CAPÍTULO 6

1368 Words
NARRAÇÃO DANIEL Quando se afasta estou em choque. - Você gosta de insetos? - Muito! - Isso é mentira! Está falando que gosta só pra me deixar mais mole e aceitar seus termos. - Se quiser posso te mostrar minha coleção. Tenho um enorme quadro para cada espécie de besouro, tenho fascinação por eles. - Tem fascinação por besouros e me deu esse apelido? Minha sobrancelha se ergue e tento não sorrir feito um i****a. Melissa revira os olhos e me empurra. - Vamos descer no próximo. Passa por mim e anda com agilidade pelo corredor, indo até uma porta para sair. Já eu tento me manter pelo menos reto na caminhada em sua direção. Quando o ônibus para, as portas abrem-se e ela desce. Sigo como se fosse um cão de guarda da sua b***a. - Agora fiquei curioso! Que tipo de besouro eu seria? Sabe que tem várias espécies. - Depende! Olho para Melissa esperando que justifique a resposta. - Quando sai com sua esposa é da espécie Rola-Bosta. Minha risada explode e não me importo se estão me olhando. Na verdade a rua toda nos observa e percebo que não é pela minha risada, mas sim por ela, que cumprimenta a todos. - Chegamos! Olho para onde aponta e vejo que é uma dessas casas de atividades públicas, abertas a pessoas carentes. - O que vamos fazer aqui? - Besourão, abra as asas duras. - Por que? - Não sabe o que é isso aqui? - Acho que sei! - Isso aqui é um dos projetos que faço parte, sendo voluntária como professora de dança. E graças a sua doação mensal bem generosa, esse local ainda existe. - Então isso aqui é um dos locais que ajudo com doação? - Sim! Olho em volta e vejo que é enorme e bem movimentado. - Uau! Digo achando incrível. - Devia trazer o pessoal de relações públicas aqui e tirar umas fotos, me promover mais. - Você não quis vir a a******a e nunca se dispôs a conhecer. Como eu havia imaginado, só faz as doações para sua empresa parecer caridosa, doação para aparências. Diz com um tom de voz irritado e vai andando a passos bravos em direção a entrada. - Estou doando, mantendo o lugar, não me julgue por me promover com isso. - Julgo sim! Para e vira-se e mais uma vez trombamos. Isso acontece muito com a gente. - A doação não é algo que se faça pensando em reconhecimento. Acho podre da parte de vocês doar com o ego. A doação vem do coração. Vira rápido e seu cabelo bate em meu rosto. - Temos visões diferentes. - Temos corações diferentes, deve ser por isso que meu r**o brilha e suas asas são duras. Sigo a raivosa e invocada Melissa até uma sala cheia de pequenas menininhas que correm sem rumo, gritando muito e rindo feito hienas. - Tia Mel! Uma delas grita e então todas correm em direção a Melissa. Recuo com medo de onde elas vão parar. Parece um ataque de formiguinhas de rosa e isso é engraçado. Todas a abraçam e falam sem parar. - Tem um homem aqui! Escuto alguém sussurrar e todas me olham como se eu fosse um intruso no formigueiro. - É seu namorado? Melissa começa a rir e me olha. - Não! Ele é o responsável por tudo isso aqui. O que acham de dar um abração nele para agradecer. - Não precisa! Digo rápido, mas minhas pernas não são tão rápidas para fugir. São agarradas pelas meninas pequenas de rosa que sorriem e agradecem. Não sei o que fazer e Melissa está sorrindo, esperando uma reação minha. Bato na cabeça de algumas que reclamam que dói. - Agora vamos para a aula! Todas se preparem para o aquecimento. Como se fosse uma ordem dada por um general, as pequenas soldados me soltam e vão para seus lugares e ficam alinhadas. Melissa vai passando o aquecimento, enquanto guarda sua mochila e coloca suas sapatilhas de ballet. Sento em um banco e apenas observo elas fazerem com perfeição o que é pedido. Nem