PROLOGO
MINERVA
É mais um dia dentro desses matos e, para variar, hoje parece que o sol resolveu fazer uma visitinha para a Terra.
O calor é infernal. Parece que sou feita de gelo, estou derretendo. O suor desce pelas minhas pernas, molhando as coxas e dando uma sensação pegajosa que detesto. No meu apartamento em São Paulo não era assim. O ar-condicionado sempre estava no 18. Aqui, acredito que a regra é economizar energia. Conto nos dedos: faltam três malditos anos para me libertar dessa tortura.
Sim, uma tortura imposta pelo meu pai, que nunca foi presente, mas resolveu colocar no testamento que poderei usufruir da herança que deixou, quando eu tiver os meus vinte e três anos completos.
Reviro os olhos ao pensar nisso. Ando pelo corredor dessa sede. A fazenda é enorme, tem sei lá quantos alqueires de terra.
Praguejo ao passar a mão pelo meu pescoço e a palma ficar molhada pelas gotas de suor que se perdem para dentro da gola da minha blusa.
— Püta que pariu, como esse povo daqui aguenta essa fornalha? — sussurro para ninguém em especial.
Falo sozinha, com a raiva vibrando em cada célula do meu ser.
Ser submetida a isso é muita covardia, na minha opinião. Mas, para Gutembergue Farias, não.
Lembro, com amargura, do momento da leitura do testamento. A minha madrinha segurava a minha mão. O advogado responsável, um senhor com óculos fundo de garrafa, olhou para todos os presentes e disse:
— Fica determinado que a senhorita Minerva Vasques de Farias tomará posse de todos os bens ao final de três anos, quando tiver a idade estipulada pelo progenitor, acrescentando o fator de que isso só será validado caso cumpra todos os requisitos.
Olhei para a minha madrinha sem entender.
— Quais requisitos? — perguntei, com uma ruga enorme no meio da minha testa.
O advogado — senhor... senhor, não sei o nome dele — passou a ponta da língua pelos lábios ressecados e me olhou por detrás das lentes dos seus óculos.
— Viver na Fazenda Morada do Sol. A cláusula seguinte deixa especificado que, para ter acesso aos imóveis e às contas que seu progenitor lhe deixou, precisará viver esse tempo na Fazenda Morada do Sol, sob a supervisão do senhor Joaquim Silveira Velasque.
Eu quase caí da cadeira. Não podia acreditar que meu pai tinha feito aquilo comigo.
Acontece que eu não deveria esperar nada menos dele. Um homem que abandonou a namorada grávida, registrou a filha sob pura pressão e só ajudou com alguma quantia porque foram os pais dele que depositavam o dinheiro todo o mês, não é lá um ser de alma boa.
— Não acredito nisso não, Sharlene — falei, olhando para a minha madrinha.
Sharlene foi quem me criou depois que um câncer de estômago levou a minha mãe. Desde os meus dez anos, somos apenas nós duas.
Sharlene é uma mulher que carrega os seus traumas. Após ter sido abandonada na porta da igreja vestida de noiva, tomou pavor de casamento. Ela sempre se relaciona, mas, quando percebe que está ficando sério, arruma uma maneira de colocar o homem para correr.
Antes de termos pisado naquele escritório, há duas semanas, a minha madrinha tinha conversado comigo. Ela disse, com todas as letras, que eu não precisava aceitar herança nenhuma, porque trabalhava para nós duas e que eu tinha que pensar apenas na minha faculdade de enfermagem.
Na noite anterior à leitura, eu não consegui dormir pensando sobre isso. O meu coração pedia para eu deixar aquele dinheiro ser doado, ir para o governo. Mas a minha cabeça... essa estava feito uma máquina, repassando tudo o que sofri, tudo o que a minha mãe sofreu.
Se tivemos o que comer e o que vestir, foi porque ela foi à luta. A ajuda financeira, como os pais do senhor Farias falavam, era uma ninharia.
Decidi que ficaria com tudo. Direito meu. Direito da mulher que foi iludida e abandonada grávida.
No fundo, eu queria que a minha mãe, Patrícia, estivesse viva para eu poder dar a ela tudo o que lhe é de merecimento. Isso não vai ser possível.
Recordo que olhei para o advogado com o queixo no chão. Para ter acesso à herança, eu teria que mudar a minha vida, deixar a minha madrinha.
— Essa fazenda fica aonde? — perguntei, ainda sob o choque da notícia.
— Lavras Novas, Minas Gerais.
Ele disse e eu tive uma crise de tosse. Tinha respirado errado na hora de engolir a saliva, que entrou pelo buraco errado.
Foi tanto cof, cof que perdi o fôlego.
— O quê?! Vou morar num lugar que se chama Larvas? Larvas Novas, ainda por cima.
Eu tinha entendido errado o nome do lugar.
O cirurgião de bactéria riu e arrumou a postura.
— Lavras Novas. A senhorita vai gostar.
Ele se enganou.
Eu estou odiando cada segundo que respiro nesse lugar.