CapĂtulo 01
Fernanda Narrando
Me chamo Fernanda, mas meus amigos me chamam de Nanda. Tenho 18 anos, pele clara, olhos castanhos e um jeito de tentar passar despercebida, como se a vida pudesse me ignorar de volta. Nasci e fui criada na Rocinha, com minha mãe, que sempre foi minha fortaleza. Meu pai⊠bem, eu não sei quem ele é. Minha mãe dizia que foi apenas uma noite, e nunca mais falou sobre ele.
Quando eu tinha uns oito anos, minha mĂŁe começou a se envolver com RogĂ©rio. No começo, ele parecia uma boa pessoa, alguĂ©m tranquilo, que tentava ajudar. Mas com o passar dos anos, ele mudou. HĂĄ uns quatro anos, começou a beber demais. Com o ĂĄlcool, vieram as drogas, o desespero, os empregos perdidos. Fazia b***s, mas todo o dinheiro ia para a cachaça e para sustentar o vĂcio. As brigas com minha mĂŁe começaram a ficar constantes, altas, feias, assustadoras.
Minha mĂŁe, uma verdadeira guerreira, sempre trabalhou duro para colocar comida na mesa e garantir que eu nunca passasse necessidade. Mesmo cansada, mesmo com medo do RogĂ©rio, ela nunca me deixou sentir falta do bĂĄsico. Ela era minha heroĂna, meu porto seguro.
Quando terminei o ensino mĂ©dio, no ano passado, arrumei um emprego no mercadinho aqui no morro. Fazia de tudo: estoque, caixa, limpeza, atendimento. Parecia que, finalmente, eu ia conseguir ajudar minha mĂŁe e ter um pouco de independĂȘncia. Mas a vida sempre tem seus golpes. Dois meses depois, veio o baque: minha mĂŁe descobriu um cĂąncer.
Ela parou de trabalhar imediatamente, e eu tentei conciliar meu emprego com os cuidados a ela. Mas tudo aconteceu råpido demais. Ela começou a piorar, a doença avançava, e eu não tive outra escolha senão pedir demissão para cuidar dela em tempo integral. A gente tinha algumas economias, não muito, mas dava para ir se virando. Eu juntava o pouco que conseguia, minha mãe confiava, e a gente tentava se proteger do mundo lå fora.
Enquanto isso, Rogério afundava cada vez mais nas drogas e na bebida. A presença dele em casa se tornou insuportåvel. A cada dia, a casa que antes era nosso lar se transformava num caos: garrafas, restos de comida, roupas espalhadas, cheiro de cachaça e fumaça de droga impregnando tudo.
Um mĂȘs e meio depois, minha mĂŁe morreu. O cĂąncer tomou todo o corpo dela, e ela nĂŁo resistiu. Meu mundo parou ali. Minha mĂŁe, minha rainha, meu abrigo seguro, minha Ășnica certeza, tinha ido embora. RogĂ©rio nem apareceu no enterro. Eu voltei para casa sozinha, perdida em um luto que parecia eterno, tentando segurar o choro, tentando respirar num ambiente que me lembrava a cada segundo que eu estava desamparada.
Dois dias depois, Rogério apareceu em casa, totalmente drogado. Foi aà que meu inferno realmente começou.
Cinco meses se passaram desde entĂŁo. Voltei a trabalhar no mercadinho, tentando manter alguma estabilidade, mas minha vida continuava um pesadelo. Trabalhar para colocar comida em casa enquanto meu padrasto roubava, vendia coisas da casa, se entregava ao vĂcio e me agredia verbalmente parecia um jogo c***l que eu nunca pedi para jogar. Eu chegava em casa e encontrava a casa destruĂda, pessoas estranhas ou conhecidas usando drogas, gritando ou rindo alto no meio do caos. Eu corria para meu quarto e sĂł saĂa quando nĂŁo havia ninguĂ©m na sala, para arrumar algo para comer ou lavar a louça, me proteger do mundo que insistia em me esmagar.