parecem aquelas coisas sem rumo correndo. - Agora vamos ao ensaio. - Tia Mel! Uma garotinha levanta a mão. - Fala, Diana! - Lembra que disse uma vez que quando tivesse um homem forte, um amigo, ele nos ajudaria a fazer aquilo? Todas me olham e sei que algo nada agradável vai acontecer comigo. - Lembro! Pelo sorriso perverso de Melissa, vai sobrar merda pra mim. - Você tem um amigo super forte. - Daniel! - Não! - Ainda nem fiz meu pedido! - A resposta é não, vaga-lume. - Vem, besourão! Bate seus cílios e faz um biquinho. - Por favor! Eu sei que quer mostrar suas lindas asas frágeis. - Não quero! - Quer sim! Meninas me ajudem a pedir. Todas agora fazem biquinho e batem os cílios como Melissa. - Não! - Aceito conversar sobre novos termos. - Meus termos? - Nossos termos! - Não sei! - Deixo passar o dia comigo hoje, falando das suas coisas e não me irritarei. - Posso falar tudo que eu quero? - Sim! Bufo e levanto. - Tudo bem, mas não abuse muito. As coisinhas rosa pulam feito pipoca na panela. - Ótimo! Agora venha até o meio da sala, mas antes tire os sapatos. Tiro sem vontade os sapatos, chutando em um canto e vou pro meio da sala. - Fique aqui! Me arruma e pisca para as meninas. - Prontas? - Sim! Respondem gritando, fazendo uma fila de frente pra mim. - O que eu devo fazer? - Elas vão correr em sua direção, você deve erguê-las com segurança enquanto abrem os braços e depois as desce, sem causar um desastre. Olho as meninas e conto quantas são. Tem doze no total e duas são gordinhas. - Coloca aquelas duas na frente. - Por que? Viro pra Melissa para elas não nos ouvirem. - Porque são mais fofinhas e se ficarem no final, tenho medo de não ter forças para erguê-las. - Certo! Besourão é fraco. Sussurra e vai até as meninas. Coloca as bolotas na frente e me preparo. - Quando eu disser vai, vocês correm. Não tem como não rir da animação delas. - Corre, Liz! A primeira gordinha corre e quando pula, seguro-a pela cintura e ergo alto. - Eu tô voando! Eu sou uma bailarina de verdade! Assim que a desço ela me abraça e vejo que está com as bochechas coradas e os olhos brilhantes. - Obrigada! Me abraça rápido e volta para a fila. - Agora é você, Tina! A segunda bolota se prepara e quando tem o sinal de que pode correr, vem com tudo. Essa é mais fortinha e uso mais força para erguê-la, mas sua risada de felicidade é tão contagiante quanto à da primeira bolota. - Sou uma borboleta! Grita e quero rir, mas me mantenho firme. Ela está mais para uma lagartinha gorda pronta pra entrar no casulo. ********** Depois de erguer três vezes todas as meninas e não sentir mais meus braços, desço a ultima coisinha rosa. Não é o cansaço que mais me marca, mas sim o sorriso e a alegrias dessas pequenas bailarinas. Isso foi divertido e estou assustado por achar isso. - Acabou? Pergunto relaxando os ombros. - Não! Melissa responde e fica me olhando. - Falta uma! Sorri pra mim e as meninas ficam empolgadas. - Vai, tia Mel! Ela corre em minha direção e quando salta, não tenho mais força para erguê-la e caímos pra trás. Bato as costas com tudo no chão e ela quase esmaga meus órgãos em cima de mim. Nós dois estamos rindo e suas mãos deslizando em meu peito me fazem parar. Nossas respirações se misturam e sua mão vem para o meu rosto. Seus dedos tocam minha barba rala e seus olhos estão em minha boca. Meus braços envolvem seu corpo, apertando-a contra mim ainda mais. - Sabe a nossa conversa no beco aquela noite, sobre beijar? Confirmo com a cabeça. - Consegue sentir a minha vontade de te beijar? Novamente minha cabeça confirma, porque não consigo dizer nada. - E você... tem vontade de me beijar?
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD