Capítulo 4.

1861 Words
Retiro uma nota de 100 dólares e entrego a ela. — Terceiro andar, apartamento 32 — ela diz guardando o dinheiro no sutiã. — Caso desista da ruiva, procure-me, ainda tem quarenta dólares de crédito. — ela sorri mostrando os dentes amarelados novamente. Saio batendo a porta. Sinceramente, estou com vontade de esganar essa mulher. Como ela pode dar informações sobre a jovem para um desconhecido? Eu poderia ser um estuprador ou assassino. Definitivamente esse não é um lugar seguro para se viver, principalmente sendo tão indefesa. Subo as escadas com rapidez e com uma fúria latejante. Encaro a porta do primeiro apartamento após as escadas, não vejo a marca do número um, mas posso ver o número três apagado na porta. O apartamento da jovem só poderia ser esse, penso andando lentamente para trás. — p***a! — digo assustado. Ouço um gemido ao tropeçar em alguém. — Você não tem juízo, moça? Duas vezes, inferno! — digo incrédulo. Encaro-a encolhida no chão e gemendo em frente ao seu apartamento. — Você? O que faz aqui? — ela pergunta com a voz ofegante. — Eu que pergunto! O que faz aqui, sozinha? Quase foi violentada há pouco! — digo bruscamente. — Assaltada! — ela me corrige. — Que seja — esfrego as mãos no rosto. — E agora está dormindo aqui fora. Não deixaram você entrar? — A chave estava na minha bolsa — ela diz contida. — Santo Deus! Iria passar a noite aqui fora? — olho para ela abismado. Claro que ela não tinha chave, sua bolsa fora roubada. Como pude ser tão e******o? Deixei- a ir sozinha de táxi, sem bolsa e obviamente, sem as chaves. Inferno! Sou um perfeito i****a! — Só até minha amiga chegar — ela aponta o apartamento atrás dela. — Moça, você é dinamite pura. Afaste-se! — peço irritado. — O que vai fazer? — ela se levanta e caminha em direção a minha voz e em vez de segurar meu braço toca em meu peito. Puxa a mão rapidamente e cambaleia para o lado com a respiração suspensa. Parece que levou um choque. — Abrir sua porta — ajudo-a se equilibrar. — Não pode arrombar minha porta — ela diz alto. — E deixá-la ainda mais vulnerável? Claro que não, vou apenas abrir a porta — digo tranquilizando-a. — Como? Com dons sobrenaturais? — ela diz ironicamente. Petulante, penso. — Dons, sim. Sobrenaturais, não —, digo e acaricio seus cabelos. — Tem um grampo ou algo parecido? — pergunto. — Não —, ela enruga a testa. Mexo em sua blusa para retirar um pequeno broche. Ela fica em silêncio por minutos longos demais para o meu gosto. Quando ela vai protestar, escuto o clique da porta. — Pronto, entre — ordeno. — Mas como...? — ela pergunta confusa. — Você só sabe mandar? — Usei seu broche — digo irritado. — Agora entre. Vejo que ela fica insegura se deve me deixar entrar ou não. Francamente! Eu a salvei. Mas afinal, eu também a segui até sua casa. Bem, não exatamente segui, mas aqui estou eu e sou um estranho. Entendo sua reticência. — Não vou machucá-la — sussurro em seu ouvido fazendo com que ela dê um salto para trás se desequilibrando. — Peguei você... Seguro-a junto ao peito novamente. Posso sentir seu rosto, seu hálito quente, seu perfume almiscarado misturado a florais. Inspiro profundamente como para me assegurar de jamais esquecer aquele cheiro. Pego uma mecha solta de seu cabelo e coloco atrás de sua orelha. Minha mão involuntariamente desliza para sua bochecha e chega aos seus lábios. Meu coração bate rapidamente, parece que corri uma maratona inteira. “Santo Deus!" O que está acontecendo comigo? Sentimento de culpa por eu tê-la deixada sozinha? Sim, é isso. Tento assegurar a mim mesmo. — Onde estão os responsáveis por você? — pergunto afastando-me dela abruptamente. — Quê? — ela toca os lábios onde os meus dedos pousaram há alguns segundos. — Você não mora sozinha, nenhum juiz permitiria isso na sua idade — digo inquisitivamente. — Minha idade? — ela repete confusa. — Quantos anos têm? Dezesseis ou máximo dezessete? — afasto-me ainda mais dela. Perigo! Grita meu cérebro. Porra! O que estou fazendo? Mais alguns segundos e vou beijá-la. Que espécie de pervertido eu sou? — Tenho vinte e três! — ela empina o queixo. Em contrapartida, o meu cai. — Sério? Parece mais jovem do que diz — digo olhando para tamanha beleza. Talvez seja sua aura inocente. Sua pureza, sua delicadeza que tenha me dado essa impressão. — De qualquer forma, sabe que não pode morar sozinha nesse... Olho em volta, ao contrário do apartamento da prostituta loira, seu pequeno apartamento é bem arrumado. Simples, mas bem arrumado. Perfumado também, essência de flores eu noto. Num canto perto da janela há um sofá usado, mas com uma capa artesanal delicada. À esquerda, há um aparelho de som antigo em cima de uma caixa coberta por uma toalha bordada. Um balcão divide o apartamento, onde há uma cozinha americana. As paredes são brancas, sem quadros. Também não existe nenhum tapete ou televisão. Uma pequena mesa de dois lugares está paralela ao pequeno sofá, com um pequeno arranjo de flores em cima. Não há mais nada no pequeno cômodo. Apesar de o apartamento ser ridicularmente simples parece haver mais vida e calor ali do que em minha enorme mansão. — O que faz aqui, senhor...? — ela diz trazendo-me de volta para o presente. — Durant, Neil Durant — estico a mão para