RogĂ©rio começou a me olhar diferente. NĂŁo sei se era a mistura de raiva, frustração ou algo pior, mas eu sentia medo dele, medo dos outros que ele trazia para casa. Por isso, meu quarto se tornou meu refĂșgio. Era o Ășnico lugar onde eu podia me sentir segura, nem que fosse por algumas horas.
Minha amiga Aline sempre me via no mercadinho, ou quando eu tinha folga, eu ia para a casa dela. A mãe dela, Cida, sempre me acolheu como se eu fosse uma filha. Isso era raro para mim: carinho de verdade, atenção, alguém que se importava sem esperar nada em troca. Eu e Aline nos conhecemos no sexto ano, quando ela se mudou para o morro, e desde então nunca nos separamos. Ela era minha ùncora, meu escape.
No morro, sempre fui invisĂvel. NĂŁo por falta de presença, mas por escolha. Passava pelos meninos, abaixava a cabeça, fingia nĂŁo ouvir as piadas, os comentĂĄrios maldosos, as provocaçÔes. Eu nĂŁo queria atrair atenção, porque atenção podia ser perigosa, especialmente vindo de quem controla o morro. O tal TH, o dono, e o sub, ND, nunca vi pessoalmente. NĂŁo frequento os mesmos lugares que eles: pagodes, bailes, festas⊠Minha vida era simples e silenciosa, mas segura, dentro do possĂvel.
Minha vida girava entre casa, mercadinho e a casa da Aline. Antes, minha casa era meu abrigo; agora, era meu inferno. Minha rotina era sobreviver, organizar o caos que RogĂ©rio deixava, tentar encontrar forças para continuar. E todas as noites, antes de dormir, eu chorava. Chorava pela minha mĂŁe, pelo futuro incerto, pelo medo constante. A saudade era uma dor que eu carregava como um peso fĂsico, e parecia nĂŁo ter fim.
Eu me perguntava, quase todos os dias: âQuando isso vai acabar? Quando vou conseguir viver em paz?â Mas ninguĂ©m respondia, e eu sĂł podia seguir. Um dia de cada vez, uma luta de cada vez. Eu me agarrava Ă esperança de que, mesmo no meio do caos, algo melhor pudesse existir lĂĄ fora. Algo que nĂŁo fosse dor, medo ou solidĂŁo.
E era nisso que eu me apoiava: na pequena chama de esperança que teimava em não se apagar. Nas visitas à casa da Aline, nas conversas que me faziam rir, nas lembranças de minha mãe, que me davam força para enfrentar cada dia. Mesmo quando tudo parecia perdido, eu continuava respirando, continuava tentando, porque desistir não era uma opção.
O morro me moldou. O sofrimento me moldou. A vida dura me moldou. E, mesmo assim, eu acreditava que poderia existir algo alĂ©m de RogĂ©rio, alĂ©m do caos, alĂ©m da dor. Algo que me permitisse ser apenas Fernanda, sem medo, sem lĂĄgrimas constantes, sem a sensação de que cada dia era uma batalha impossĂvel de vencer.
E eu prometi a mim mesma, em silĂȘncio, que iria lutar. Que sairia daquele inferno, que viveria minha vida de verdade, que encontraria um lugar onde pudesse ser feliz. Porque a vida que minha mĂŁe sonhou para mim nĂŁo podia terminar ali, no caos da Rocinha, no meio da violĂȘncia, da droga e do medo. Minha mĂŁe merecia que eu continuasse, e eu tambĂ©m merecia.
Eu ainda chorava quase todas as noites, mas meus passos se tornavam firmes. Cada lågrima me lembrava do motivo pelo qual eu precisava seguir em frente. Cada dificuldade, cada ameaça, cada momento de solidão era um teste, e eu me recusava a falhar.
Eu era Fernanda. E, apesar de tudo, eu ainda estava de pé.
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Bom dia!
Lançamento do livro dia 04/09...
Venha conhecer esse novo surto desse super casal que vai se formar ..
Antes do lançamento vou estar postando 1 a 2 capĂtulos por dia , comentem muito , deixem bilhetes....