O sol nascia tímido sobre o porto, lançando uma luz suave que m*l atravessava a névoa densa da manhã. Laura acordou na sua casa, o som das ondas ao longe misturando-se ao leve ranger das tábuas sob os seus pés. Desde a viagem à cidade grande, uma semana atrás, a sua mente não encontrava repouso. A imagem de Clara — os olhos castanhos brilhantes, o sorriso fácil enquanto brincava com o barquinho de madeira — estava gravada nela, assim como a fragilidade de Mariana e a determinação crescente de Ângelo. Hoje, finalmente, iriam buscá-las, mas os últimos sete dias tinham sido um turbilhão de preparativos que os mantivera ocupados e, de certa forma, unidos.
Após regressarem da cidade grande, Ângelo decidira que precisava de tempo para organizar a casa antes de trazer Clara e Mariana. A ideia de acolher uma criança de quase dois anos e uma mãe em estado terminal exigia mais do que boa vontade — exigia espaço, estrutura, um lar que ele, até então, nunca precisara de construir além das suas próprias necessidades. Laura oferecera-se para ajudar, e juntos, mergulharam numa semana de trabalho intenso, transformando a simplicidade rústica da casa de Ângelo num lugar pronto para receber uma família inesperada.
No primeiro dia, sentaram-se à mesa da sala com uma chávena de café e uma lista improvisada. Ângelo, de lápis na mão, traçava linhas tortas num papel enquanto Laura sugeria o básico: um berço, brinquedos, roupas, um canto para Mariana descansar. Ele assentia, os olhos fixos nas palavras como se tentasse visualizar o futuro que elas desenhavam.
- Nunca pensei que ia precisar disto tudo - murmurou ele, coçando a nuca. - A minha casa sempre foi só… eu e o mar.
Laura sorriu, pousando a mão sobre a dele.
- Agora é mais que isso. Vamos fazer com que funcione.
Foram à praça da cidade comprar o essencial. O velho Zé, do mercado, ajudou-os a escolher um berço de madeira usado, mas em bom estado, enquanto a dona Celeste, da pensão, ofereceu cobertores e lençóis que sobravam no seu estoque. Fernanda, sempre pronta a meter-se onde havia ação, apareceu com uma caixa de brinquedos que encontrara no sótão da casa da mãe.
- Para a pequena marinheira! - exclamou, o riso fácil enchendo o ar enquanto entregava carrinhos e bonecas um pouco gastas pelo tempo.
A casa de Ângelo começou a ganhar vida. O quarto pequeno nos fundos, antes um depósito de redes e ferramentas de pesca, foi esvaziado e transformado num espaço para Mariana. Laura pintou as paredes de um azul claro, o mesmo tom do mar em dias calmos, enquanto Ângelo montava uma cama simples com um colchão que conseguiram na taberna do Manel, em troca de umas horas de ajuda no porto. No canto da sala, o berço de Clara encontrou o seu lugar, cercado por almofadas coloridas que Laura encontrou na mercearia.
À noite, exaustos, sentavam-se na varanda com uma garrafa de vinho barato, o mar sussurrando ao fundo. Falavam pouco, mas o silêncio era confortável, preenchido pelo som das ondas e pelo entendimento de que estavam a construir algo juntos. Numa dessas noites, Ângelo quebrou o silêncio, a voz baixa mas firme.
- Achas que ela vai gostar disto? A Clara, quero dizer.
Laura virou-se para ele, o luar refletindo nos olhos castanhos dele.
- Acho que sim. Ela já gosta de barcos, não gosta? E tu vais estar aqui. Isso é o que importa.
Ele sorriu, um sorriso tímido que carregava um peso de esperança.
- E tu também vais estar. Isso faz diferença.
As palavras aqueceram-na, mas também trouxeram um fio de incerteza. Estaria ela pronta para o que vinha pela frente? Não havia tempo para duvidar — o dia de buscar Clara e Mariana aproximava-se, e com ele, a realidade de uma vida partilhada.
