Capitulo 19

1353 Words
Laura permaneceu sentada no banco de madeira durante algum tempo, a câmera inerte no colo, um peso que parecia refletir o tumulto dentro dela. O som das gaivotas e o burburinho distante dos pescadores enchiam o ar, mas ela m*l os ouvia. A sua mente girava em torno da conversa com Mariana: uma filha, uma doença terminal, um apelo que mudava tudo. Clara. O nome ressoava como um eco insistente, um segredo que Ângelo desconhecia, mas que agora ameaçava reescrever a história que Laura pensava conhecer. Os minutos arrastavam-se, cada um carregado de expectativa. Ela fixava o horizonte, esperando o barco de Ângelo surgir entre as ondas. A incerteza era um nó apertado no peito — como ele reagiria? Ficaria furioso com Mariana por esconder a filha? Ou devastado ao saber que ela estava a morrer? E ela, Laura, onde se encaixava nisso? A conexão que construíra com Ângelo, tecida em noites quentes e silêncios cúmplices, parecia agora vulnerável, como uma fotografia desbotada pelo tempo. Finalmente, o contorno familiar do barco de Ângelo apareceu, cortando a água com uma determinação silenciosa. O coração de Laura acelerou, mas ela permaneceu imóvel, as mãos agarrando a câmera enquanto ele atracava. Ele saltou para o cais, as botas ecoando na madeira, o corpo curvado pelo cansaço. Ao vê-la, acenou com um sorriso breve, mas os olhos castanhos estavam opacos, sem o brilho habitual. - Laura - chamou, aproximando-se com passos pesados. - Estás aqui cedo. Algo errado? Ela levantou-se, o peso da verdade pressionando-lhe o peito. - Precisamos de falar, Ângelo. Agora. Ele franziu a testa, captando a seriedade na voz dela. - Claro. Vamos para minha casa? É mais tranquilo lá. Laura assentiu, e caminharam em silêncio pelas ruas da cidade. A casa de Ângelo era simples, paredes brancas e uma varanda pequena virada para o mar. Entraram, e ele indicou uma cadeira na sala modesta, com uma mesa de madeira e um sofá desgastado. O cheiro de sal e madeira misturava-se ao aroma de café enquanto ele preparava a cafeteira. - Então, o que é? - perguntou, de costas, enchendo a máquina. - Pareces preocupada. Laura respirou fundo, as palavras lutando para escapar. - Falei com a Mariana hoje. O movimento de Ângelo congelou por um instante, os ombros tensos. Ele virou-se lentamente, os olhos semicerrados. - Mariana? Ela está aqui? - havia surpresa na voz, mas também uma cautela que Laura não esperava. - Sim. Voltou há uns dias. Está na pensão da dona Celeste. - ela hesitou, medindo as palavras. - Mas tu já sabias que ela estava na cidade, não sabias? Ângelo desviou o olhar, as mãos apertando a borda do balcão. - Ela apareceu no porto há uma semana, logo que voltou. Tentou falar comigo, mas eu… eu disse que estava ocupado com a ilha. m*l olhei para ela, Laura. Não queria abrir essa porta outra vez. A confissão caiu como uma pedra entre eles. Laura sentiu um misto de alívio e frustração. Ele sabia da presença de Mariana, mas escolhera ignorá-la. - Porque não me contaste? - perguntou, a voz firme apesar do tremor interno. - Porque não queria mexer no passado. Ela foi embora há dois anos, acabou tudo. Achei que era só mais um dos dramas dela. - ele suspirou, passando a mão pelo cabelo. - Mas agora vejo que estás a dizer que é mais que isso. O que ela te contou? Laura engoliu em seco, sabendo que não havia como suavizar o golpe. - Ela tem uma filha, Ângelo. A tua filha. Chama-se Clara, tem quase dois anos. O rosto dele empalideceu, os olhos arregalando-se em descrença. Ele cambaleou até à cadeira mais próxima e desabou, as mãos tremendo enquanto as passava pelo rosto. - Uma filha? Eu… eu tenho uma filha? - a voz saiu rouca, quase inaudível. - Como… porquê ela não me disse antes? - Ela estava grávida quando te deixou. Não contou a ninguém, criou a Clara sozinha. Mas agora… ela está doente. Muito