Capitulo 20

1272 Words
O ar salgado enchia-lhe os pulmões, e ela deixou que o som das ondas e o grito das gaivotas a envolvessem, tentando ancorar-se no presente enquanto a sua mente girava com o que acabara de presenciar. A tensão entre Ângelo e Mariana, a dor crua nos olhos dele, o desespero contido na voz dela — tudo aquilo era uma tempestade que Laura não podia fotografar, mas que sentia profundamente. Sentou-se novamente no banco de madeira, o mesmo onde passara a manhã à espera de Ângelo. O barco dele balançava suavemente no cais, agora vazio, as cordas bem amarradas como se nada tivesse mudado. Mas tudo mudara. Clara, uma criança que ela nunca conhecera, tornara-se o centro de um furacão emocional que envolvia Ângelo, Mariana e, inevitavelmente, ela própria. Laura fechou os olhos por um momento, deixando o calor do sol aquecer-lhe o rosto. Precisava de pensar, de encontrar clareza no meio do caos. O som de passos pesados interrompeu os seus pensamentos. Abriu os olhos e viu Ângelo aproximar-se, o rosto ainda marcado pela confusão e pela exaustão. Ele parou diante dela, hesitando antes de se sentar ao seu lado. O silêncio entre eles era denso, mas não hostil — era o silêncio de duas pessoas tentando navegar por águas desconhecidas. - Como foi? - perguntou Laura por fim, a voz baixa, quase engolida pelo som do mar. Ângelo suspirou, esfregando as mãos nos joelhos como se tentasse apagar a tensão. - Difícil. Ela chorou muito, pediu desculpa por tudo. Contou-me sobre a Clara… como ela é, o que gosta de fazer. Disse que a pequena adora o mar, que aponta para os barcos e ri sempre que vê um. - ele fez uma pausa, um sorriso triste curvando-lhe os lábios. - Parece que puxou a mim nisso. Laura assentiu, imaginando uma menina de olhos castanhos como os de Ângelo, correndo por uma praia qualquer. - E o que vais fazer agora? Ele virou-se para ela, os olhos procurando os dela com uma intensidade que a fez prender a respiração. - Vou buscá-la. A Mariana quer que eu vá com ela à cidade amanhã, para conhecer a Clara e trazê-la para cá. Ela… ela não tem muito tempo, Laura. Disse que quer passar os últimos meses com a filha, mas que precisa de me ensinar a cuidar dela antes de… - a voz falhou, e ele desviou o olhar para o mar. Laura sentiu um aperto no peito, uma mistura de compaixão por Mariana e um medo egoísta do que isso significava para o seu futuro com Ângelo. - Isso é… é uma decisão grande. Estás pronto para isso? - Não sei - admitiu ele, a voz rouca. - Não sei se alguma vez estarei. Mas é a minha filha. Não posso virar as costas a ela, nem à Mariana, não agora. - ele virou-se novamente para Laura, segurando-lhe a mão com firmeza. - Mas também não quero virar as costas a ti. Preciso de ti nisto, Laura. Não sei como vou fazer tudo sozinho. As palavras dele foram como um raio de luz num céu nublado. Laura apertou a mão dele em resposta, sentindo o calor da pele calejada contra a sua. - Eu estou aqui, Ângelo. Não sei como isto vai ser, mas não vou embora. Só… só precisamos de ir um passo de cada vez. Ele assentiu, um alívio visível nos ombros que se relaxaram ligeiramente. - Um passo de cada vez - repetiu, como se testasse as palavras. - Amanhã vou com a Mariana. Queres vir connosco? Sei que é pedir muito, mas… acho que seria mais fácil contigo lá. Laura hesitou. A ideia de viajar com Ângelo e Mariana, de conhecer Clara e mergulhar ainda mais naquele emaranhado de emoções, era intimidante. Mas também sabia que, se queria fazer parte da vida dele, precisava de enfrentar isso de frente. - Sim, eu vou - disse por fim, a voz mais firme do que esperava. - Quero conhecer