Prólogo
Check-list de Procedimentos
•Dispensar clientes: A partir das 23h40, solicitar a saída de todos os clientes, alegando manutenção do sistema ou limpeza pesada.
•Trancamento Total (23h45): Trancar rigorosamente a porta de entrada, a lateral de serviço e a de abastecimento.
•Rondas Internas: Realizar inspeções a cada 10 minutos até a 01h00 nas instalações.
•Abertura: Destrancar as portas à 01h15 e retomar a operação normal.
Regras de Segurança Durante a "Hora Crítica" (00h00 – 01h00)
Nunca trabalhe sozinho no turno da noite.
Não investigue barulhos suspeitos.
Não saia das instalações internas sob hipótese alguma.
Não interaja ou responda a indivíduos do lado de fora durante o lockdown.
Jamais abra as portas para terceiros, independentemente da insistência ou identidade de quem está lá fora.
Obs: Caso identifique qualquer falha técnica ou imprevisto que impeça o cumprimento destas regras, dirija-se imediatamente ao banheiro dos funcionários, tranque a porta e aguarde o fim da Hora Crítica.
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Lúcia encarava o papel amassado em suas mãos, lendo as instruções sem realmente processá-las. Começou a rotina diária da troca de serviço no Posto da Lomba: conferir o caixa, checar se havia lâmpadas queimadas ou algum dano nas instalações, repor as bebidas no freezer e, por fim, ler o famigerado check-list de segurança. A ordem das tarefas não importava, desde que tudo estivesse pronto antes do anoitecer.
Ela dobrou o papel gasto pelo manuseio constante e o enfiou no bolso. Decidiu abrir o caixa logo, antes que algum cliente aparecesse. Contou as notas com agilidade, escondendo os valores mais altos sob os livros de registro. Fez o login no sistema PDV, conferiu os preços e trocou a bobina da impressora térmica. Pegou o celular para checar o horário: 18h44.
No topo da tela, uma notificação de Tiago trouxe um frio imediato ao estômago — uma ansiedade que ela tenta, sem sucesso, ignorar. “Não seja boba, Lúcia. Não é nada demais”, pensou, enquanto abria a mensagem.
"Não vou conseguir ir hoje. Minha irmã adoeceu. Se precisar de alguém para o domingo, estou disponível. Valeu."
O peso no estômago transformou-se em um enjoo real. Ela se deixou cair na cadeira giratória, frustrada e, mesmo que não quisesse admitir, assustada.
Respirou fundo três vezes: Inspira, expira. Um. Inspira, expira. Dois... Na terceira vez, seus batimentos desaceleraram.
— Recomponha-se, garota — murmurou para o silêncio da loja. — Você consegue. Não há motivo para pânico.
Sentindo a convicção retornar aos poucos, ela se levantou. Precisava manter a cabeça ocupada. Lúcia sabia que precisava do dinheiro e não podia se dar ao luxo de abandonar o turno. Mas, no fundo da mente, uma frase do check-list brilhava como um neon de aviso: "Não trabalhe sozinho no turno noturno."
Atrapalhando seus pensamentos, entra na loja o primeiro cliente da noite. Era um caminhoneiro de passagem que comprou um energético e um pacote de salgadinhos. Seu passo arrastado e semblante cansado transpareciam a exaustão de quem estava há horas dirigindo sem parar. Jogou um pouco de conversa fora com Lúcia e seguiu seu rumo. Em seguida, entrou outro cliente, que acabara de abastecer seu carro e viera pagar. Pediu para usar o banheiro, ao qual Lúcia informou, entregando a chave da porta, que ficava na parte de fora, no extremo oposto da loja de conveniências.
Tendo servido para esquecer um pouco de suas preocupações, Lúcia continuou sua rotina de conferência. Seguiu para o corredor à direita do balcão, um trajeto longo e mergulhado na penumbra. Pela décima quinta vez, anotou na prancheta que a lâmpada de serviço continuava queimada. Questionou-se por que ainda perdia tempo com aquilo, se em duas semanas o gerente não se dera ao trabalho de providenciar uma nova. No fundo do corredor, acima da porta de carga e descarga, a única iluminação vinha da luz pálida e esverdeada da placa de saída.
