Chego a minha casa e me encaminho para verificar
Anne. Ela dorme tranquilamente. Beijo-a na testa. Sigo
para o banheiro e tiro minhas roupas. Preciso de um
banho.
Ligo o chuveiro e m*l ele esquenta estou embaixo
dele. Ponho minhas mãos na parede e deixo a água cair
forte nas minhas costas. Ainda perdido em saber o que
me atraiu tanto naquela bela jovem. Conheço e conheci
mulheres muito bonitas, minha esposa é uma delas, mas
nunca me senti tão perdido. Como nenhuma outra
mulher me fez ficar. Mas eu não sou digno dela e mesmo
que eu fosse não devo.
Tenho complicações e cicatrizes demais, quem vêm
acompanhadas de muita obscuridade, muitos erros,
muitos arrependimentos. Qualquer pessoa que se
aproxime de mim, com certeza sai ferida. E aquela jovem
parece ter problema suficiente para si mesma. Possuir
uma cegueira é fácil se comparada à escuridão em
minha alma e as complicações que meu mundo traz.
Comigo nunca haverá luz. Não há dias de sol, ele nunca
brilhará.
Desligo o chuveiro após ensaboar-me e lavar os
cabelos. Pego uma toalha quente no toalheiro, passo
sobre meu corpo rapidamente, envolvendo-a em minha
cintura e sigo para o quarto. Confiro meu relógio e já se
passou uma hora desde que falei com Peter. Verifico o
celular, nenhuma ligação. Vou para a sala e decido me servir de uma dose de
uísque enquanto espero por notícias. Ainda posso sentir
aquele perfume. E aqueles olhos... Nunca mais os
esquecerei. Ando de um lado pro outro na grande sala e
o tempo parece não passar. Nenhuma notícia ainda.
Sirvo-me de mais uma dose.
Tomo quase que em um único gole e começo a
ficar ansioso. Quanto tempo já se passou? Nenhuma
notícia ainda. Será que ela chegou bem? Deveria ter
ficado no Bronx e aguardado notícias de Peter.
Inferno! Estaria mais perto e agora estou em casa,
longe e sem notícias!
Nunca me perdoarei se algo acontecer à ela.
Deveria tê-la levado ao meu flat. Que e******o que eu
sou! Agora estou agoniado e de mãos atadas.
Maldito Peter que não liga!
Decido ligar para ele e exigir alguma notícia.
Quando chego ao quarto para pegar o celular, ele toca.
Atendo aliviado.
— Peter! Você conseguiu o que eu te pedi? —
pergunto apressado.
— Hei cara! Calma aí! Por que essa agonia? — ele
diz zombeteiro.
— Peter, você conseguiu o que eu pedi ou não?
Não brinque comigo — falo furiosamente. Estou mais
preocupado do que achei que estivesse.
— Sim, sim. Consegui — ele responde calmamente. — Então me passe o endereço, droga! — digo
ríspido. —Um minuto, vou pegar uma caneta.
Eu pego a caneta e um pedaço de papel.
— Pronto, pode falar.
Ele me passa o endereço, eu agradeço e desligo.
Sigo para meu closet e rapidamente visto uma cueca
boxer, uma calça jeans preta, uma camiseta também
preta e um casaco cinza por cima. Desço as escadas
rapidamente e chamo Calvin pelo interfone.
— Sr. Durant. Algum problema? — ouço sua voz
sonolenta pelo interfone.
— Não, mas preciso que você me leve a um lugar
agora.
— Prontamente, senhor. Aguardo-o no carro.
Pego minha carteira e sigo para a garagem. Calvin
me aguarda do lado de fora do carro com a porta aberta.
Entro no carro calado. Ele dá a volta e senta-se à direção.
— Algum lugar em especial, senhor? — ele
pergunta dando ré no carro.
Passo o endereço que anotei no papel para ele.
— Vá o mais rápido que puder — eu digo.
Ele olha o endereço assentindo e pisa no
acelerador.
Já se passou meia hora quando Calvin finalmente
estaciona em frente a um prédio velho, com a tintura
desbotada e pedaços da mesma já caíram há muito
tempo. — Você tem certeza de que é aqui, Calvin? —
pergunto ao meu segurança e motorista.
— Sim, senhor — ele assente. — Eu cresci nessa
região, conheço o Bronx como a palma de minha mão.
