NARRAÇÃO DANIEL
- Você estaria disposto a entregar seu plano em minhas mãos e deixar que eu guie tudo?
- Não entrego o rumo da minha vida nas mãos de outra pessoa, eu decido meus caminhos.
- Não entrego meu coração nas mãos de outra pessoa, eu escolho por quem me apaixonar e no momento, você não é uma opção! Boa noite!
Desliga na minha cara e jogo o celular na cama, voltando a encarar o teto.
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DIA SEGUINTE
Não faço idéia do que estou fazendo aqui, mas a verdade é que nada está sob o meu controle quando o assunto é Melissa. Saio do carro e me encosto na porta dele, decidindo se devo ou não bater na porta da casa de sua irmã. A porta se abre e vejo Melissa segurando uma mochila, usando uma calça de academia preta bem colada ao corpo e um top rosa claro. Seu corpo trava ao me ver e seus olhos parecem não acreditar que estou aqui na frente.
- O que...
Nem termina a pergunta e fecha a porta, provavelmente pra que sua irmã não nos escute ou me veja.
- O que faz aqui?
Pergunta em um sussurro e se aproxima, descendo os degraus da pequena varanda. A casa é bem simples, mas parece bem cuidada. Na verdade o bairro é bem simples.
- Vim conversar!
Coloca a mochila nas costas e sorri como se tivesse ganhado algum presente.
- Veio falar sobre os meus termos?
- Não! Vim falar sobre os meus, modificados.
- Então pode ir embora!
Passa por mim e vai andando pela calçada.
- Apenas escute meus novos termos!
- Não!
- Deus, como você é...
Para de andar bruscamente e trombamos. Vira-se e estamos tão perto que posso sentir sua respiração em meu rosto.
- Como sou inteligente e não me submeto aos caprichos de homens ricos querendo se divertir?
- Não é um capricho!
- Escolha outra pessoa.
- Quero você!
- Então eu sou um capricho seu.
Vira, continua andando e peço a Deus sabedoria para lidar com ela. Me pergunto porque insisto nessa criatura difícil.
- Espera!
Grito e Melissa para de andar.
- Vamos conversar!
- Meus termos?
- Sim!
Sei que está sorrindo e queria não estar assim também, mas não controlo meus lábios nesse momento, com o sorriso estranho.
- Vamos pro meu carro! Te levo para a academia e conversamos pelo caminho.
- Academia? Quem falou que vou pra academia?
Vira-se e aponto para sua roupa.
- Aonde vai assim?
- Conversamos outro dia, agora vou para algum lugar, que você não saberá.
- Por que não quer que eu saiba aonde vai?
Sorri maldosa e novamente me dá as costas.
- Posso te seguir!
- Boa sorte!
Respiro fundo e vou andando atrás dela. Cada homem que passa ao seu lado é um sorriso malicioso e um olhar comedor na b***a dela. Se quer disfarçam ou são educados. Isso começa a me irritar e ando mais rápido, tentando cobrir com meu corpo sua traseira.
- Estou sentindo você colado no meu cangote.
- Tem muito homem te olhando.
- Mais do que na boate?
- Pelo menos lá você está pra ser olhada, aqui não.
- E você acha que eles se importam com isso? Vocês homens são tão idiotas que pagando ou não, tratam um corpo bonito como um pedaço de carne.
- Achei que tivesse me dito que gostava de ser cobiçada, que olhares de desejo te davam t***o.
- O fato de ser desejada me causar t***o, não dá o direito a pessoa que me deseja de ultrapassar os limites do respeito. Me querer é diferente de me desrespeitar.
Ela está certa, mas não darei a ela mais um motivo para se sentir.
- Pelo seu silêncio imagino que concorde comigo.
Paramos de andar e estamos em um ponto de ônibus.
- Por que ir de ônibus se posso te levar?
- Por que ir com você se posso ir sozinha?
- Para de ser tão chata e vamos no meu carro.
- Não! Sempre andei de ônibus e me manterei assim. Se quiser me acompanhar, vem do meu jeito.
- Eu nem sei como anda nisso!
- Basta ter dinheiro para pagar, entrar e sentar. Se tiver lugar pra sentar.