As outras duas portas à direita davam para o banheiro e o estoque. Ela espiou o banheiro e marcou: sem alterações. Seguiu para a segunda porta, que cedeu com um rangido baixo. Ao entrar no depósito escuro, o cheiro de bebida velha e salgadinho rançoso atingiu suas narinas com força. Franzindo o cenho, tateou a parede à esquerda em busca do interruptor. O botão estalou sob seus dedos. A luz branca, fria e trêmula, piscou duas vezes antes de se firmar, revelando um ambiente bagunçado e claustrofóbico. Lúcia detestava aquele lugar. Embora não houvesse latas abertas ou pacotes estourados, o odor parecia impregnado no concreto. E havia um terceiro cheiro, mais sutil e perturbador: algo como tomates podres esquecidos ao sol.
Apressada, conferiu a validade das bebidas e a contagem dos itens, marcando os campos no relatório apenas para sair de lá o quanto antes. Antes de retirar-se, agarrou um fardo de cervejas, mas não percebeu o plástico rasgado. Uma das garrafas deslizou e se estraçalhou no chão, espalhando vidro e um líquido amarelado.
— Droga... isso vai sair do meu bolso — resmungou. Era deprimente pensar que uma única garrafa de cerveja barata era o suficiente para abalar seu orçamento mensal. Passa por cima do vidro que estalou sob seus pés, em direção a saída.
De volta à loja, aliviada por escapar do ar estagnado do depósito, notou que o cliente que usara o banheiro deixara a chave em cima do balcão. Guardou-a e pegou a pistola de preços para começar a repor o freezer. O celular vibrou no bolso da calça jeans. Era Leandro, o gerente e sobrinho do dono.
"Como estão as coisas na loja? Soube que o Carlos não pôde ir. O Tiago aceitou cobrir?"
Leandro não era uma pessoa r**m, mas era difícil não nutrir antipatia por alguém que ganhava o triplo do seu salário para fazer a metade do que ela fazia. Lúcia hesitou, os dedos pairando sobre a tela.
"Sim, tudo certo", respondeu, genérica. "Tá", ele devolveu, com um emoji de positivo.
Mais um cliente entrou. Desta vez, o motorista de uma minivan cinza que estava estacionada em uma das bombas. No carro, aguardavam uma família de duas crianças e uma mulher, provavelmente sua esposa, que pintava as unhas com o pé apoiado no painel. O homem pediu um maço de cigarros, cobrindo a transação com o corpo para que a mulher no carro não visse. Ao notar que Lúcia percebera a manobra, olhou para ela com olhos culpados e disse: “Estou parando, sabe?”.
Após passar um pano e arrumar os expositores do balcão, ela saiu para a rua. O ar cheirando a combustível era agradável ao olfato, como um pequeno vício adquirido pelo tempo de trabalho ali. Ela caminhou em direção aos limites da área do posto e observou o fluxo de carros tingidos no laranja do crepúsculo. Puxou um maço de Marlboro Gold e acendeu um cigarro.
— Também estou parando, amigo — murmurou.
Tragou o cigarro enquanto observava dois caminhões encostarem nas bombas. Olhando para o sol que já quase se escondia nas colinas a oeste, uma visão que seria bonita em qualquer outro dia, uma vez mais um calafrio tomou conta de seu corpo. Jogou o cigarro pela metade no chão e pisou para apagar. Puxou o celular e olhou o relógio: 19h30. Ela passaria o turno sozinha. Leandro nunca aparecia à noite para fiscalizar; na verdade, m*l aparecia para fazer qualquer coisa. No entanto, em vez de alívio, a ansiedade de Lúcia aumentou. Não saberia dizer se era bom o fato de ninguém estar vindo para impedi-la.