Olho mais uma vez para o prédio a minha frente e
me pergunto se devo verificar ou não se a garota está
bem. Ela disse que os pais morreram, mas deve existir
alguém para cuidar dela. Tem que haver, ela não pode
morar sozinha ali.
— Inferno! — rujo completamente alheio ao Calvin
que está ao meu lado de olhos arregalados. Não
conseguirei voltar para casa sem saber ter alguma
resposta como: O que os responsáveis por ela, se é que
há algum, pensam morando em um lugar totalmente
inseguro como este? Como podem deixa-la à mercê de
todos os tipos de perigo? Conheço lugares como esse o
suficiente para saber que é o lugar ideal para
vagabundos, drogados e prostitutas.
Olho o prédio mais uma vez, vejo que o portão está
aberto, outra indicação que o lugar realmente não é
seguro. Possui quatro andares. Por um lado é bom,
porque é pequeno. Por outro lado, vou ter relativo
trabalho para encontrar seu apartamento. Terei que bater
de porta em porta, fazendo papel de i****a, para
perguntar se alguém a conhece e já passa da meia noite.
Certamente uma garota como ela não passa
despercebida.
— Calvin — ele me observa impassível. — Vou me
encontrar com uma pessoa aqui. Vá para um lugar mais
seguro e aguarde meu telefonema, não vou demorar. Ele assente e eu desço do carro. Entro no prédio e
subo para o primeiro andar. Bato na primeira porta com
certo nervosismo, não apenas pela hora, mas por não
saber o quê ou quem vou encontrar.
Devo estar ficando completamente maluco!
Sair de porta em porta atrás de uma garota é no
mínimo estupidez. Penso em desistir e então a porta se
abre. Uma loira, seminua, vestida em uma minúscula
camisola e descabelada me olha de cima abaixo com
interesse.
— Entre, são sessenta dólares — ela fala meio
grogue e segue para um sofá velho e encardido. Ela dá
uma longa tragada em seu cigarro, olha pra mim
novamente e diz. — Bem, pra você... — ela olha em
direção a minha calça e dá um sorriso cínico. — Não
cobraria nada.
— Desculpe-me pela hora, senhora — digo olhando
dentro do minúsculo apartamento, vejo que há duas
portas à esquerda e me imagino se não vai sair dali um
marido ciumento ou um c*****o. — Fico lisonjeado, mas
não vim aqui para isso.
— Eu não vendo drogas, bem, não mais.
Condicional — ela me corta e mostra os pulsos como se
houvessem ali algemas imaginárias.
— Estou procurando o apartamento de uma jovem
que mora aqui. Mais ou menos dessa altura — gesticulo
mostrando com a mão até a altura de meus ombros. —
Ruiva, de olhos azuis.
— Gosta de ruivas? — ela debocha. — As loiras o
traumatizaram? — ela caminha até mim e me puxa pela
camisa. Sinto o cheiro forte de cigarro e bebida barata. — Eu posso curá-lo... — ela ronrona e desce a mão até o cós
da minha calça.
Se não fosse o cheiro fortíssimo do cigarro e das
bebidas baratas, apenas a atitude vulgar já me causaria
repulsa. Eu gosto de mulheres, loiras, morenas, ruivas,
para mim tanto faz, mas não suporto as vulgares e
repugnantes como essa.
Ao contrário de meu irmão que sempre se envolveu
com as piores espécies de mulheres, eu sempre procurei
mais do que um corpo e sexo barato. Não que eu seja um
romântico, não isso estava fora dos limites para mim. Eu
sempre procurei mulheres com o mínimo de cérebro
além de um belo corpo e que entendessem que eu não
posso oferecer mais do que uma noite quente. Sem o dia
seguinte.
— Já disse que não estou atrás disso! — empurro-a.
— Responda minha pergunta! — falo entre dentes.
— Existem muitas garotas ruivas aqui — ela dá de
ombros.
Rio ironicamente. Com certeza, não. Não como
essa garota, a minha garota.
Minha? Inferno! A garota não é minha. Isto está
ficando realmente confuso.
— Ela é cega — disparo. — Você a conhece?
A mulher faz uma cara de surpresa, mas mascara
em um sorriso amarelo.
— São sessenta dólares pela informação— ela sorri
esticando a mão. — Mesmo que não utilize o meu tempo,
ele é precioso.