doente. Um tumor inoperável, meses de vida, talvez menos. - Laura fez uma pausa, vendo a dor atravessar o rosto dele. - Ela voltou porque quando partir não tem ninguém para cuidar da Clara e quer que tu fiques com ela. O silêncio que se seguiu foi sufocante. Ângelo ficou paralisado, os olhos fixos na mesa, como se tentasse agarrar-se a algo sólido. Laura quase podia ouvir o caos na mente dele, os pedaços de uma vida que ele não sabia que tinha desmoronando à sua volta. Quando falou, a voz estava carregada de emoção crua. - Doente? Ela vai morrer? E eu nem sabia que tinha uma filha… - ele levantou os olhos para Laura, a raiva misturando-se à angústia. - Ela apareceu no porto, tentou falar comigo, e eu… eu mandei-a embora. Disse que não tinha tempo. Como é que eu faço isto agora? Como é que eu olho para ela depois disto? - Não sei — admitiu Laura, a voz suave mas firme. - Fiquei tão perdida quanto tu quando ela me contou. Mas a Mariana está desesperada. Não quer estragar nada, só quer que a Clara tenha um futuro. Ângelo levantou-se de repente, caminhando até à janela. Olhou o mar, as mãos cerradas em punhos. - E o que faço? Entro na vida de uma criança que nem me conhece? E a Mariana… como é que eu falo com ela depois de a ter ignorado? - ele virou-se, os olhos brilhando com lágrimas contidas. - E tu, Laura? Onde ficas nisto tudo? A pergunta cortou-a como uma lâmina. Ela abriu a boca, mas as palavras falharam. Onde ficava ela? Durante meses, partilhara com Ângelo algo que parecia eterno, mas agora o chão sob os seus pés tremia. Sentiu os olhos arderem, mas respondeu. - Não sei, Ângelo. Quero estar contigo, mas isto é maior que nós. Tens uma filha. A Mariana precisa de ti, mesmo que seja só para resolver isto. Não posso fingir que não muda nada. Ele atravessou a sala em dois passos e segurou-lhe as mãos, o toque quente e urgente. - Laura, tu és importante para mim. O que temos… não quero perder. Mas eu… eu preciso de tempo. Preciso de falar com a Mariana, de entender isto. Ela assentiu, os olhos marejados. - Eu sei. E eu estarei aqui. Mas tens de decidir o que fazer, por ti e pela Clara. Ângelo soltou as mãos dela e esfregou o rosto, respirando fundo. - Vou à pensão. Tenho de a enfrentar agora. Vens comigo? Laura hesitou. Queria deixá-lo resolver aquilo sozinho, mas sabia que precisava de ver o desfecho com os próprios olhos. - Sim, eu vou. Caminharam em silêncio até à pensão, o ar entre eles pesado. Dona Celeste apontou o quarto de Mariana sem perguntas, os olhos curiosos seguindo-os. Ângelo bateu à porta, a respiração irregular. Mariana abriu, o choque estampado no rosto pálido ao vê-lo. Estava ainda mais frágil, os olhos fundos destacando-se na pele translúcida. - Ângelo… - sussurrou, a voz falhando. - Laura contou-me tudo - disse ele, o tom cortante. - A Clara. A tua doença. Tentaste falar comigo no porto, e eu… eu não te ouvi. Porquê escondeste isto de mim? Ela recuou, apoiando-se na parede. - Tive medo. Quando descobri que estava grávida, já tínhamos acabado. Não queria que voltasses por obrigação. Criei a Clara sozinha, mas agora… não posso mais. - lágrimas escorreram-lhe pelo rosto. - Ela é linda, Ângelo. Tem os teus olhos. Está com uma amiga na cidade grande, mas quero que a conheças. Que fiques com ela. Ângelo ficou em silêncio, o peito subindo e descendo rápido. Laura observava, sentindo-se uma intrusa. Por fim, ele falou, a voz mais calma. - Quero vê-la. E tu… tens de me contar tudo sobre ela. Mas isto… vai levar tempo. Mariana assentiu, aliviada e exausta. Laura recuou, deixando-os sozinhos. Voltou ao porto, sentou-se no banco e olhou o mar, o sol alto no céu. O futuro era incerto, mas uma coisa era clara: a vida deles mudara para sempre. E ela teria de encontrar o seu lugar nesse novo horizonte.
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