Capitulo 11

1230 Words
Semanas mais tarde O vento forte da manhã anunciava mais um dia de trabalho árduo. A cidade estava longe de se recuperar da devastação que as tempestades tinham causado na ilha vizinha, mas ao mesmo tempo, o espírito de solidariedade parecia mais forte do que nunca. Todos estavam unidos, cada um fazendo a sua parte para restaurar o que fora perdido. No entanto, para Laura e Ângelo, havia algo que transcendia o simples trabalho: o vínculo crescente entre eles, que parecia se fortalecer a cada dia. O que começou como um simples reconhecimento do esforço mútuo, logo se transformou em algo mais profundo. Antes de se envolverem na reconstrução da ilha, Laura e Ângelo tinham discutido seus sentimentos. Ambos sabiam que havia algo entre eles, algo que ia além da amizade ou da parceria de trabalho. Mas agora, no meio da recuperação da ilha e da agitação da vida cotidiana, o que havia entre eles se tornava cada vez mais evidente. A ajuda à ilha vizinha, por mais importante que fosse, estava a tornar-se o pano de fundo de uma história maior que envolvia os dois. O trabalho duro os unia de maneira inusitada, mas o que realmente os conectava era algo mais profundo, algo que não podia mais ser ignorado. Laura estava no seu posto, a olhar os planos de reconstrução, quando ouviu o som familiar da voz de Ângelo ao seu lado. - Laura, tens um momento? - perguntou ele de maneira suave, mas com um tom que ela já conhecia muito bem. Ela virou-se, dando um leve sorriso ao vê-lo. A sensação de estar perto dele agora era diferente, mais intensa, mais palpável. - Claro. O que precisas? - respondeu ela, tentando manter o foco no trabalho, mas o seu coração batia mais rápido só por estar perto dele. - Eu... preciso de uma ajuda. Estamos com alguns problemas na zona leste da ilha. O terreno está mais instável do que pensávamos, e precisamos tomar algumas medidas mais drásticas. Pensei que me podias ajudar com isso. Laura olhou para ele, pensativa. Ela sabia que a tarefa era difícil, mas também sabia que ele não pediria a sua ajuda a não ser que fosse realmente necessário. - Sim, claro. Vamos lá ver o que podemos fazer. - Ela assentiu, já se levantando para acompanhá-lo. Enquanto observavam as fotos e os vídeos que estavam a aparecer nos monitores da sala ao lado, onde o caos ainda era visível no terreno da ilha, o silêncio entre os dois era confortável, mas carregado. Mesmo após a conversa honesta que haviam tido semanas antes sobre os sentimentos que compartilhavam, havia algo diferente no ar. A simples presença do outro parecia aumentar a intensidade dos sentimentos que, até então, haviam sido apenas uma promessa. Eles já tinham falado sobre o que sentiam, mas a cada dia que passava, parecia que o que estavam a construir juntos ia além do simples entendimento mútuo. Era como se, ao ajudar a ilha, estivessem de certa forma, também ajudando a si mesmos a lidar com as emoções que agora, não podiam mais ser ignoradas. - Sabes que, antes de começar a trabalhar aqui, eu estava um pouco... apreensivo, certo? - Ângelo comentou enquanto observava as dificuldades da zona leste. - Eu tinha medo de que tudo isto fosse mudar as coisas entre nós. De que fosse ficar estranho. Laura olhou para ele, surpresa. Ela nunca imaginara que ele tivesse dúvidas. Ela mesma tinha se sentido assim, mas o receio de que o trabalho poderia interferir nos sentimentos que estavam começando a florescer entre os dois não a havia incomodado tanto quanto imaginava. - Eu também tive esse medo - disse ela, com um sorriso ligeiro - Mas, agora que estamos aqui, a trabalhar juntos, acho que tudo ficou mais claro. Eu não esperava que ... que este sentimento fosse se tornar ainda mais forte. - Eu também - ele respondeu com um brilho no olhar que fazia o coração de Laura bater mais rápido - Mas a verdade é que, mesmo antes da reconstrução, eu sabia que não poderia negar o que estava a acontecer. Quando falamos sobre isso, eu pensei que talvez fosse uma fase, ou algo que passasse com o tempo. Mas agora ... não sei como, o que estou a sentir só aumenta. Ela assentiu, tentando controlar a mistura de emoções dentro de si. A honestidade de Ângelo a tocava profundamente, e ela sentia-se grata por poder compartilhar isso com ele. Mas havia uma dúvida persistente que pairava na sua mente. -Não tens medo do que isso pode significar? Se conseguirmos terminar o trabalho e tudo voltar ao normal, o que acontece com nós os dois? E se esta conexão que temos for apenas uma reação ao que estamos a viver aqui, à intensidade deste momento? Ângelo parou por um instante, como se as palavras de Laura tivessem ecoado dentro da sua mente. Ele olhou para ela com intensidade, como se tentasse ler os seus pensamentos. Então, finalmente, falou. - Eu acho que o que estamos a viver aqui ... o que estamos a sentir ... não é algo que vai desaparecer. Não é apenas sobre o que estamos a fazer pela ilha. Isso é importante, claro. Mas o que há entre nós ... é mais do que isso. Não posso simplesmente ignorar o que sinto por ti, Laura. Ela ficou em silêncio, absorvendo as palavras dele. Ele estava certo, ela sabia disso. Mas havia uma parte dela que temia o que poderia acontecer depois que a reconstrução terminasse. O que restaria para eles quando o trabalho, a pressão e as circunstâncias que os tinham unido fossem embora? - Eu sinto o mesmo, Ângelo. Não posso negar isso. Mas ... já pensaste em como seria, depois de tudo isto? Quando a ilha estiver reconstruída e ... e nós estivermos de volta às nossas vidas? O que acontece com o que estamos a construir agora? - ele olhou para ela com os olhos intensos cheios de compreensão. - Eu não sei o que vai acontecer, Laura. Mas sei que não quero que isto acabe quando a ilha estiver restaurada. Eu quero ver o que podemos construir juntos, mesmo depois disto tudo. Não tenho todas as respostas, mas eu sei que quero tentar. Ela sentiu uma onda de emoção tomar conta dela. As palavras de Ângelo, a sinceridade dele, a confiança que ele depositava nela ... tudo isso a fazia acreditar que o que eles estavam a viver não era uma simples resposta ao caos. Era algo real, algo que eles poderiam cultivar e fazer crescer. - Eu também quero tentar - disse ela, finalmente. O olhar entre eles se manteve, agora mais intenso do que nunca. A tensão estava no ar, mas não era apenas o peso do trabalho ou das dificuldades à sua volta. Era o peso do que ambos sabiam que estava em jogo: um sentimento que os tinha unido e que agora estava mais forte do que nunca. Mesmo sem saber o que o futuro reservava, Laura e Ângelo sabiam que não podiam mais negar o que sentiam um pelo outro. E, enquanto o sol começava a se pôr no horizonte, a reconstrução da ilha seguia seu curso. Mas, para Laura e Ângelo, o verdadeiro trabalho – o trabalho de descobrir o que os seus corações desejavam – estava apenas a começar.
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