Capitulo 22

1207 Words
Laura acordou cedo, o som das ondas misturando-se ao leve ressonar de Clara, que dormia no berço ao canto da sala. A viagem da noite anterior deixara-a exausta, mas havia uma energia inquieta no ar, uma promessa de um novo dia que a impelia a levantar-se. Na cozinha, preparou café em silêncio, o aroma quente espalhando-se pela casa enquanto o sol ganhava força lá fora. Ângelo apareceu pouco depois, o cabelo despenteado e os olhos ainda carregados de sono. Ele sorriu ao vê-la, um sorriso cansado mas genuíno, e pegou numa chávena que ela lhe ofereceu. - Dormiste bem? - perguntou ela, encostando-se ao balcão. - Mais ou menos - respondeu ele, tomando um gole do café. - Fiquei a ouvir a Clara respirar metade da noite. É estranho… saber que ela está aqui, que é minha. Laura assentiu, entendendo o peso das palavras dele. - E a Mariana? - Ainda dorme. Acho que a viagem a deixou exausta. Vamos deixá-la descansar hoje. - ele fez uma pausa, olhando para o berço onde Clara começava a mexer-se, os olhos castanhos abrindo-se lentamente. - Que tal levarmos a pequena à praia? Mostrar-lhe o mar de perto. E ouvi dizer que há uma feirinha na praça este fim de semana. Pode ser bom para ela… e para nós. Laura sorriu, a ideia trazendo um alívio bem-vindo. - Parece perfeito. Vamos fazer um dia só para ela. Clara acordou plenamente minutos depois, a voz aguda enchendo a casa com um “Baco!” entusiasmado ao ver Ângelo. Ele riu, pegando-a no colo com uma facilidade que crescia a cada dia, e Laura ajudou a vesti-la com uma camisola leve e calções que Sofia enviara na mochila. Após um pequeno-almoço simples de pão e fruta, deixaram um bilhete para Mariana, dizendo que voltariam à tarde, e saíram, o sol já alto no céu sem nuvens. A praia ficava a poucos passos da casa, uma faixa de areia dourada que se estendia ao longo da costa, rodeada por rochas lisas e o mar calmo que brilhava sob a luz da manhã. Clara, segurando a mão de Ângelo, deu gritinhos de excitação ao ver as ondas, os pezinhos correndo desajeitadamente pela areia. Laura carregava uma bolsa com água e alguns brinquedos, a câmera pendurada no ombro por hábito, mas pela primeira vez em semanas, sentiu vontade de a usar. - Água! - exclamou Clara, apontando para o mar enquanto tentava arrastar Ângelo para mais perto. Ele ajoelhou-se ao lado dela, deixando que as ondas suaves lambessem os pés da filha. - Gostas disto, hein? Igual ao papá. - ele olhou para Laura, os olhos brilhando com uma mistura de orgulho e ternura. - Achas que ela já quer navegar comigo? Laura riu, sentando-se na areia ao lado deles. - Dá-lhe tempo. Por agora, deixa-a brincar nas ondas. Passaram a manhã ali, construindo castelos de areia que Clara destruía com risadas, correndo atrás das gaivotas que pousavam perto da água. Ângelo mergulhava os pés no mar com ela, ensinando-a a equilibrar-se contra as ondas pequenas, enquanto Laura captava os momentos com a câmera — o sorriso largo de Clara, o cabelo molhado colado ao rosto de Ângelo, a luz do sol refletindo nos dois como se fossem uma só unidade. Era uma cena simples, mas carregada de algo novo: uma família em formação, ainda frágil, mas real. Por volta do meio-dia, com o sol a aquecer a areia, decidiram ir à feirinha na praça. Clara, já com os olhos brilhantes de cansaço e excitação, segurava a mão de Ângelo enquanto Laura os seguia pelas ruas estreitas da cidade. A praça estava viva com o burburinho do fim de semana — bancas de madeira alinhavam-se com artesanato, comida e flores, as vozes dos vendedores misturando-se ao som da música que alguém tocava num canto. Crianças corriam entre as bancas, e o cheiro de bolinhos fritos e peixe grelhado enchia o ar. Clara arregalou os olhos ao ver as cores e o movimento, apontando para tudo com exclamações de “Olha!”. Ângelo comprou um pequeno peixe de madeira pintado numa das bancas, entregando-o a ela com um sorriso. - Para a minha marinheira - disse, e Clara agarrou o brinquedo com as duas mãos, abraçando-o contra o peito. Laura parou numa banca de flores, escolhendo um girassol pequeno que entregou a Clara. - Para combinar com o sol - disse, e a menina riu, tentando cheirá-lo com o nariz enrugado. Enquanto passeavam, encontraram Fernanda, que montava uma banca de bolinhos de canela com Ana. Ela acenou vigorosamente ao vê-los, correndo para abraçar Laura e espiar Clara com curiosidade. - Então esta é a pequena! - exclamou, ajoelhando-se para ficar ao nível de Clara. - Olá, marinheirinha! Queres um bolinho? Clara assentiu timidamente, e Fernanda entregou-lhe um bolinho quente, que ela segurou com cuidado antes de dar uma dentada desajeitada. Ângelo riu, limpando as migalhas do rosto dela, enquanto Fernanda puxava Laura para o lado. - Como estás com tudo isto? - perguntou, os olhos castanhos cheios de preocupação genuína. Laura hesitou, olhando para Ângelo e Clara a poucos metros dali. - É… intenso. Mas hoje, vendo-os assim, sinto que talvez consiga fazer parte disto. É um dia de cada vez. Fernanda assentiu, pousando a mão no ombro dela. - Vais encontrar o teu lugar. E olha, ela já te adora - disse, apontando para Clara, que agora corria até Laura com o girassol na mão, oferecendo-o de volta com um sorriso. O resto da tarde passou num ritmo leve. Compraram peixe e sentaram-se num banco da praça para comer, Clara entre eles, balançando as pernas enquanto mastigava pedaços pequenos que Ângelo cortava para ela. A música continuava a tocar, e por um momento, o mundo parecia simples — apenas os três, o sol, o som da música e o cheiro do mar ao fundo. Quando o sol começou a descer, tingindo o céu de tons de laranja, decidiram voltar para casa. Clara, exausta, adormeceu no colo de Ângelo durante o curto caminho, o peixe de madeira e o girassol ainda agarrados nas mãos. Ao chegarem, encontraram Mariana na varanda, enrolada num cobertor, os olhos fundos mas um sorriso fraco nos lábios ao vê-los. - Parece que se divertiram - disse ela, a voz fraca mas cálida. Ângelo sentou-se ao lado dela, ajustando Clara no colo. - Sim. Levámo-la à praia e à feirinha. Ela adorou o mar. Mariana estendeu a mão trêmula, acariciando o cabelo da filha. - Fico feliz. Obrigada… por lhe darem tudo isto. Laura ficou de pé, observando-os, o coração apertado mas estranhamente leve. - Vou fazer chá - disse, entrando para dar-lhes um momento a sós. Na cozinha, enquanto a água aquecia, olhou pela janela para a varanda. Ângelo contava algo a Mariana, apontando para Clara com um sorriso, e ela assentia, os olhos brilhando com uma mistura de tristeza e gratidão. Era uma imagem que Laura não fotografou, mas que guardou na memória — um fragmento de um dia que, apesar de tudo, fora bom. Quando voltou com o chá, sentaram-se os três em silêncio, o som das ondas preenchendo o espaço. Clara acordou brevemente, murmurando “Baco” antes de voltar a dormir, e os adultos riram baixinho.
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