a Clara também. O sorriso de Ângelo foi pequeno, mas genuíno. - Obrigado, Laura. Não sei o que faria sem ti. Passaram mais alguns minutos em silêncio, apenas observando o mar, as mãos ainda unidas. Quando o sol começou a descer, tingindo o céu de laranja, Ângelo levantou-se, puxando-a suavemente com ele. - Vamos descansar. Amanhã vai ser um dia longo. Na manhã seguinte, a cidade estava envolta numa névoa leve, o ar fresco carregado de promessas e incertezas. Laura encontrou Ângelo e Mariana perto da casa dele. Mariana parecia ainda mais frágil à luz do dia, o corpo magro envolto num casaco demasiado grande, mas havia uma determinação nos olhos dela que Laura não vira antes. Ângelo carregava uma mochila simples, o rosto tenso mas resoluto. A viagem foi silenciosa, o ronco do motor preenchendo o vazio entre eles. Mariana mantinha-se no banco de trás, os olhos fixos na estrada, enquanto Laura e Ângelo estavam sentados lado a lado. Ele segurava-lhe a mão, um gesto que parecia tanto um pedido de apoio quanto uma promessa de que não a deixaria de lado. Quando chegaram à cidade, uma amiga de Mariana esperava-os — uma mulher de meia-idade chamada Sofia, de cabelo grisalho e olhar gentil. Ela abraçou Mariana com cuidado, como se temesse quebrá-la, e depois virou-se para Ângelo e Laura com um sorriso hesitante. - A Clara está em casa - disse Sofia, a voz suave - Ela é uma menina especial. Vão adorá-la. O trajeto até à casa de Sofia foi curto, mas cada passo parecia carregar o peso do que estava por vir. Quando entraram, uma risada infantil ecoou pela sala, e Laura viu-a pela primeira vez: Clara. Era pequena, com cabelos castanhos cacheados e olhos grandes que, como Mariana dissera, eram idênticos aos de Ângelo. Ela brincava com um barquinho de madeira, empurrando-o pelo chão com uma concentração adorável. Ângelo ficou paralisado na entrada, os olhos fixos na filha. Mariana ajoelhou-se ao lado de Clara, a voz trêmula mas carinhosa. - Clara, este é o teu papá. E esta é a Laura. Eles vieram conhecer-te. A menina levantou os olhos, curiosa, e depois sorriu, estendendo o barquinho para Ângelo. - Baco! - exclamou, a voz aguda e cheia de vida. Ângelo riu, uma risada rouca que parecia libertar parte da tensão que carregava. Ele ajoelhou-se, pegando o brinquedo com cuidado. - Sim, barco. Gostas de barcos, não é? Clara assentiu vigorosamente, e por um momento, o mundo pareceu parar. Laura observava, o coração apertado mas aquecido pela cena. Mariana, ainda de joelhos, olhava para os dois com lágrimas nos olhos, um misto de alívio e tristeza no rosto. Sofia ofereceu café, e passaram a tarde ali, num equilíbrio delicado entre alegria e melancolia. Clara era uma força da natureza, correndo entre eles, rindo e falando em frases curtas. Ângelo adaptava-se lentamente, aprendendo os gestos dela, enquanto Mariana explicava as rotinas da filha com uma paciência exausta. Laura ajudava onde podia, sentindo-se uma estranha e, ao mesmo tempo, parte de algo maior. Ao fim do dia, decidiram que Clara viria com a mãe na semana seguinte. Mariana queria tempo com ela, e precisavam de preparar tudo para que Clara tivesse todas as condições na nova casa. Quando o sol se pôs, Laura e Ângelo despediram-se de Sofia e Mariana, levando consigo a promessa de um regresso iminente. No carro de volta, Ângelo segurou a mão de Laura, os olhos fixos na estrada. - Obrigado por hoje. Sei que não foi fácil. Ela sorriu, apertando-lhe a mão. - Um passo de cada vez, lembra-te? Ele assentiu, e o silêncio entre eles foi, pela primeira vez em dias, reconfortante.
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