bando de vagabundos e arruaceiros. Megan se divertia com isso. Sempre dizia: - Não é assim, tia, eles trabalham muito, precisam estudar, praticar, ensaiar, é bastante difícil ser músico. - tia Rachel fazia uma careta e respondia sem muita convicção: - um bando de bêbados vadios isso sim! Nenhum deles não merece nem lamber o chão que você pisa, minha menina, imagina ficar seu noivo. Não acho que John tenha escolhido muito bem. Tem tantos príncipes solteiros pela Europa... Aí era a vez de Megan se estourar de rir. Eu, noiva de um príncipe! Essa tia Rachel tinha cada ideia... Do outro lado da cidade Ian sentava-se na frente da escrivaninha. Passava os olhos distraído pelo ambiente. A máquina de escrever, onde ele criava suas letras que o deixaram famoso. O cinzeiro (sim, ele sabia que tinha que parar de fumar, era um vício que ele ainda não tinha conseguido deixar), o copo de uísque. Ian olhou com atenção para o copo, na intenção de tomar um gole. Mas o que era aquilo no fundo do copo? Cinzas? Não dá pra beber desse jeito. Ah, assim não tem condições. - Bob! A cabeça de Bob apontou no vão da porta: - Oi, chefe, tava me chamando? - Sim - apontou o copo - prepara um uísque pra mim. Esse aí tá com cinza de cigarro. E Bob... Traz a garrafa. Bob piscou os olhos. - Mas o senhor Collins não vai gostar. - Ian deu de ombros. - Eu quero mais é que o senhor Collins se f**a. Bob ergueu os braços. - OK chefe, não tá mais aqui quem falou não. Saiu com o copo na mão, atrás do uísque. Ian olhou em volta. Viu o pôster de corpo inteiro de Megan pregado na parede. Devia ser de uma campanha de jeans, ela era o rosto da Lancôme, a modelo de Calvin Klein e de mais uma dúzia de marcas. Dali ele não enxergava o nome da grife. Mas via a beleza da moça. Os cabelos lisos, loiros e naturais. O narizinho arrebitado, o ar de menina. Os lábios vermelhos e sensuais. Os olhos azuis, de um azul-escuro impossível - ele se lembrava da mãe vendo essa mesma cor nos olhos dos bebês dos vizinhos e dizendo:"Ah, nenhuma criança mantém os olhos nessa tonalidade. Logo ficam verdes ou castanhos." E era verdade, mas aquele azul estava ali, como a cor do mar à noite. Como duas safiras incrustadas naquele rosto branco. As pernas enormes, compridas e macias. Era fácil se perder naquelas pernas, pensou ele. Se perder naquela pele de leite, naquele corpo suave. E chamavam ela de como mesmo? A virgem de ferro. E no que dependesse dele, continuaria sendo, porque as ordens da chefia eram claras: Ian não devia chegar perto da garota. E ela? O que pensaria? Será que ela também tinha recebido essas mesmas ordens? Aliás, o que se passava mesmo naquela cabeça linda e loira? Será que ela sabia quem era ele? Ian olhou o pôster com mais atenção. A pose deveria ser sexy, mas era evidente que quem a fazia não passava essa sensação e nem se sentia sexy. Era algo ensaiado: profissional. Sim, era natural, Megan cresceu diante das câmeras. Ian se lembrava dela como a menina mais bonita da Inglaterra. Ela não tinha esse corpo perfeito e magro de hoje, nem essas pernas longas, mas era adorável. Era um anjinho, uma criança linda e meiga com um arzinho carente que despertava em todos os que a viam aquele desejo de cuidar dela, de encher de beijos, de sorvetes, de ursinhos de pelúcia... Era uma criança linda mesmo, até Ian achava isso, mesmo não se importando absolutamente com o assunto... Ela era simplesmente perfeita em sua beleza infantil. Megan foi crescendo e isso não se perdeu, apenas mudou para a beleza de uma mulher feita, por mais que ela mesma ignorasse essa transformação. Era visível. Não era mais a garotinha fofa, mas Ian olhando pra ela, entre o desejo que sentia de tê-la em seus braços e tocar em seus cabelos loiros, também queria protegê-la... Protegê-la de que? Ou de quem? Segundo John Roth, dele mesmo, Ian. Ele era a b***a asquerosa que queria tocar naquele anjo, sujar aquela pele branca com suas mãos imundas. Ian olhou pras próprias mãos. Não, não tinham nada de imundas. Eram mãos longas, bonitas e bem-feitas, queimadas de sol. Bob chegava com o uísque. Colocou a garrafa sobre a mesa, com o copo limpo. Saiu sem dizer nada, grande Bob. O melhor roadie e assistente que ele já teve. Óbvio que era muito bem pago pra ser tudo de Ian, ser o seu braço direito. E estava indo muito bem. Não bebia