- Você paga para ir nessa coisa em pé?
- Pago pra essa coisa me deixar perto de onde vou e dou graças a Deus se conseguir ir sentada.
- Mas e a segurança? Se tiver um acidente e não estiver sentada e com cinto...
Paro de falar ao perceber que as pessoas no ponto nos observam.
- Nosso ônibus!
Melissa avisa e ele para a nossa frente.
- Espero que tenha dinheiro trocado.
Solta e vai subindo os três degraus para entrar. Pego minha carteira e vejo meu talão de cheques, meu cartão e algumas notas altas. Assim que puxo uma o homem me olha como se eu fosse um i****a.
- Pago a dele!
Melissa entrega o dinheiro e recebe seu troco.
- Por que meu dinheiro não foi aceito?
- Porque seu dinheiro é uma raridade por aqui. É tipo comprar um pirulito com uma barra de ouro.
Passamos entre alguns bancos e o ônibus começa a andar, sem esperar a gente sentar. Meu corpo sem que eu queira cai sobre o dela, que ri.
- Segura nas barras.
Agora entendi porque tanta barra nisso aqui. Não tem um lugar se quer pra gente sentar e ficamos no meio do corredor. Olho as pessoas em volta. Dois jovens dormindo com a cara na janela. Algumas mulheres agarradas as suas bolsas. Homens olhando seus celulares e paro meus olhos nela, que está sorrindo pra mim.
- Que foi?
- Orgulhosa por se misturar a nós!
- Não se sinta, pois minha vontade é de sair correndo daqui.
- Vai por mim, muitos aqui queriam fazer isso também.
- Então por que estão aqui?
- Porque precisam. Alguns indo pra escola, outros trabalhar, indo ao médico, procurando emprego.
- Você podia estar comigo no conforto do meu carro.
- É isso que não quero, Daniel! Me deslumbrar com seu mundo e depois voltar pra minha realidade. Isso aqui sou eu, meu mundo e não vou sair dele pra viver uma ilusão, ser sua falsa amante. Entendeu porque no fim eu serei a que mais vou sofrer. Não quero ser a cinderela, estou feliz não sendo uma princesa.
Mais uma vez ela me dá uma surra de razão. Isso começa a virar rotina na nossa convivência. Talvez seja esse motivo que quero Melissa no meu plano. Ela me dá um tapa na cara de forma moral e isso é novidade pra mim. Percebo alguns homens olhando novamente sua b***a e me posiciono atrás dela.
- Isso é proibido dentro de um ônibus.
- Que se dane, me processe. Não vou deixar esses homens olhando sua b***a, Vaga-lume.
- Vaga-lume? Minha b***a brilha?
- Os vaga-lumes são insetos noturnos e usam o brilho da b***a pra atrair os parceiros. Você trabalha de noite, atraindo homens com sua b***a.
Melissa ri tão alto e todos nos olham. Eu não devia amar tanto assim os insetos e saber tanto deles. Por que fui compará-la a um vaga-lume?
- Amei meu apelido!
- Achei que seu apelido fosse Afrodite.
- Esse me deram na boate. Gosto mais do apelido dado pelo homem com obsessão por mim.
- Não é obsessão!
Reviro os olhos e ela continua me olhando.
- Parece gostar de vaga-lumes.
- Gosto de insetos! Era uma paixão minha na infância, minha mãe odiava minha coleção.
- Se você me deu um apelido, ganho o direito de te dar um também, besourão.
- Besourão?
Pergunto tentando não rir.
- Os besouros têm um par de asas duras. Elas cobrem e protegem um segundo par de asas, usadas por alguns besouros para voar. Esse segundo par de asas são frágeis e precisam dessa proteção para não quebrarem.
Melissa vira-se pra mim e tento protegê-la, pois não segura em nada. Tenho medo que se machuque em uma freada mais forte.
- Você mostra a todos as asas duras, mas eu sei que ai embaixo tem asas frágeis que podem te levar pra longe de tudo isso. Pra longe de todos que você se protege nas asas duras.
Fica na ponta dos pés e sua boca toca meu ouvido.
- Não é o único apaixonado por insetos, besourão.