Capitulo 18

1232 Words
Laura acordou cedo, o sono entrecortado por sonhos de barcos à deriva e vozes abafadas pelo vento. A luz suave da manhã infiltrava-se pelas cortinas do seu pequena quarto, e ela ficou alguns minutos deitada, os olhos fixos no teto de madeira, reunindo forças. Hoje era o dia. Não podia mais adiar a conversa com Ângelo. A incerteza que a consumia desde as palavras de Fernanda precisava de um desfecho — ou de um novo começo, por mais doloroso que fosse. Levantou-se com determinação, vestiu uma camisola leve e calças confortáveis, e pegou na câmera por reflexo, embora soubesse que não a usaria. Era um amuleto, uma parte de si que a ajudava a enfrentar o mundo. Antes de sair, encarou-se no espelho pequeno da parede. As olheiras suaves marcavam os olhos castanhos, o cabelo estava desalinhado e ela passou as mãos por ele numa tentativa de ganhar melhor aspeto. Não era mais a fotógrafa segura que chegara à cidade costeira, mas também não era a mulher que fugira da cidade grande. Ângelo a transformara, e agora ela precisava saber se essa transformação resistiria ao que estava por vir. O porto estava sereno àquela hora. Pescadores preparavam redes, barcos balançavam contra os pilares de madeira, e gaivotas cortavam o ar com seus gritos. Laura caminhou até o lugar onde o barco de Ângelo costumava estar, mas o espaço vazio a fez hesitar. O seu estômago apertou-se. Talvez ele tivesse saído cedo para pescar, ou talvez… Não, ela recusou-se a deixar a mente divagar. Em vez disso, dirigiu-se à taberna do velho Manel, o ponto de encontro dos marinheiros, onde as notícias corriam tão rápido quanto o café forte. A taberna era um espaço rústico, com paredes de pedra gastas pelo sal e mesas que rangiam. O aroma de peixe frito e tabaco misturava-se às conversas roucas. Manel, de pele morena e barba grisalha, limpava o balcão com um pano velho quando Laura entrou. Ele ergueu os olhos e deu um sorriso torto. - Bom dia, menina da câmera - disse, a voz grave moldada pelo mar. - Cedo por aqui. Procuras o teu marinheiro? Laura assentiu, mantendo a voz firme. - Sim, Manel. Viste o Ângelo hoje? O barco dele não está no cais. Manel coçou a barba, pensativo. - Passou por aqui ontem à tardinha, depois de descarregar umas caixas da ilha. Parecia apressado, não ficou para o café. Disse que ia descansar, mas… - ele hesitou, baixando a voz. - A Mariana apareceu logo depois. Perguntou por ele, insistiu que precisava de o encontrar. Não sei se ele a viu, mas ela estava decidida. O nome de Mariana ecoou como um trovão silencioso. Laura sentiu o coração acelerar, mas manteve a calma. - Sabes onde ela está agora? - perguntou, quase temendo a resposta. Manel encolheu os ombros. - Ouvi dizer que tem ficado na pensão da dona Celeste, perto da praça. Se queres saber o que se passa, talvez seja melhor falar com ela antes que o Ângelo te conte meias verdades. Laura agradeceu com um aceno e saiu, o ar fresco do porto batendo-lhe no rosto. Confrontar Mariana parecia uma invasão, mas a dúvida era um veneno que se alastrava. Precisava de clareza, mesmo que doesse. Decidiu ir à pensão. Se Mariana estava lá, talvez revelasse o que a trouxera de volta e por que procurava Ângelo com tanta urgência. A pensão, uma casa azul desbotada de dois andares, ficava a poucos quarteirões. Vasos de flores adornavam as janelas. Laura bateu à porta, o som ecoando na quietude da manhã. Dona Celeste apareceu, baixa e roliça, com um avental manchado de farinha. Sorriu ao vê-la. - Laura! Vens tirar as fotos da pensão que prometeste? - perguntou, limpando as mãos. - Hoje não, dona Celeste. Vim por outro motivo. A Mariana está por aqui? - a voz saiu hesitante. O sorriso da mulher murchou. - Está, sim. No quarto do fundo, primeiro andar. Mas olha, menina, ela não está bem. m*l come, m*l fala. Fica a olhar pela janela como se esperasse algo. Queres que a chame? Laura negou com a cabeça. - Não, eu subo. Obrigada. Subiu as escadas estreitas, o coração a pulsar forte. O corredor cheirava a madeira e lavanda. Diante da porta do quarto do fundo, hesitou. O que diria? Como abordaria uma estranha que parecia deter a chave do mistério que a atormentava? Respirou fundo e bateu duas vezes. - Quem é? - a voz do outro lado era fraca, quase um sussurro. - Sou Laura. Podemos falar? Após um silêncio longo, passos arrastados soaram. A porta abriu-se, revelando Mariana. Fernanda não exagerara: ela era uma figura frágil, a pele pálida quase translúcida, os cabelos castanhos opacos caindo em mechas desleixadas. Os olhos, grandes e fundos, carregavam uma tristeza profunda, mas também uma determinação que Laura não esperava. - Tu és… a Laura dele, não és? - perguntou Mariana, a voz trêmula. Laura engoliu em seco, surpresa com a franqueza. - Sim. E tu és a Mariana. Ouvi que voltaste e queres falar com o Ângelo. Mariana desviou o olhar, abraçando-se como se sentisse frio. - Não é o que pensas. Não vim para o trazer de volta para mim. Isso acabou há muito. - ela fez uma pausa, respirando fundo. - Vim porque preciso dele… para algo maior que nós dois. - O que queres dizer? - Laura franziu a testa, o tom mais firme. Mariana caminhou até à janela, olhando a praça. - Quando saí daqui, há dois anos, estava grávida. Não contei a ninguém, nem a ele. Tive uma filha, a Clara. Ela tem quase dois anos agora. - a voz falhou, e ela levou a mão ao peito, como se doesse falar. - Mas eu… eu estou a morr*r. Os médicos deram-me meses, talvez menos. Um tumor que não podem operar. Voltei porque não posso cuidar dela sozinha, e o Ângelo… ele é o pai. Preciso que ele a acolha, que lhe dê o que eu não vou poder dar. Laura ficou em silêncio, o peso das palavras de Mariana esmagando-a como uma onda. Uma filha. Ângelo tinha uma filha que não conhecia, e Mariana, à beira do fim, procurava garantir o futuro dela. A compaixão misturou-se ao choque, e um medo frio tomou conta dela. O que isso significava para Ângelo? Para eles? - Ele sabe? - perguntou, a voz quase um sussurro. - Não. Tentei falar com ele, mas disse estar ocupado com a ilha. m*l olhou para mim, e só por isso tenho medo do que vai sentir por mim por ter escondido isto. - Mariana virou-se, os olhos marejados. - Não quero estragar o que vocês têm, Laura. Só quero que a Clara fique bem. Ela está com uma amiga minha na cidade grande, mas não posso deixá-la lá para sempre. Laura assentiu lentamente, a mente em turbilhão. - Vou encontrá-lo. Ele precisa de saber, mas eu… também preciso de falar com ele. Obrigada por me contares. Despediu-se com um aceno e desceu as escadas, o coração apertado. No porto, o barco de Ângelo ainda não estava, mas ela sabia que ele voltaria. Sentou-se num banco de madeira, a câmera no colo, e esperou, o mar refletindo um céu demasiado calmo para a tempestade que crescia dentro de si. Quando Ângelo chegasse, haveria verdades a enfrentar — uma filha, uma doença e um futuro incerto.
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