Depois de um tempo juntos em silêncio para conseguirem assimilar tudo o que sentiam, Laura e Ângelo sairam da cafeteria e começaram a caminhar pela praça central. Falaram sobre tudo o que tinha acontecido naquele último mês, nas dificuldades que cada um sentiu e em como os sentimentos de cada um foram aumentando e atormentando as noites de solidão.
Passaram tanto tempo a falar sobre a vida, que quando deram por conta já era horas de almoço e os dois estavam esfomeados. Ângelo levou-a ao restaurante preferido dele, era um restaurante à beira mar e por mais que Laura tivesse por ali passado várias vezes naquele mês, nunca tinha tido a curiosidade de entrar no mesmo.
Enquanto saboreavam os pratos escolhidos, o sol brilhava intensamente lá fora refletindo a luz suave do fim de manhã nas águas calmas que se estendiam até o horizonte. O som das ondas quebrando nas pedras da praia e o cheiro salgado do mar eram constantes, criando uma atmosfera tranquila.
- Então… - Laura começou enquanto observava ele mexer no prato de arroz com peixe, com os olhos a brilhar de curiosidade e seriedade. - O que achas de aproveitarmos e nos juntarmos para organizar as coisas para ajudar a ilha?
Ângelo ergueu os olhos, sorrindo com um leve tom de surpresa. Ele estava confortável, mas o convite para pensar em algo maior o fez perceber que, embora estivesse contente por estar ali com Laura novamente, o momento também exigia ação.
- Concordo - ele respondeu, recostando-se um pouco na cadeira. - A tempestade deixou a ilha completamente devastada, e muitos dos habitantes ainda precisam de ajuda. A ajuda oficial já deve estar a caminho da ilha, mas podemos fazer muita coisa entretanto para acelerar a recuperação. - A expressão dele era séria, mas no fundo tinha uma certa suavidade.
Laura acenou com a cabeça, interessada na direção em que o pensamento de Ângelo estava a tomar.
- Acho que há várias frentes em que podemos atuar. Primeiro, há as necessidades imediatas: alimentos, medicamentos, abrigo. Muitos dos residentes perderam tudo o que tinham. Isso precisa ser resolvido agora, de forma urgente - Laura parou para pensar durante um curto momento, organizando as palavras. - Mas a reconstrução é uma tarefa a longo prazo. A questão é: como podemos fazer a diferença, a curto e a longo prazo?
Angelo inclinou-se para frente, pensativo, e por um momento ficou em silêncio. O som das ondas parecia agora distante, como se o mundo inteiro estivesse a aguardar a sua resposta.
- Precisamos de uma abordagem prática. Não podemos esperar que os grandes planos governamentais se desenrolem rapidamente. Eles têm os seus processos, mas a população está em necessidade imediata. A minha ideia é começarmos com ações menores, mas eficazes, para ajudar diretamente as pessoas, ao mesmo tempo em que apoiamos os esforços oficiais de longo prazo. - Ele tinha tudo pensado
Laura acenou, concordando, mas uma dúvida pairava no seu olhar.
- E como fazemos isso? Não temos recursos ou infraestrutura para lidar com algo tão grande. - Ângelo sorriu, um sorriso genuíno que iluminou o rosto fechado de Laura.
- Sim, mas nós temos algo mais valioso que isso: temos a capacidade de unir as pessoas. Podemos organizar festas beneficentes, coletar doações locais, utilizar os recursos da própria ilha. Talvez possamos até usar a nossa experiência com os pequenos barcos pesqueiros para fazer entregas rápidas até à ilha. Isso já seria uma boa base para começar. - Ângelo conhecia a cidade e a população e sabia que se juntariam para ajudar no que fosse necessário.
Laura começava a admirar cada vez mais o homem à sua frente. Conhecia-o há pouco tempo, mas era como se o tempo que estivera preso na ilha, tivesse amadurecido as suas ideias e os seus valores. Algo no seu olhar a fazia acreditar que ele estava certo sobre tudo aquilo e ela estava fascinada com a determinação dele.
- Ok. Vamos dividir isto em duas partes. Primeiro, fazer uma lista das coisas mais urgentes que precisamos levar para a ilha. E segundo, começar a mobilizar as pessoas daqui, fazer um chamamento. Não vamos esperar que as autoridades nos digam o que fazer. Vamos agir agora. - Laura seguiu a determinação de Ângelo
Angelo deu um sorriso satisfeito.
- Exatamente. Podemos começar com um ponto de coleta de doações aqui. Pode ser no centro comunitário, já que tem um grande salão vazio. Colocamos cartazes em todas as lojas e restaurantes, contamos com a ajuda dos pescadores e, quem sabe, até das escolas.
- Vamos precisar pensar grande se quisermos conseguir algo em tempo recorde. A reconstrução vai demorar meses, se não anos. Mas a ajuda imediata tem que ser agora. - Laura concordou com as falas de Ângelo, sentindo que o plano estava a ganhar forma.
- Bem, a minha parte será coordenar a coleta de medicamentos e roupas. Vamos precisar de tudo o que pudermos obter. Depois, podemos ver como podemos ajudar na reconstrução das casas. Eu tenho alguns contatos com arquitetos e engenheiros civis que fiz neste ultimo mês. Eles podem ajudar-nos a elaborar um plano de recuperação para as famílias afetadas. - Ângelo sorriu para ela com gratidão.
- Perfeito. E eu ficarei responsável pelos barcos. Vou falar com alguns pescadores que têm embarcações fortes o suficiente para transportar cargas pesadas. Podemos começar a transportar o que conseguirmos arrecadar para a ilha. Isso deve ajudar a aliviar a situação enquanto a ajuda oficial não chega.
Os dois continuaram a discutir os detalhes do plano durante o almoço, com a conversa fluindo de forma natural, como se o tempo não tivesse passado entre eles. As ideias foram se conectando de maneira orgânica, e a empolgação foi crescendo conforme o plano ganhava forma.
Após o almoço, decidiram que precisavam agir o mais rápido possível. Saíram do restaurante e caminharam até o centro comunitário, onde fizeram os primeiros contatos com a liderança local para iniciar a campanha de arrecadação. Laura ficou encarregada de mobilizar a comunidade e organizar os voluntários, enquanto Ângelo entrou em contato com os pescadores e outros envolvidos na logística do transporte.
O tempo estava contra eles, mas havia uma sensação palpável de determinação no ar. A pequena cidade estava em movimento, e apesar de todos os desafios, parecia que pela primeira vez em muito tempo, havia uma união real em torno de uma causa comum.
No fim da tarde, quando o sol se começou a esconder no horizonte, Ângelo e Laura encontraram-se novamente no ponto de encontro, com a sensação de que tinham dado os primeiros passos em direção a algo muito maior do que ambos poderiam imaginar.
- Acho que conseguimos dar início a algo realmente importante - disse Ângelo, enquanto via o movimento que começava a tomar forma à sua volta.
Laura sorriu, sentindo que as palavras de Ângelo estavam cheias de verdade.
- Sim, mas isto é só o começo. Temos muito trabalho pela frente. O mais difícil será manter a motivação e garantir que a ajuda chegue a quem realmente precisa. - Ângelo assentiu às palavras de Laura com o seu olhar focado no horizonte.
— Vamos fazer isto juntos. Não importa o que aconteça, vamos seguir até o fim. - Disse ele finalmente
E assim, sob o céu limpo e as ondas suaves, os dois começaram a traçar o futuro de suas ações – um futuro de esperança e reconstrução, onde juntos, poderiam fazer a diferença para uma ilha que ainda sofria com os destroços da tempestade.