Retiro uma nota de 100 dólares e entrego a ela.
— Terceiro andar, apartamento 32 — ela diz
guardando o dinheiro no sutiã. — Caso desista da ruiva,
procure-me, ainda tem quarenta dólares de crédito. —
ela sorri mostrando os dentes amarelados novamente.
Saio batendo a porta. Sinceramente, estou com
vontade de esganar essa mulher. Como ela pode dar
informações sobre a jovem para um desconhecido? Eu
poderia ser um estuprador ou assassino. Definitivamente
esse não é um lugar seguro para se viver, principalmente
sendo tão indefesa. Subo as escadas com rapidez e com
uma fúria latejante.
Encaro a porta do primeiro apartamento após as
escadas, não vejo a marca do número um, mas posso ver
o número três apagado na porta. O apartamento da
jovem só poderia ser esse, penso andando lentamente
para trás.
— p***a! — digo assustado.
Ouço um gemido ao tropeçar em alguém.
— Você não tem juízo, moça? Duas vezes, inferno!
— digo incrédulo.
Encaro-a encolhida no chão e gemendo em frente
ao seu apartamento.
— Você? O que faz aqui? — ela pergunta com a voz
ofegante.
— Eu que pergunto! O que faz aqui, sozinha?
Quase foi violentada há pouco! — digo bruscamente.
— Assaltada! — ela me corrige. — Que seja — esfrego as mãos no rosto. — E agora
está dormindo aqui fora. Não deixaram você entrar?
— A chave estava na minha bolsa — ela diz
contida.
— Santo Deus! Iria passar a noite aqui fora? — olho
para ela abismado. Claro que ela não tinha chave, sua
bolsa fora roubada. Como pude ser tão e******o? Deixei-
a ir sozinha de táxi, sem bolsa e obviamente, sem as
chaves.
Inferno! Sou um perfeito i****a!
— Só até minha amiga chegar — ela aponta o
apartamento atrás dela.
— Moça, você é dinamite pura. Afaste-se! — peço
irritado.
— O que vai fazer? — ela se levanta e caminha em
direção a minha voz e em vez de segurar meu braço toca
em meu peito. Puxa a mão rapidamente e cambaleia
para o lado com a respiração suspensa. Parece que levou
um choque.
— Abrir sua porta — ajudo-a se equilibrar.
— Não pode arrombar minha porta — ela diz alto.
— E deixá-la ainda mais vulnerável? Claro que não,
vou apenas abrir a porta — digo tranquilizando-a.
— Como? Com dons sobrenaturais? — ela diz
ironicamente.
Petulante, penso. — Dons, sim. Sobrenaturais, não —, digo e acaricio
seus cabelos. — Tem um grampo ou algo parecido? —
pergunto.
— Não —, ela enruga a testa. Mexo em sua blusa
para retirar um pequeno broche.
Ela fica em silêncio por minutos longos demais
para o meu gosto. Quando ela vai protestar, escuto o
clique da porta.
— Pronto, entre — ordeno.
— Mas como...? — ela pergunta confusa. — Você só
sabe mandar?
— Usei seu broche — digo irritado. — Agora entre.
Vejo que ela fica insegura se deve me deixar entrar
ou não. Francamente! Eu a salvei. Mas afinal, eu também
a segui até sua casa. Bem, não exatamente segui, mas
aqui estou eu e sou um estranho. Entendo sua reticência.
— Não vou machucá-la — sussurro em seu ouvido
fazendo com que ela dê um salto para trás se
desequilibrando. — Peguei você...
Seguro-a junto ao peito novamente. Posso sentir
seu rosto, seu hálito quente, seu perfume almiscarado
misturado a florais. Inspiro profundamente como para me
assegurar de jamais esquecer aquele cheiro. Pego uma
mecha solta de seu cabelo e coloco atrás de sua orelha.
Minha mão involuntariamente desliza para sua bochecha
e chega aos seus lábios.
