capítulo 04

919 Words
Capítulo – Aline Narrando Meu nome é Aline, mas aqui no morro todo mundo me chama de Li. Tenho 19 anos, sou um pouco mais velha que a Nanda, minha melhor amiga, que conheci lá atrás, no sexto ano. Desde o primeiro dia de aula, quando ela tava sentada sozinha num canto da sala, eu sabia que a gente ia se dar bem. E não errei. De lá pra cá, a gente nunca mais se desgrudou. Minha vida não foi fácil, mas também nunca foi das piores. Minha mãe, dona Cida, sempre fez de tudo pra criar eu e meus dois irmãos. Ela é dessas mulheres fortes que não se deixa abalar, que bate de frente se precisar, mas que também tem um coração enorme. Foi ela que me ensinou a nunca virar as costas pra quem precisa de ajuda. Talvez seja por isso que a Nanda sempre se sente bem em casa. Aqui, ela não é visita, é família. Meu pai? Esse sumiu quando eu era pequena. Nem lembro do rosto dele. Minha mãe segurou tudo sozinha, trabalhando em casa de madame, lavando, passando, cuidando de filho dos outros. Muitas vezes, a gente ficava sem o que comer, mas nunca faltou amor e cuidado. Isso é o que mais admiro nela: mesmo com tudo, nunca deixou de sorrir. Eu cresci no meio da favela, com o funk tocando nas esquinas, os moleques no corre, as crianças jogando bola na laje e as mulheres cochichando da vida alheia. Sempre gostei desse barulho, desse movimento. O morro pode ser perigoso, mas também é vida, é resistência, é onde a gente aprende a se virar. Sou diferente da Nanda em algumas coisas. Enquanto ela prefere passar despercebida, abaixar a cabeça e fingir que não vê, eu já sou mais de falar, de rir alto, de olhar nos olhos. Não sou de me meter em confusão, mas também não deixo ninguém me diminuir. No morro, respeito se conquista, e eu aprendi isso cedo. Com 15 anos, já trabalhava em salão de beleza, lavando cabelo, varrendo o chão, aprendendo a fazer unha e escova. Hoje, ajudo uma amiga da minha mãe no salão dela, mas meu sonho mesmo é ter meu próprio espaço, ser dona de alguma coisa que eu construa com minhas mãos. Sempre falo isso pra Nanda: “a gente pode ser cria do morro, mas não precisa morrer no mesmo lugar.” Ela sempre me olha meio triste quando eu digo isso. Sei que a Nanda carrega uma dor que não sai nunca — a perda da mãe dela. Eu tento distrair, levo ela pro salão, pras festas de família aqui em casa, pro pagode que rola no fim de semana, mas sei que quando ela volta pra casa, tudo desmorona de novo. E isso me dói, porque eu queria poder fazer mais. Aqui no morro, eu conheço todo mundo. Desde os mais velhos que ficam na birosca jogando dominó até os moleques que seguram o corre do TH. Não que eu seja envolvida, longe disso. Mas no morro não tem como não cruzar com eles. E eu cresci ouvindo falar de TH e ND, esses dois que comandam a Rocinha com mão firme. Todo mundo respeita, todo mundo teme. Eu mesma nunca falei com nenhum dos dois, mas já vi de longe em alguns bailes. Eles têm uma presença que cala o ambiente. Minha mãe sempre fala: “Aline, cuidado com as companhias. A favela tem olhos, e quem se mistura demais acaba caindo.” Eu sei que ela tem razão, mas também sei que aqui a gente não escolhe muito. A vida nos coloca em situações que não dá pra fugir. O que eu faço é manter a postura, respeitar quem tem que ser respeitado e seguir a minha vida. Eu sou aquela amiga que fala o que a Nanda não gosta de ouvir. Quando ela abaixa demais a cabeça, eu puxo e digo: “ergue essa cara, menina. Se não mostrar firmeza, vão pisar em você.” A gente se equilibra assim: ela é mais na dela, e eu sou mais de encarar o mundo. Mas, apesar das diferenças, o que une a gente é o coração. Quando eu olho pra Nanda, eu vejo uma irmã. Vejo alguém que eu protegeria com tudo o que tenho. E talvez seja por isso que ela encontra paz na minha casa. Porque aqui ela sabe que não vai ser julgada, não vai ser desrespeitada. Aqui, ela pode respirar, pode rir um pouco, pode ser só a Nanda, sem o peso do mundo nas costas. Minha vida não é perfeita. Às vezes eu choro escondida, cansada de ver minha mãe se matando pra segurar tudo sozinha, cansada de não ter dinheiro pra nada, cansada de ver os sonhos tão distantes. Mas eu também sei que desistir não é opção. A gente luta, a gente corre atrás, a gente dá um jeito. É isso que a favela ensina: se cair, levanta; se perder, tenta de novo. E assim eu sigo, vivendo um dia de cada vez, cuidando da minha mãe, e da Nanda. A vida aqui não é fácil, mas também não é só dor. Tem amizade, tem música, tem amor. E eu sei que, de um jeito ou de outro, a gente ainda vai escrever uma história bonita, mesmo que tenha começado na favela. Porque, no fundo, eu acredito nisso: a gente pode nascer cercada de dor e violência, mas ainda assim merece sorrir, merece sonhar, merece viver de verdade. ---
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