Laura acordou ao som de um choro baixo, o mesmo que a tirara do sono na véspera, mas desta vez estava mais preparada. Ao seu lado, na cama estreita que partilhavam, Ângelo resmungava, ainda meio adormecido, o braço estendido sobre o peito dela num gesto instintivo de proximidade. Desde que Clara e Mariana chegaram, Laura deixara de dormir na sua pequena casa para se juntar a ele no quarto principal, uma decisão silenciosa que os unira ainda mais em meio ao caos. O calor do corpo dele contra o seu era uma âncora, um lembrete de que, apesar de tudo, estavam juntos.
Ela deslizou suavemente para fora da cama, os pés descalços tocando o chão frio, e foi até ao berço de Clara na sala. A menina estava de pé, as mãozinhas agarradas às grades, os olhos castanhos brilhando com lágrimas. Laura pegou-a no colo, balançando-a com cuidado enquanto sussurrava palavras suaves.
- Shh, está tudo bem, pequena. Foi só um sonho - murmurou, sentindo o corpinho de Clara relaxar contra o seu ombro.
Ângelo apareceu na porta do quarto momentos depois, esfregando os olhos, a camisola amarrotada revelando a pele bronzeada do peito.
- Outra vez? - perguntou, a voz rouca de sono.
Laura assentiu, ajustando Clara nos braços.
- Parece que sim. Vamos deixá-la acalmar-se um pouco.
Enquanto Clara se aquietava, o som rouco de uma tosse veio do quarto dos fundos — Mariana, novamente. Ângelo trocou um olhar preocupado com Laura, mas ela fez um gesto para que ele ficasse.
- Eu vou ver - disse, entregando Clara a ele com um sorriso - Ela gosta de ficar abraçada a ti de manhã.
No quarto de Mariana, a luz do amanhecer revelava a mesma cena da véspera: a mulher frágil envolta num cobertor, o rosto pálido contra o travesseiro, a tosse ecoando no silêncio. Laura sentou-se ao seu lado, ajudando-a a ajustar-se na cama.
- Como estás hoje? - perguntou, a voz suave.
Mariana respirou fundo, o esforço visível.
- Igual a ontem… talvez um pouco mais cansada. Mas quero levantar-me, estar com a Clara. - ela fez uma pausa, os olhos fundos encontrando os de Laura. - Obrigada por cuidarem dela… e por me deixarem ficar.
Laura sorriu, segurando a mão trémula dela.
- Não tens de agradecer. Somos uma equipa agora.
O dia desenrolou-se num ritmo familiar. Após um pequeno-almoço leve, levaram Clara ao cais, o sol brilhando forte no céu azul. Mariana ficou na varanda, embrulhada num cobertor, observando-os de longe com um sorriso fraco. Clara correu pelas tábuas de madeira, apontando para os barcos e rindo, enquanto Ângelo a seguia, levantando-a nos ombros para que pudesse ver melhor. Laura tirava fotos, capturando os momentos que sabia serem preciosos, o clique da câmera misturando-se ao som das ondas.
A tarde passou tranquila, com Clara a dormir uma sesta longa e Mariana descansando no quarto. Laura e Ângelo aproveitaram para arrumar a casa, movendo-se em sintonia silenciosa — ela lavando pratos, ele varrendo a areia que Clara trouxera da praia. Havia uma paz doméstica nisso, uma normalidade que contrastava com a sombra que pairava sobre eles.
Quando a noite caiu, a casa mergulhou num silêncio reconfortante. Clara adormeceu no berço, o peixe de madeira agarrado ao peito, e Mariana retirou-se cedo, a exaustão vencendo-a após um dia de esforço. Laura e Ângelo, livres do peso do dia, escaparam para a varanda, o mar escuro estendendo-se diante deles sob um céu cravejado de estrelas. Ele trouxe uma manta, envolvendo os dois enquanto se sentavam no banco de madeira, os corpos colados num calor partilhado.
- Hoje foi bom - disse Ângelo, a voz baixa, o braço deslizando pelos ombros dela. - A Clara estava feliz… e a Mariana conseguiu ficar um pouco connosco.
Laura aninhou-se contra ele, a cabeça repousando no peito dele, sentindo o ritmo lento do coração.
- Sim. São dias assim que vão ficar com ela, sabes? Mesmo quando for pequena demais para se lembrar.
Ele assentiu, os dedos traçando círculos suaves no braço dela, um carinho que parecia mais instintivo do que intencional.
- Espero que sim. Mas… não consigo parar de pensar no que vem depois. Quando a Mariana… - ele parou, a voz falhando, e Laura ergueu a mão para tocar-lhe o rosto, virando-o para ela.
- Não penses nisso agora - sussurrou ela, os olhos encontrando os dele na penumbra. - Estamos aqui, juntos. Vamos enfrentar isso quando chegar.
Ângelo inclinou-se, os lábios roçando os dela num beijo lento, carregado de ternura e algo mais profundo — uma necessidade de se agarrar ao presente. Ela retribuiu, as mãos subindo para o pescoço dele, puxando-o mais perto. O beijo aprofundou-se por um momento, mas não era urgência o que os movia; era conforto, uma forma de dizer o que as palavras não alcançavam.
Quando se separaram, ele descansou a testa contra a dela, o hálito quente misturando-se ao ar fresco da noite.
- És a minha força nisto tudo, sabes disso? - murmurou, os dedos entrelaçando-se nos dela.
Laura sorriu, o coração aquecendo apesar do frio que começava a subir do mar.
- E tu és a minha. Somos uma equipa, Ângelo.
Ele puxou-a para mais perto, a manta envolvendo-os como um casulo. Por um tempo, ficaram em silêncio, apenas trocando carinhos — as mãos dele deslizando pelas costas dela, ela traçando linhas suaves no peito dele por baixo da camisola. Era um ritual que se tornara hábito nas últimas noites, uma forma de descarregar o peso do dia e reafirmar a conexão que os sustentava.
- Achas que a Clara vai gostar de crescer aqui? - perguntou ele, quebrando o silêncio, a voz quase um sussurro contra o cabelo dela.
Laura inclinou a cabeça, olhando para o mar escuro.
- Acho que sim. Ela já ama os barcos, o mar… tem isso no sangue, como tu. E vamos dar-lhe um lar, um lugar onde se sinta segura.
- Nós - diss3 ele, como se testasse a palavra, um sorriso suave nos lábios. - Gosto de como isso soa.
Ela riu baixinho, aninhando-se mais contra ele.
- Eu também. Um passo de cada vez, mas juntos.
Os dedos dele subiram para o rosto dela, traçando a linha do queixo antes de puxá-la para outro beijo, mais leve, quase brincalhão. Laura retribuiu, sentindo o calor dele espantar o frio da noite. Ficaram assim por longos minutos, trocando carinhos e palavras soltas — sobre o dia, sobre Clara, sobre o que fariam amanhã. Era uma conversa sem pressa, entremeada por silêncios confortáveis, o som das ondas servindo como pano de fundo.
Quando a brisa ficou mais fria, decidiram entrar. Ângelo levantou-se primeiro, puxando-a pela mão com um sorriso travesso que a fez rir. De volta ao quarto, deslizaram para a cama juntos, os corpos encaixando-se como peças de um puzzle. Ele envolveu-a com os braços, o calor dele envolvendo-a enquanto o sono os reclamava com o som distante do mar embalando-os.