Ela parece pensar por um momento, balança a
cabeça e fica muda. Definitivamente essa história me
parece m*l contada, mas considerando o infortúnio pelo
qual ela passou essa noite, decido não insistir. Bom, pelo
menos, não agora.
— Olha, ainda acho que você deveria dar queixa.
Eu vi o homem e poderia facilmente descrevê-lo. Não
deveríamos deixá-lo nas ruas à solta. Nitidamente, ele é
um bandido e pode fazer m*l a outras pessoas inocentes.
Entretanto, essa é uma decisão sua e não vou insistir.
Mas antes de qualquer coisa, vamos telefonar para seus
pais — digo calmamente.
— Meus pais estão mortos! — ela diz como se
estivesse sentindo dor.
Em seguida, começa a chorar copiosamente como
se só agora percebesse o perigo que havia corrido. Eu a
abraço apertado, enquanto ela chora em meus braços.
Sinto um nó na garganta.
— Tudo bem — sussurro acariciando os seus
cabelos, tentando confortá-la. – Tudo bem.
Alguns minutos depois, ela vai se acalmando e seu
choro viram suspiros sentidos. Ergo lhe o rosto com o
dedo, fascinado por aqueles olhos, que banhados de
lágrimas ficam ainda mais hipnotizantes.
— Você tem certeza de que não quer mesmo dar
queixa à polícia? — digo docemente. — Aquele homem
solto é um perigo para outras mulheres inocentes como
você.
— Por favor, não... — ela suplica. Enrugo a testa. Por que ela insiste em não prestar
queixa? Deve algo às autoridades? Rio internamente do
absurdo daquele pensamento. Claro que não! O que uma
jovem frágil e indefesa como ela poderia fazer contra a
lei? Mas há algo ali. Será que aquele homem é alguém
conhecido? Um amigo ou namorado? O simples
pensamento incomoda-me muitíssimo.
— Tudo bem. Mas vou levá-la para casa então, não
posso deixá-la sozinha com esse homem à solta — digo
firmemente. — Não aceitarei recusa de sua parte.
– Não é preciso. Leve-me ao ponto de ônibus aqui
perto — ela pede.
– Não! — eu urro. — Ou me deixa levá-la até sua
casa ou iremos à delegacia. Mas não a deixarei sozinha
no ponto de ônibus — digo incisivamente.
— E eu não vou entrar no carro de um estranho! —
ela rebate esfregando as mãos.
— Façamos o seguinte... — suspiro tentando
controlar a ira que começa a me dominar. — Eu chamo
um táxi para levá-la, tudo bem? — digo em um sussurro.
Ela parece refletir por alguns instantes.
— Tudo bem, pode chamar o táxi — ela consente.
— Venha — digo guiando-a pelo ombro. — Espere
um momento. Após esperarmos um carro passar,
atravessamos a rua.
Faço sinal para um táxi que passa alguns minutos
depois e enquanto converso com o motorista, vejo-o
observá-la e fico incomodado novamente. Ela está ereta
e rígida como uma rainha e é linda, não há como negar isso. Alguns fios de cabelo caem sobre o seu rosto dando-
lhe um toque angelical. Só agora noto que o cabelo dela
é longo, caindo abaixo da cintura de forma sensual.
Nunca tive fetiche por cabelos, mas aqueles mexem e
muito com a minha libido. Posso facilmente imaginá-la
deitada nua em lençóis negros de seda e com aqueles
cabelos ruivos espalhados, chamando por meu toque.
Balanço a cabeça para afastar tal pensamento
inoportuno.
Após combinar com o motorista, retorno até ela,
que segura à bengala com tamanha força, que as juntas
de seus dedos estão brancas, desmentindo sua altivez
anterior.
— Venha — seguro sua mão gelada. — O táxi já
está aqui. Tem certeza que não quer prestar queixa ou
que eu a deixe em casa? — pergunto esperançoso.