Meu coração bate rapidamente, parece que corri
uma maratona inteira. “Santo Deus!" O que está
acontecendo comigo? Sentimento de culpa por eu tê-la deixada sozinha? Sim, é isso. Tento assegurar a mim
mesmo.
— Onde estão os responsáveis por você? —
pergunto afastando-me dela abruptamente.
— Quê? — ela toca os lábios onde os meus dedos
pousaram há alguns segundos.
— Você não mora sozinha, nenhum juiz permitiria
isso na sua idade — digo inquisitivamente.
— Minha idade? — ela repete confusa.
— Quantos anos têm? Dezesseis ou máximo
dezessete? — afasto-me ainda mais dela. Perigo! Grita
meu cérebro.
Porra! O que estou fazendo? Mais alguns segundos
e vou beijá-la. Que espécie de pervertido eu sou?
— Tenho vinte e três! — ela empina o queixo. Em
contrapartida, o meu cai.
— Sério? Parece mais jovem do que diz — digo
olhando para tamanha beleza. Talvez seja sua aura
inocente. Sua pureza, sua delicadeza que tenha me dado
essa impressão. — De qualquer forma, sabe que não
pode morar sozinha nesse...
Olho em volta, ao contrário do apartamento da
prostituta loira, seu pequeno apartamento é bem
arrumado. Simples, mas bem arrumado. Perfumado
também, essência de flores eu noto. Num canto perto da
janela há um sofá usado, mas com uma capa artesanal
delicada. À esquerda, há um aparelho de som antigo em
cima de uma caixa coberta por uma toalha bordada. Um
balcão divide o apartamento, onde há uma cozinha americana. As paredes são brancas, sem quadros.
Também não existe nenhum tapete ou televisão. Uma
pequena mesa de dois lugares está paralela ao pequeno
sofá, com um pequeno arranjo de flores em cima. Não há
mais nada no pequeno cômodo. Apesar de o
apartamento ser ridicularmente simples parece haver
mais vida e calor ali do que em minha enorme mansão.
— O que faz aqui, senhor...? — ela diz trazendo-me
de volta para o presente.
— Durant, Neil Durant — estico a mão para ela,
que fica parada no ar.
Droga! Esqueço que ela é cega! Parece tão
independente que o fato sempre me passa despercebido.
— Qual seu nome? — pergunto.
— Connor, Jennifer Connor, mas todos me chamam
de Jenny — ela responde.
— Prefiro Jennifer, faz com que você pareça mais
adulta — digo sedutoramente.
— Senhor, Durant! Não sei por que está aqui, mas
estou realmente muito cansada.
— Quem cuida de você? Onde está o
irresponsável? — digo com arrogância frisando
irresponsável.
— Ninguém cuida... — ela para abruptamente,
como se quisesse esconder de mim alguma informações.
— Meu tio está trabalhando — ela diz em dúvida.
— Trabalha à noite? — as palavras estalam entre os
meus dentes. — Até as nove... — responde.
— Então ele está bem atrasado, já passa da meia
noite, aliás, é quase uma hora e quinze da manhã —
digo.
Ela caminha até o sofá e parece pensar no que vai
dizer.
— É que hoje ele fará horas extras — justifica
torcendo as mãos.
Mentirosa. Penso comigo mesmo. Se existe uma
coisa que eu sou capaz de saber é quando alguém
mente. E com ela não é diferente. Ademais, não havia
indicativos no apartamento que havia outra pessoa
morando ali e ela parece estar temerosa. É natural, afinal
ela não me conhece. Fico satisfeito que ela haja com
cautela.
Esfrego o rosto e tento reordenar minha mente, já
é de madrugada, estou igual a um i*****l questionando
uma garota que nunca vi na vida e no lugar dela eu já
teria chamado à polícia!
— Obrigada por me ajudar novamente, mas acho
que já pode ir embora — diz ela me expulsando.
— Tudo bem — suspiro. Ela está visivelmente
cansada e pálida. — Tem certeza que vai ficar bem?
— Sim — ela diz baixinho.
— Cuide-se e tranque a porta — digo a ela.