No sétimo dia, a casa estava pronta. O berço de Clara brilhava com uma camada fresca de verniz, os brinquedos alinhados numa prateleira improvisada. A cama de Mariana tinha um cobertor extra, e na cozinha, Laura estocara comida simples — sopa, pão, frutas — para os primeiros dias. Ângelo olhava tudo com uma mistura de orgulho e nervosismo, as mãos nos bolsos enquanto dava uma última volta pela sala.
- Parece uma casa de verdade agora - disse ele, quase para si mesmo.
Laura riu, pousando a mão no ombro dele.
- Porque é. Vamos buscá-las?
Ele assentiu, e partiram para a cidade no carro de Laura, que era um pouco maior. A viagem foi longa, o ronco do motor preenchendo o silêncio inicial. Laura segurava o volante, enquanto Ângelo tamborilava os dedos no joelho, os olhos fixos na estrada à frente.
- Estou com medo - admitiu ele, a voz quase perdida no barulho do carro. — E se ela não gostar de mim? E se eu não souber o que fazer?
Laura desviou os olhos da estrada por um instante, encontrando os dele.
- Ela já te deu o barquinho, lembras-te? E tu vais aprender. Não estás sozinho nisto.
Ele assentiu, um sorriso hesitante nos lábios. O resto da viagem foi mais leve, com conversas sobre o que Clara poderia gostar de fazer na cidade costeira — talvez levá-la ao cais, mostrar-lhe os barcos de perto.
Chegaram à casa de Sofia ao entardecer. Mariana estava na sala, mais pálida do que antes, mas com um brilho nos olhos ao ver Ângelo. Clara corria pelo chão, empurrando o mesmo barquinho de madeira, e ao avistar Ângelo, correu até ele com um grito de “Baco!”. Ele ajoelhou-se, pegando-a no colo com um cuidado que já parecia mais natural, e Laura sentiu o peito apertar-se com uma emoção que não sabia nomear.
Sofia ajudou a reunir as poucas coisas de Clara — uma mochila com roupas, alguns brinquedos —, enquanto Mariana explicava, numa voz fraca, o que a filha precisava para a viagem. A despedida foi breve, mas carregada; Sofia abraçou Mariana com força, os olhos marejados, e sussurrou algo que Laura não ouviu.
No carro, Clara sentou-se no assento que tinham comprado, ao lado de Mariana, que segurava a mãozinha dela com uma ternura exausta. Ângelo ia à frente com Laura, lançando olhares pelo retrovisor para a filha, como se quisesse gravá-la na memória. A noite caiu durante o trajeto, as luzes do carro cortando a escuridão da estrada. Clara adormeceu, o barquinho ainda agarrado ao peito, e Mariana encostou a cabeça na janela, os olhos fechados mas o rosto tenso.
Chegaram à cidade costeira perto da meia-noite. O ar estava fresco, o porto silencioso sob o luar. Ângelo carregou Clara, ainda adormecida, para dentro de casa, deitando-a no berço com uma delicadeza que fez Laura sorrir. Mariana seguiu devagar, apoiando-se na parede até alcançar o quarto nos fundos, onde desabou na cama com um suspiro de alívio.
Laura e Ângelo ficaram na sala, o silêncio da casa envolvendo-os como uma manta. Ele aproximou-se dela, puxando-a para um abraço apertado, o rosto enterrado no ombro dela.
- Obrigado - murmurou, a voz abafada. - Por tudo isto.
Ela retribuiu o abraço, sentindo o calor dele contra si.
- Um passo de cada vez, lembras-te?
Ele riu baixinho, um som que aliviou o peso da noite. Separaram-se, mas ficaram lado a lado na varanda, olhando o mar escuro. A casa estava cheia agora — de vida, de desafios, de promessas. O futuro era incerto, mas naquele momento, com Clara e Mariana sob o mesmo teto, Laura sentiu que estavam no caminho certo.