demais, estava sempre pronto pra trabalhar, não se deslumbrava com o mundo ao redor deles. Mesmo quando vinham outros rockstars na casa de Ian, Bob não ficava impressionado. Sacudia a cabeça de cabelos compridos e pretos e dizia: - Besteira chefe, esse povo aí, ó, sucesso subiu na cabeça. Quando eles morrerem, adivinhem, eles vão pro mesmo caixão que eu vou e vão tudo feder que nem eu - batia na barriga de cerveja e concluía com um gesto largo - tudo um saco de merda. - Parava e olhava pra Ian - por isso que eu gosto de você, chefe. Respeito. Você não é que nem esses caras. Não deixou o sucesso subir na cabeça. - e soltava um arroto fenomenal. Tommy ria disso: - Assim é que se fala moleque! - e soltava um arroto ainda mais alto, o que sempre fazia a mulher que estivesse com ele revirar os olhos e fazer cara de nojo. Tommy Starr era mesmo muito nojento quando queria, pensou Ian. Mas era divertido. Jim Collins chegou. Ian podia ouvir ele na sala: - Como vai, Bob? - E aí, chefia? - Onde é que está o Ian? - Está ali no quarto. - Ah, muito obrigado, Bob. Providencie um café bem forte - Jim parou e vendo Ian sentado com as pernas na mesa e a garrafa de uísque pela metade - providencie dois cafés BEM fortes. Ok, Bob? Muito obrigado. - entrou. Puxou uma cadeira e sentou do lado de Ian. - Então como vai indo o meu rapaz? - ficou sério - já mandou meia garrafa pra dentro? Ian olhou pra ele. - você está muito enganado, Jim. Bob acabou de trazer a garrafa aqui. Não tomei nem um golinho. Mas já que fiquei com a fama, vou deitar na cama - e bebeu o conteúdo do copo de uma vez só. O uísque era bom, 12 anos. Quando ele voltasse pra casa aquela noite ia beber todo o resto, se prometia mentalmente. - Ian. Daqui a pouco John Roth entra bem ali por aquela porta. Se ele pega você bêbado bem no dia do anúncio do noivado, você já pensou a merda que vai dar? Adeus noivado, adeus imprensa, adeus jornais. Você sempre foi um cara razoável. A banda sempre esteve na frente de tudo, não foi? Isso aqui ainda é pela banda: logo sai o disco novo. - deu uma palmada na própria perna. - mas que d***o, você não é o Tommy, não preciso nem ficar falando né? Posso confiar em você Ian? Vai dar tudo certo hoje a noite? Ian olhava Jim com um olhar sombrio e dizia para si mesmo: "Não é pela banda, seu filho de uma pistoleira, é pelo seu lucro, é pela sua porcentagem nas vendas, é pelos seus milhões, sou pior que uma prostituta, estou me vendendo para aquele cretino do John Roth, pra fingir estar noivo de uma mulher que nem me conhece, que não posso nem tocar nela, pra garantir que aquela merda daquele disco horrível venda bem nas lojas e você tenha sua parte, só isso, Jim. É apenas um bom negócio, não foi isso que você disse? E o amor, a paixão, o prazer em fazer boa música? Tudo isso foi pra debaixo do tapete, tudo é sobre dinheiro, dinheiro e mais dinheiro". Mas não tinha remédio. Ele tinha dado sua palavra. Não ia brigar por causa disso. Então limitou-se a responder apenas: - Vai dar tudo certo, Jim. Fique tranquilo. Te dei minha palavra. - Maravilha! - Bob entrava com os cafés, fortes, com pouco açúcar, do jeito que Ian gostava - aqui Ian, beba e depois coma alguma coisa que logo John estará aqui com miss Lily. Vocês deverão sair daqui juntos na limousine para a mansão de Lady Scott. E eu não preciso nem falar né? Eu e John estaremos logo atrás de vocês, portanto não faça nenhuma gracinha. - É mais fácil vocês se agarrarem dentro do carro do que nós - suspirou Ian, no que Bob riu alto. - Essa moça parece tão chata, tão esnobe, tão metida, acho que nem se eu pudesse tentar alguma coisa com ela, duvido que ela ia querer. Com certeza já deve até ter alguém. - Pode até ser - concordou Jim - mas isso não nos diz respeito. O importante hoje é estar lá na festa, se comportar direitinho, parecer muito apaixonado na frente das câmeras e logo se concentrar no disco novo. - deu uma pancadinha na perna de Ian. - logo nós arrumamos um pretexto qualquer e acabamos o noivado, aí você volta a ser o playboy de sempre. - Epa - disse Ian - prometo não tocar nela. Mas não fiz voto de castidade. - É isso aí chefe - concordou Bob. Ouviram a campainha tocar. - É John Roth - sussurrou Jim. "Então", pensou Ian, "é hora de começar o show".
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