O sol já tinha desaparecido no horizonte quando Laura e Ângelo voltaram da ilha. O barco balançava suavemente sobre as águas escuras, o motor ronronando baixo enquanto cortava o mar calmo. Laura estava na proa, o vento da noite bagunçando os seus cabelos e colando a blusa leve contra a pele, ainda quente do dia na ilha. Ela segurava a câmera no colo, mas os seus olhos estavam fixos em Ângelo, que manejava o leme com uma segurança que fazia os músculos dos seus braços se destacarem sob a camisa surrada. Havia algo na maneira como ele dominava o barco, o mar, o momento, que a deixava inquieta — uma mistura de admiração e um desejo que ela não queria nomear ainda.
A travessia foi silenciosa, mas o ar entre eles parecia carregado, como se cada olhar trocado dissesse mais do que as palavras que não ousavam pronunciar. Quando atracaram no cais da cidade , as luzes das casas tremeluziam ao longe, e o cheiro salgado do mar se misturava ao calor que ainda emanava da pele deles. Ângelo amarrou as cordas com gestos rápidos, os dedos calejados trabalhando com precisão, e então se virou para ela, estendendo a mão. Os seus olhos encontraram os dela, e por um instante Laura sentiu o pulso acelerar.
- Vamos? - perguntou ele, a voz rouca, quase abafada pelo som das ondas.
Ela pegou na mão dele, sentindo o calor áspero da palma contra a sua, e desceu do barco. Os seus corpos ficaram próximos por um segundo a mais do que o necessário, e ela percebeu o quanto ele cheirava a mar e a esforço — um aroma que a envolvia como o próprio vento. Caminharam pela rua de casas coloridas em direção à casa dela, o silêncio entre eles agora pulsando com algo vivo, algo que fazia os passos de Laura parecerem mais lentos, como se quisesse prolongar o trajeto.
Ao chegarem à porta, ela girou a chave com uma hesitação que não conseguia disfarçar. Virou-se para ele, e o olhar de Ângelo a prendeu — intenso, quase faminto, refletindo a luz fraca do poste. A mochila escorregou do ombro dela para o chão, e antes que pudesse pensar no que dizer, a sua voz saiu baixa, quase um sussurro.
- Entra comigo?
Ele não respondeu com palavras. Em vez disso, deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles, e assentiu com um movimento sutil de cabeça. Laura abriu a porta, o coração batendo forte no peito, e ele a seguiu para dentro, o som dos passos dele ecoando no chão de madeira.
A casa estava quente, o ar carregado do dia que se recusava a esfriar. Laura deixou a câmera sobre a mesa da cozinha e se virou para ele, mas Ângelo já estava mais perto do que ela esperava. Ele não disse nada, apenas a observou, os olhos escuros percorrendo o rosto dela, descendo pelo pescoço, até a curva dos ombros exposta pela blusa leve. O silêncio era elétrico, e ela sentiu o corpo responder antes mesmo da sua mente decidir o que fazer.
- Hoje… - começou ele, a voz grave cortando o ar - ver-te na ilha, tão à vontade, tão viva… Não sei explicar o que fez comigo.
Ela engoliu em seco, o calor subindo pelo rosto, pelo peito, por lugares que ela tentava ignorar.
- E eu não sei explicar o que tu fazes comigo - respondeu ela, as palavras saindo mais ousadas do que pretendia. - Só sei que não consigo parar de te olhar.
O sorriso torto dele apareceu, mas desta vez havia algo mais selvagem nele, algo que fez os joelhos dela fraquejarem. Ele deu um passo à frente, as mãos calejadas encontrando a cintura dela com uma firmeza que a fez prender o fôlego. Laura inclinou o rosto para cima, os lábios entreabertos, e antes que pudesse dizer mais, ele a puxou contra si, os corpos colidindo com uma urgência que nenhum dos dois podia mais conter.
O beijo foi diferente de tudo que tinham compartilhado antes — quente, faminto, carregado de uma necessidade que vinha crescendo desde o primeiro toque. As mãos dele subiram pelas costas dela, os dedos se enroscando nos cabelos enquanto a pressionava contra a parede da cozinha. Laura arqueou o corpo contra o dele, as mãos explorando os ombros largos, o peito firme, sentindo o calor que emanava dele como uma chama que a consumia.
- Laura… - murmurou ele contra os lábios dela, a voz rouca, quase um gemido, antes de aprofundar o beijo, a língua encontrando a dela com uma intensidade que a fez estremecer.
Ela agarrou a camisa dele, puxando-o ainda mais para si, os dedos trêmulos de desejo enquanto o tecido áspero roçava a sua pele. O mundo ao redor — a casa, a cidade, o mar — desapareceu, reduzido ao calor dos corpos deles, ao som das respirações entrecortadas, ao toque que parecia incendiar cada pedaço de pele que encontrava.
Quando finalmente se afastaram, ofegantes, os olhos dele estavam escuros como o mar à noite, e Laura sabia que os seus refletiam o mesmo fogo. Ele descansou a testa contra a dela, as mãos ainda firmes na cintura dela, como se temesse soltá-la.
- Eu queria te trazer até casa há dias - confessou ele, o tom baixo e carregado de verdade. - Mas hoje… não aguentei mais.
Ela riu, um som leve que contrastava com o calor que ainda pulsava entre eles.
- Ainda bem que não aguentaste - respondeu, os dedos traçando o contorno do maxilar dele. - Porque eu também não aguentava.
Ele sorriu, aquele sorriso que a desarmava, e a puxou para outro beijo, mais lento dessa vez, mas não menos intenso. As mãos dela deslizaram para a nuca dele, os cabelos húmidos de suor entre os dedos, e Laura sentiu que aquele momento era mais do que uma faísca passageira — era o início de algo que nenhum dos dois podia mais evitar.
- Fica - sussurrou ela contra os lábios dele, as palavras saindo como um pedido e uma certeza ao mesmo tempo.
Ângelo não respondeu com palavras. Apenas a ergueu nos braços com uma facilidade que a fez rir de novo, os lábios dele encontrando os dela enquanto a carregava para o quarto, a câmera esquecida na mesa, o mundo lá fora reduzido a um eco distante. Naquela noite, não havia mais ilha para reconstruir, nem fotos para capturar — apenas eles, o calor dos corpos e a promessa de algo que estava apenas começando.