O ar salgado da manhã soprava suave pela janela aberta do quarto de Laura, trazendo consigo o som distante das ondas e o canto das gaivotas na praia. Ela acordou com a luz dourada do amanhecer infiltrando-se pelas cortinas, banhando o ambiente num tom quente que parecia abraçar tudo ao seu redor. A câmera repousava na mesinha ao lado da cama, como uma companheira fiel, mas naquela manhã os seus pensamentos estavam longe das lentes e mais próximos de Ângelo. O beijo da noite anterior ainda ecoava na sua mente, um instante que parecia ao mesmo tempo frágil e eterno, como uma fotografia que ela não precisava registrar para jamais esquecer.
Laura levantou-se, vestindo uma blusa leve e pegando a câmera por hábito. Desde que chegara àquela cidade costeira, fugindo da monotonia de sua vida anterior, ela encontrara nas paisagens e nas pessoas um novo propósito. Mas agora, com Ângelo, sentia algo maior a formar-se — um horizonte que ia além do que podia capturar num clique. Enquanto preparava um café na cozinha simples da sua casa alugada, decidiu que passaria o dia na praia. Queria pensar, respirar, deixar as ideias se assentarem como a areia após a maré.
Na praia, o cenário era o mesmo de sempre, mas parecia diferente. As ondas quebravam com um ritmo quase musical, e os barcos dos pescadores balançavam ao longe, prontos para mais um dia de trabalho. Laura caminhou descalça pela areia, sentindo os grãos frios sob os pés, e ajustou a câmera para capturar o reflexo do sol nas águas. Cada foto era uma tentativa de organizar os seus sentimentos, mas as imagens que saíam — o brilho da luz, as silhuetas dos marinheiros — só a faziam lembrar dele.
Enquanto ajustava o foco da câmera, uma voz familiar a tirou de seus pensamentos.
- Já a substitui-me por outro marinheiro? - Ângelo surgiu ao seu lado, o sorriso torto iluminando o rosto bronzeado. Ele carregava uma rede nas mãos, o cabelo bagunçado pelo vento, e Laura não pôde evitar rir.
- Parece-me algo difícil de substituir - respondeu ela, abaixando a câmera. - Mas confesso que estes barcos me estão quase a convencer
Ele riu também, jogando a rede sobre o ombro com um gesto casual.
- Vim te buscar. O pessoal da ilha mandou um recado — as coisas estão a avançar, mas precisam de mais mãos. Pensei que podias vir comigo hoje. E, quem sabe, tirar umas fotos para mostrar como a gente está a reconstruir tudo
Laura hesitou por um instante, mas o convite era irresistível. A ideia de passar o dia com ele, de ver aquele lado prático e generoso de Ângelo em ação, era mais tentadora do que ficar sozinha com os seus pensamentos.
- Combinado - disse ela, guardando a câmera na mochila. - Mas só se me prometeres posar pra mim de novo
- Começo a perceber que és implacável - retrucou ele, mas havia um brilho nos olhos que entregava o seu divertimento.
A travessia até a ilha vizinha foi rápida, o barco cortando as águas com uma leveza que contrastava com as memórias das tempestades que a tinham devastado meses antes. Laura sentou-se na proa, o vento chicoteando os seus cabelos enquanto observava Ângelo no leme. Ele parecia em casa ali, os movimentos precisos e confiantes, como se o mar fosse uma extensão de si mesmo. Ela levantou a câmera e tirou uma foto dele assim — o marinheiro no seu elemento, o olhar fixo no horizonte.
Quando chegaram, a ilha era um misto de caos e renascimento. Casas sem telhados ainda pontuavam a paisagem, mas novas estruturas começavam a surgir. Madeiras empilhadas ao lado de ferramentas e voluntários trabalhando em sincronia. Ângelo assumiu o comando com naturalidade, organizando os grupos e distribuindo tarefas. Laura o seguia de perto, capturando cada detalhe: o suor escorrendo pela testa de um homem enquanto serrava uma tábua, as mãos calejadas de uma mulher carregando baldes de água, o sorriso cansado mas orgulhoso de quem via o progresso tomar forma.
Em certo momento, ela o encontrou a erguer uma viga com outro voluntário, os músculos tensionados sob a camisa surrada. O clique da câmera foi quase instintivo, e ele a olhou de soslaio, balançando a cabeça.
- Não cansas mesmo - ele provocou com um sorriso no rosto
- É o meu trabalho imortalizar os heróis - respondeu ela, com um tom leve que escondia a verdade por trás das palavras.
Porque, para Laura, ele estava a tornar-se exatamente isso - não só um marinheiro, mas alguém que reconstruía mais do que casas - reconstruía esperanças, incluindo a dela.
O dia passou num ritmo intenso, o calor do sol misturado ao som de martelos e conversas. Quando o entardecer chegou, tingindo o céu de roxo e laranja, os voluntários fizeram finalmemte uma pausa. Laura e Ângelo se sentaram numa pedra à beira-mar, as pernas cansadas e as mãos sujas de terra. O silêncio entre eles era confortável, preenchido apenas pelo barulho das ondas e pelo cansaço gostoso de um dia bem aproveitado.
- Eu estava a pensar - começou Ângelo, quebrando o silêncio. Ele olhava para o mar, as mãos apoiadas nos joelhos. - Quando fiquei preso aqui na tempestade, achei que ia perder tudo. O barco, a cabeça… talvez até a vontade de continuar. Mas voltar e te encontrar mudou isso. Tu me fazes querer ficar, Laura. Até construir algo aqui na ilha quem sabe
As palavras a pegaram desprevenida, mas tocaram fundo. Ela baixou o olhar para a câmera no colo, traçando os contornos familiares do objeto que a acompanhara por tantas mudanças.
- Eu vim pra cá querendo uma nova vida - disse ela, a voz suave mas firme. - Mas não sabia o que isso significava até te conhecer. Tu fazes sentir que este lugar pode ser mais do que um ponto de passagem. Pode ser um começo.
Ele virou-se para ela, os olhos escuros refletindo as últimas luzes do dia. Por um instante, nenhum dos dois falou, como se as palavras fossem desnecessárias diante do que já sentiam. Então, com a mesma naturalidade que marcava tudo entre eles, Ângelo segurou o rosto dela com as mãos calejadas e a puxou para um beijo. Foi diferente do primeiro — mais lento, mais seguro, carregado de uma certeza que nenhum dos dois precisava nomear. Quando se afastaram, Laura riu baixinho, o som misturando-se ao barulho do mar.
- E agora? - perguntou ela, os dedos ainda entrelaçados nos dele.
- Agora a gente segue - respondeu ele, apertando a mão dela com firmeza - Reconstruindo a ilha, descobrindo o que vem pela frente… juntos