A reconstrução da ilha chegara ao fim numa manhã de céu azul cristalino, com o sol a brilhar sobre o mar como se celebrasse o renascimento daquele pedaço de terra castigado pela fúria das tempestades. Os telhados estavam alinhados, as paredes reforçadas, e as ruas de cascalho, antes inundadas de lama e destroços, voltavam a acolher os passos dos poucos moradores que tinham ficado na ilha. Ângelo regressara ao porto da cidade no seu barco, o casco a balançar suavemente contra as ondas calmas, carregado apenas com o alívio de uma missão cumprida. Ele acenara para Laura do convés, um gesto rápido mas carregado de significado, e ela respondera com um sorriso que não conseguia esconder as perguntas que lhe fervilhavam na mente. A ilha estava pronta, sim, mas algo entre eles permanecia por consertar, uma fissura que ela sentia mas não podia nomear.
Naquele dia, Laura decidiu dar um passo atrás do caos que marcara as últimas semanas. O porto, agora mais silencioso sem o vaivém das cargas e os gritos dos trabalhadores, parecia quase adormecido sob a luz do meio-dia. Ela pendurou a câmera no ombro, não com a intenção de fotografar, mas como um hábito que a ancorava à sua própria identidade. Caminhou pelas ruas da cidade, passando pelas casas coloridas que brilhavam ao sol, até chegar à casa de Ana, a senhora que a acolheu desde que chegara à cidade.
Quando não estava perdida na reconstrução da ilha ou nos pensamentos sobre Ângelo, estava com Fernanda (filha de Ana que tinha praticamente a sua idade). Fernanda tinha voltado para a cidade há semanas atrás e desde a sua chegada se tornara melhor amiga de Laura.
A varanda minúscula de Ana dava para uma praça onde as crianças corriam atrás de uma bola e os velhos jogavam cartas à sombra das árvores, as vozes roucas misturando-se ao canto das cigarras. Fernanda era o contraponto perfeito para o temperamento introspectivo de Laura: faladora, impulsiva, com um riso que parecia desafiar o próprio silêncio. Era exatamente o que Laura precisava para escapar da teia de pensamentos que a envolvia.
- Laura! Até que enfim resolves aparecer sem essa cara de quem está a tentar resolver o sentido da vida! - exclamou Fernanda ao abrir a porta, uma chávena de café fumegante na mão. O cabelo castanho estava preso num coque desleixado, e os olhos brilhavam com aquela curiosidade quase infantil que Laura conhecia tão bem. - Entra, anda. A minha mãe fez bolinhos de canela, ainda estão quentes. Vais contar-me como está o teu marinheiro ou vou ter de te arrancar as palavras com uma colher?
Laura deixou escapar um riso leve, um som que aliviou por instantes o peso que carregava no peito. Entrou na sala pequena, onde o cheiro doce da canela se misturava ao aroma do café fresco. As janelas estavam abertas, deixando a brisa salgada invadir o espaço, e ela sentou-se numa cadeira de madeira que rangeu sob o seu peso. Ana apareceu na sala e serviu o café com gestos rápidos, empurrando o prato de bolinhos para a frente dela como quem oferece um suborno. Laura começou a falar, quase sem perceber, deixando as palavras fluírem como água de uma torneira m*l fechada. Contou do fim da reconstrução, da energia incansável de Ângelo, das noites que partilharam na varanda ou no cais, mas também dos silêncios que se alargavam entre eles como sombras ao entardecer. Não era uma queixa, mas uma tentativa de pôr ordem no caos que sentia dentro de si.
- Ele diz que é só cansaço, Fernanda - terminou, segurando a chávena com as duas mãos, o calor a queimar-lhe ligeiramente as palmas. - Mas eu não acredito. Há algo mais, algo que ele não me diz. Sinto-o nos olhos dele, no jeito como se esquiva quando pergunto o que o preocupa.
Fernanda pousou a sua chávena com um leve tilintar, os olhos semicerrados como quem avalia o momento certo para largar uma revelação. Mordiscou um bolinho, deixando migalhas caírem sobre a mesa, e então inclinou-se para a frente, baixando a voz como se as paredes da casa pudessem trair o segredo.
- Laura, há uma coisa que talvez devas saber - começou, hesitante. - Não queria meter-me, mas já que estás a falar nisso... A ex do Ângelo, a Mariana, voltou para a cidade há uns dias.