ela, que fica parada no ar. Droga! Esqueço que ela é cega! Parece tão independente que o fato sempre me passa despercebido. — Qual seu nome? — pergunto. — Connor, Jennifer Connor, mas todos me chamam de Jenny — ela responde. — Prefiro Jennifer, faz com que você pareça mais adulta — digo sedutoramente. — Senhor, Durant! Não sei por que está aqui, mas estou realmente muito cansada. — Quem cuida de você? Onde está o irresponsável? — digo com arrogância frisando irresponsável. — Ninguém cuida... — ela para abruptamente, como se quisesse esconder de mim alguma informações. — Meu tio está trabalhando — ela diz em dúvida. — Trabalha à noite? — as palavras estalam entre os meus dentes. — Até as nove... — responde. — Então ele está bem atrasado, já passa da meia noite, aliás, é quase uma hora e quinze da manhã — digo. Ela caminha até o sofá e parece pensar no que vai dizer. — É que hoje ele fará horas extras — justifica torcendo as mãos. Mentirosa. Penso comigo mesmo. Se existe uma coisa que eu sou capaz de saber é quando alguém mente. E com ela não é diferente. Ademais, não havia indicativos no apartamento que havia outra pessoa morando ali e ela parece estar temerosa. É natural, afinal ela não me conhece. Fico satisfeito que ela haja com cautela. Esfrego o rosto e tento reordenar minha mente, já é de madrugada, estou igual a um i*****l questionando uma garota que nunca vi na vida e no lugar dela eu já teria chamado à polícia! — Obrigada por me ajudar novamente, mas acho que já pode ir embora — diz ela me expulsando. — Tudo bem — suspiro. Ela está visivelmente cansada e pálida. — Tem certeza que vai ficar bem? — Sim — ela diz baixinho. — Cuide-se e tranque a porta — digo a ela. Antes de sair penso em dar-lhe um beijo, mesmo que casto, mas me contenho. Não quero que ela tenha medo de mim e ela já passou por muitas coisas hoje. Inspiro profundamente e relutantemente me despeço e saio do apartamento. Ao sair ouço-a passar o trinco pela parte interna da porta. Não que aquilo vá realmente impedir que alguém entre, mas me sinto mais aliviado. — Que loucura! — digo baixinho, quase num murmúrio. Passo as mãos nos cabelos, pego meu celular e me dirijo às escadas. — Calvin? — Sim, Sr. Durant — ele atende prontamente. — Preciso que me faça um favor — e ordeno a ele o que preciso. Observo o prédio enquanto aguardo Calvin chegar. Eu mesmo gostaria de ficar de guarda, mas não posso. Anne me espera em casa. Ela é ciumenta e já vejo crises pela manhã. Vejo Calvin virando na esquina. Quando ele para, desce do carro e deixa a porta aberta para mim. — Apartamento 32, Calvin. — Sim, senhor. — Telefone-me se algo acontecer. Não deixe ninguém entrar — digo com firmeza. — Sim, senhor — ele assente. — Amanhã cedo pegue um táxi e vá para casa — digo e ligo o carro saindo em seguida. Dirijo o mais rápido que as leis de trânsito permitem. Minha mente diz para eu retornar a casa dela, mas meu coração diz que devo voltar pra casa. Anne me espera. Não tinha intenção de chegar a casa tão tarde. Terei que explicar amanhã cedo, ou seja, hoje, mais tarde e espero que ela não esteja acordada. Ontem foi um dia difícil, primeiro descobri que meu projeto mais importante havia sido entregue a um dos meus concorrentes. Por sorte, o projeto ainda está em fase de desenvolvimento, mas eu tenho que saber quem foi o maldito informante. Além da longa espera no café pelo jovem que não apareceu. E por fim, aquele anjo sendo atacado por um homem. E ainda estou intrigado com isso. Volto à mente para manhã daquele dia... Antes que eu pudesse reunir minha equipe recebi uma ligação de Peter. Havia muitas coisas a serem resolvidas na empresa e o dia passou vagarosamente, como ocorre, em geral, quando se está esperando por alguma coisa. Assim que o relógio marcou sete horas da noite saí apressadamente. Esperava por aquele encontro há anos. Esperei por duas horas naquele café até que me conformei de que a pessoa que iria encontrar não viria. Então decidi ligar para Peter e volto ao momento daquele telefonema. — Você tem certeza que é nesse bairro, Peter? — perguntei ao meu investigador e amigo. — Absoluta! Eu não entendo por que ele não apareceu — ele respondeu resignado. — Eu vou tentar localizá-lo. — Certo, Peter, continue investigando — encerrei a ligação frustrado. Embora eu soubesse que era apenas uma pista, nunca senti que estava tão perto. Meus instintos nunca falharam e algo me dizia que estava muito próximo. Entretanto, ele não foi. Porque não foi? Realmente não entendo. Assim que atravesso os portões digito o código de segurança, sigo para garagem e estaciono o carro. Já são mais de duas da manhã. A casa está silenciosa, passo pela sala e pego o elevador. Normalmente utilizo as escadas, mas estou realmente muito cansado esta noite. Abro a porta e entro no quarto silenciosamente. Anne ainda está dormindo tranquilamente, dou um pequeno beijo em sua testa. Fecho a porta e sigo para o outro quarto. Amanhã darei todas as explicações possíveis. Tiro o casaco e a camisa. Tiro a calça e fico apenas com a cueca boxer. Jogo-me na cama. Meus dedos ainda formigam pelo toque naqueles cabelos e lábios macios. Meu último pensamento é como deve ser beijá-los.
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