Antes de sair penso em dar-lhe um beijo, mesmo
que casto, mas me contenho. Não quero que ela tenha
medo de mim e ela já passou por muitas coisas hoje. Inspiro profundamente e relutantemente me despeço e
saio do apartamento.
Ao sair ouço-a passar o trinco pela parte interna da
porta. Não que aquilo vá realmente impedir que alguém
entre, mas me sinto mais aliviado.
— Que loucura! — digo baixinho, quase num
murmúrio.
Passo as mãos nos cabelos, pego meu celular e me
dirijo às escadas.
— Calvin?
— Sim, Sr. Durant — ele atende prontamente.
— Preciso que me faça um favor — e ordeno a ele o
que preciso.
Observo o prédio enquanto aguardo Calvin chegar.
Eu mesmo gostaria de ficar de guarda, mas não posso.
Anne me espera em casa. Ela é ciumenta e já vejo crises
pela manhã.
Vejo Calvin virando na esquina. Quando ele para,
desce do carro e deixa a porta aberta para mim.
— Apartamento 32, Calvin.
— Sim, senhor.
— Telefone-me se algo acontecer. Não deixe
ninguém entrar — digo com firmeza.
— Sim, senhor — ele assente.
— Amanhã cedo pegue um táxi e vá para
casa — digo e ligo o carro saindo em seguida. Dirijo o mais rápido que as leis de trânsito
permitem. Minha mente diz para eu retornar a casa dela,
mas meu coração diz que devo voltar pra casa. Anne me
espera. Não tinha intenção de chegar a casa tão tarde.
Terei que explicar amanhã cedo, ou seja, hoje, mais tarde
e espero que ela não esteja acordada.
Ontem foi um dia difícil, primeiro descobri que meu
projeto mais importante havia sido entregue a um dos
meus concorrentes. Por sorte, o projeto ainda está em
fase de desenvolvimento, mas eu tenho que saber quem
foi o maldito informante.
Além da longa espera no café pelo jovem que não
apareceu. E por fim, aquele anjo sendo atacado por um
homem. E ainda estou intrigado com isso.
Volto à mente para manhã daquele dia... Antes que
eu pudesse reunir minha equipe recebi uma ligação de
Peter. Havia muitas coisas a serem resolvidas na
empresa e o dia passou vagarosamente, como ocorre,
em geral, quando se está esperando por alguma coisa.
Assim que o relógio marcou sete horas da noite saí
apressadamente. Esperava por aquele encontro há anos.
Esperei por duas horas naquele café até que me
conformei de que a pessoa que iria encontrar não viria.
Então decidi ligar para Peter e volto ao momento daquele
telefonema.
— Você tem certeza que é nesse bairro, Peter? —
perguntei ao meu investigador e amigo.
— Absoluta! Eu não entendo por que ele não
apareceu — ele respondeu resignado. — Eu vou tentar
localizá-lo. — Certo, Peter, continue investigando — encerrei a
ligação frustrado.
Embora eu soubesse que era apenas uma pista,
nunca senti que estava tão perto. Meus instintos nunca
falharam e algo me dizia que estava muito próximo.
Entretanto, ele não foi. Porque não foi? Realmente não
entendo.
Assim que atravesso os portões digito o código de
segurança, sigo para garagem e estaciono o carro. Já são
mais de duas da manhã.
A casa está silenciosa, passo pela sala e pego o
elevador. Normalmente utilizo as escadas, mas estou
realmente muito cansado esta noite.
Abro a porta e entro no quarto silenciosamente.
Anne ainda está dormindo tranquilamente, dou um
pequeno beijo em sua testa. Fecho a porta e sigo para o
outro quarto. Amanhã darei todas as explicações
possíveis.
Tiro o casaco e a camisa. Tiro a calça e fico apenas
com a cueca boxer. Jogo-me na cama. Meus dedos ainda
formigam pelo toque naqueles cabelos e lábios macios.
Meu último pensamento é como deve ser beijá-los.