O nome caiu sobre Laura como uma pedra lançada ao mar, afundando-se com um impacto silencioso mas profundo. Mariana. Ela lembrava-se vagamente de Ângelo mencioná-la em conversas passadas, pedaços soltos de uma história que ele contara sem grande entusiasmo: uma relação intensa, desfeita dois anos antes, antes de Mariana decidir deixar a cidade. Laura nunca insistira no assunto, e ele nunca se prolongara. Para ela, Mariana era um eco distante, um capítulo encerrado. Mas agora, a ideia de que esse eco voltara à vida trouxe um frio súbito que lhe percorreu a espinha, como se o vento do mar tivesse entrado pela janela e se alojado nos seus ossos.
- Voltou? — perguntou, a voz mais firme do que esperava, embora sentisse o coração acelerar. - Como assim, voltou?
Fernanda suspirou, recostando-se na cadeira com um ar de quem preferia não ser a mensageira daquela notícia.
- Apareceu do nada, Laura. Magra como um espeto, pálida, com o cabelo baço e sem vida, quase irreconhecível. Vi-a na praça anteontem, a falar com o velho Manel da taberna. Andou a perguntar por ele a toda a gente — aos pescadores, à dona Celeste da mercearia, até ao Zé do mercado. Disse que precisava de falar com o Ângelo, que era importante. Não sei o que quer, mas não parece estar bem. Parece... sei lá, assombrada.
Laura ficou em silêncio, o bolinho intocado na mão, as migalhas acumulando-se no prato à sua frente. Tentou imaginar Mariana — magra, pálida, os cabelos sem brilho, uma figura quase espectral vagueando pelas ruas da cidade. Seria por isso a mudança em Ângelo? Ele sabia que ela estava de volta? Alguém lhe contara, ou pior, ele já a encontrara? A sombra nos olhos castanhos dele, as frases curtas, o sorriso que não chegava ao olhar — tudo parecia ganhar um novo contorno, como uma fotografia que revela detalhes escondidos ao ser ampliada.
- Achas que ele sabe? - perguntou por fim, levantando os olhos para Fernanda
A amiga encolheu os ombros, hesitante.
- Não sei, Laura. Ele anda tão embrenhado na reconstrução que talvez nem tenha ouvido os mexericos. Mas se ela o encontrar... ou se já encontrou... - Fernanda deixou a frase suspensa, os olhos fixos em Laura como se esperasse uma explosão ou um colapso.
Laura levantou-se, caminhando até à janela com passos lentos. A praça lá fora estava tranquila, as crianças a rirem, os velhos a resmungarem sobre as cartas, mas a sua mente era um mar revolto. Imaginou Ângelo no porto, a descarregar caixas com os braços fortes, e depois Mariana, uma figura frágil e insistente, a procurá-lo entre os barcos. O que quereria ela? Um pedido de perdão, uma explicação, algo mais sombrio? E o que significava para ele?
As noites na varanda, os beijos sob as estrelas, os momentos em que os corpos falaram mais que as palavras — tudo isso parecia agora tremeluzir, como uma chama ameaçada por um vento inesperado.
- Tenho de falar com ele - disse, mais para si mesma do que para Fernanda, a voz baixa mas decidida. - Preciso de saber o que se passa.
Fernanda assentiu, levantando-se para pousar uma mão no ombro dela.
- Faz isso, mas vai com calma. Pode não ser nada, ou pode ser tudo. Só ele te pode dizer a verdade. Mas, Laura... - ela hesitou, apertando-lhe o ombro com suavidade. - Prepara-te. Seja o que for, não vai ser fácil.
Laura despediu-se pouco depois, agradecendo os bolinhos que m*l tocara e o café que esfriara na chávena. A câmera ainda pendurada no pescoço balançava contra o peito enquanto caminhava de volta ao porto, o sol já a descer no horizonte, tingindo o céu de tons de laranja e rosa que ela m*l registou. O barco de Ângelo estava atracado, vazio, as cordas bem amarradas ao cais, mas ele não estava à vista. Talvez tivesse ido para casa descansar, ou talvez...
Ela abanou a cabeça, afastando suposições que só a fariam afundar mais. Amanhã, decidiu. Amanhã falaria com ele, sem rodeios, sem deixar espaço para silêncios ou evasivas.
Enquanto o sol se punha, Laura ficou no cais, o vento a despentear-lhe o cabelo, a câmera pendurada como um peso que não conseguia largar. Olhou para o horizonte, onde o mar engolia a luz do dia, e sentiu um aperto no peito. A ilha estava reconstruída, mas o que havia entre eles parecia balançar como um barco à deriva. Mariana era uma sombra que ela não podia ignorar, uma peça que faltava no puzzle do comportamento de Ângelo. Fosse o mar, um segredo ou um passado que voltara para o assombrar, Laura sabia que precisava de respostas o mais rápido possível.