Ela volta a ficar pálida. Há alguma coisa ali? Seria o
homem um namorado? Outra vez o pensamento me
incomoda.
— Não! — ela se apressa. — Acho que ainda não
agradeci — ela sorri tristemente. — Obrigada.
— Cuide-se! O táxi já está pago — Acaricio sua
bochecha com um toque leve como uma pluma, mas que
a faz estremecer e dar um passo para trás com a
respiração ofegante. Medo ou prazer? A pergunta
martela em minha mente. Pelo seu rosto corado acredito
que seja a segunda opção e isso me deixa fodidamente
excitado. Inferno! O que estou fazendo?
Afasto qualquer pensamento indecoroso e ajudo-a
entrar no carro. Observo-a conversar com o motorista,
possivelmente passando o endereço. Ouço alguma coisa sobre Edifício Boulevard no Bronx e então o taxista
começa a dirigir. Olho para o táxi por alguns instantes e
sigo apressadamente para meu carro, que por incrível
que pareça, ainda está intacto, estacionado no mesmo
lugar, apesar do perigoso bairro. O carro por si só indica
perigo. Nenhum delinquente ousaria mexer ou furtar um
Jaguar XF prata, uma indicação claramente que seu dono
só não é alguém que você gostaria de enfurecer.
Enquanto dirijo, penso na jovem intrigante. Nem
sequer perguntei seu nome. Penso com amargura que
deveria ter insistido mais sobre o homem. Será que ela
realmente o conhece? E se conhece que tipo de relação
teria com ele? Não muito boa, na certa, pois ele a
agrediu e a roubou. E ainda por cima seus pais estão
mortos! Com quem será que ela vive? Quem cuida dela?
Por que ela estava sozinha em um lugar como aquele? Eu
quero ter tudo e todos em volta de mim sobre controle e
todas essas incógnitas em volta dessa jovem estão me
deixando louco! Tenho que vê-la novamente, mas como?
Pelo menos ouvi vagamente sobre o edifício que ela
mora. Sim! Vou pedir ao Peter que investigue e descubra
ainda hoje seu endereço. Carregaria outra enorme culpa
dentro de mim se algo acontecesse a ela. Apesar de ter
dado dinheiro suficiente ao taxista, mas ainda assim...
Droga! Não deveria tê-la deixado ir sozinha de táxi.
Agora não ficarei tranquilo enquanto não souber se ela
está bem, em segurança, em casa. Decido ligar para
Peter imediatamente.
— Peter, sou eu, Neil — cumprimento-o meio
angustiado após ser atendido no segundo toque.
— Olá, Neil! Está tudo bem? Você me parece
apreensivo — ele pergunta preocupado. — Sim, está tudo bem. Quer dizer, bem, mais ou
menos. Acabo de ajudar uma moça que estava sendo
assaltada e deixei-a em um táxi para levá-la em casa.
Insisti para fazer isso, mas ela não quis arriscar sair com
um estranho. No entanto, agora estou preocupado por
saber se ela chegou até sua casa em segurança. Você
pode verificar isso? Ouvi-a dizer ao taxista que morava
no Edifício Boulevard, mas não ouvi o nome da rua.
Encontrei-a no Bronx, ela deve morar por perto. – digo
em um só fôlego.
— Bronx? Assalto? Neil eu estou ficando
preocupado. O que ainda está fazendo aí? — ele
pergunta ansioso.
— Eu estava esperando o maldito homem por mais
de uma hora. Peter tem certeza de que era mesmo aqui?
— Foi o que ele me disse — ele parece frustrado. —
Eu deveria ter ido com você.
— Bom, de qualquer maneira, não estou mais no
Bronx e não tenho como explicar agora. Por favor, faça o
que estou lhe pedindo e me retorne o quanto antes.
Estarei em casa aguardando notícias suas— digo
encerrando o interrogatório.
— Ok. Vou ver o que posso fazer — ele diz e eu
desligo.