Sarah Montserrat
Eu estava tentando manter as aparências e não deixar na cara que meu coração estava saindo pela boca.
Nikkei estava certo. Justin Bieber gosta de mim.
Eu poderia simplesmente ignorar o “eu me amarro em você” e levar na esportiva. Mas não, ele foi sincero, ele olhou nos meus olhos antes de dizer isso e algo inacreditável está acontecendo comigo.
Toda vez que Justin me olha, eu sinto como se estivesse sendo beijada por ele na noite em que engravidei. Eu juro ter ouvido a respiração ofegante dele enquanto se movia em mim. Meu coração está tropeçando, e está tudo ainda mais estranho em mim vendo-o bajular a Sunshine.
— Justin? — o chamei pela quarta vez, nas outras terceiras vezes eu não consegui dizer nada.
— Sim?
— Você… é… se lembra de mim daquela festa? — deixei no ar e ele me olhou, ficando sem jeito.
— Lembro… — ele riu — vi sua calcinha.
Não foi só a calcinha, meu bem.
— Ah…
— Por que? Eu deveria lembrar de algo mais? — perguntou Justin, olhando a Sun jogar no meu celular.
— É… não! Claro que não — neguei de imediato e ele curvou o sorriso.
— Você tá sem graça porque eu disse que gosto de você e afirmei que você gosta de mim ou tem mais alguma coisa, Sarah?
— Eu não gosto de você — falei, cerrando os dentes — não sei de onde você tirou isso.
— Gata, eu vi do jeito que você olhou para a Liv, vi você se doer. Ciúme é um dos caminhos para o amor — debochou, me fazendo revirar os olhos.
— Falsas esperanças é um dos caminhos para a desilusão — retruquei no mesmo tom de deboche e ele fez cara de ofendido.
— Chata.
Quando eu ia retrucar, o alarme tocou, avisando que o horário de visitas havia acabado. Me lembrei que a minha crise de ciúmes me impediu de pegar o contato da tal amiguinha dele.
— Como era mesmo o nome da sua amiga?
Ele me olhou com diversão e abraçou a Sun.
— Vai raspar as sobrancelhas da Olívia Queen, Sarah Montserrat?
— Babaca — segurei a mão da Sun — se despede do seu pa…— me corrigi imediatamente — do seu amigo, Sun.
— Tchau, tio, não estrague o meu desenho senão eu vou ficar com biquinho de tristeza.
Justin riu e ajoelhou, abraçando a filha com força e cuidado.
— Vou guardar como se fosse a minha própria vida, princesa.
[Na semana seguinte]
O juiz Connor me viu duas vezes na semana. Uma delas ele demonstrou espanto pois consegui as testemunhas e entrei em contato com o advogado em dois dias, o mesmo que agora é um dos melhores advogados de Regina — uma cidade próxima de Ottawa — e ele garantiu me ajudar. Bom… um valor extremamente alto, mas eu sei que vou conseguir. Enquanto isso, meu maior foco no momento é conseguir toda a história do Justin.
É… o mais difícil ficou pro final, e eu não me refiro só em saber a verdade sobre ele, me refiro a contar a minha verdade também.
Eu já tinha as três testemunhas. Ryan Butler, Christian Beadles e Olívia Queen — moça que, nessa manhã de terça-feira está no Deneeve ( minha cafeteria favorita que por falta de tempo não citei antes ) comigo.
— Sério, moça, sua cara de descontente foi a melhor! — e ela voltou a rir.
— Não estamos aqui para rir, senhorita Queen — fui rígida. Droga, me lembrar da minha crise de ciúmes me deixa desconcertada, porque eu acabo pensando nele. Penso no fato de ele estar afim de mim e penso também nessa avalanche de sentimentos confusos tomando conta de tudo quanto é barreira e certezas que eu venho moldando há anos.
— Estamos para o quê? Olha, se você curte o meu ex namorado não tem problema nenhum, quando ele sair da prisão vai ser porque eu ajudei você a tirar ele de lá, ai já era.
Cruzei o cenho.
— O que “já era”?
— Suas expectativas, lindinha, nós vamos reatar. Fora da prisão, não existe um Justin Bieber sem uma Liv.
Procurei uma expressão omitida de diversão em seu olhar, com o intuito de fazer com que eu fique com ciúmes como da última vez, mas não, ela não estava brincando e não estava me testando.
— Minha única expectativa, lindinha, é cumprir meu objetivo que por hora é tirar seu namorado da cadeia. Então, se você quer realmente que seu sonho de princesa se realize, colabora.
Olívia manteve o olhar em mim, que de debochado, passou a ser fulminante.
— Estou vendo que vamos ter problemas — disse ela.
— Se você apenas colaborar, tenho certeza de que não vamos — argumentei e suas narinas dilataram, evidenciando um rubor de raiva pelo rosto pálido.
Olívia se levantou e jogou o dinheiro do café na mesa. Mantive a pose rígida até ela sair do estabelecimento. Virei meu café com raiva e bufei baixo.
A primeira coisa que veio na minha cabeça foi contar sobre a paternidade para o Justin assim que ele saísse, mas agora vai ser complicado. Olívia vai ajudar ele, não eu.
(...)
Justin Bieber
Olívia Queen gostou do meu beijo. Ah, merda… Sarah não vai gostar nada disso.
— Pensei que você tivesse vindo para conversar comigo… — a interrompi, enquanto minha ex namorava mordiscava meu pescoço, me lembrando de todas as nossas noites malucas em que ela provava ser uma das mulheres mais quentes que eu já havia experimentado.
— Humm… — ela resmungou, deslizando a língua de forma solene pelo meu pescoço — eu estava com saudades e nessa semana que passou eu pensei seriamente em te ter para mim quando você sair daqui.
Meu saco doeu, mas a frase “A Sarah vai ficar m*l” deixou meu p*u para baixo, contra a vontade dele, claro.
— Liv…
— Eu sei, eu sei — ela se sentou no meu colo, sem se importar de estar a ponto de arrancar sua roupa numa sala de visitas — Mas eu falei com a sua psicóloga bonitinha e pode ter certeza de que ela não tem nenhum interesse em você, de verdade, desencanta enquanto dá tempo, ela até falou que está dando duro só porque precisa da grana.
Engoli em seco e afastei um pouco o rosto dela do meu pescoço, a olhando.
— O quê? — dei uma risada forçada — ela não é assim.
— Olha, J., não se ilude com um sorriso bonito e papo furado, ela é psicóloga, ele faz isso com todo mundo.
— Liv, ela é diferente — insisti — você não a conhece.
— E você conhece, Bieber? — Olívia segurou minha mão e deslizou até o cós de sua calça — você a conhece como me conhece?
— Olívia! — puxei minha mão, lutando com a minha vontade de fodê-la — Olívia, aqui é sujo, nós não…
— Me come aqui, por favor? — com toda manha do mundo, ela umedeceu a boca e segurou minha mão mais uma vez — Justin, eu senti saudades de tudo…
— Liv, se sentiu tanta saudade, por que não me procurou antes? Por que só agora? Eu sei bem que você está aqui com o intuito de me ajudar, mas não vai rolar, não dá… eu não quero t*****r com você. Não aqui, não agora.
— Eu vim porque seu pai pediu, J., eu estava com medo de encontrar você e…
— Olívia, aqui não. Não vamos f***r aqui, entendeu?
— Você vai sair no Dia de Ação de Graças? — perguntou, saindo o meu colo devagar.
— Vou — falei.
— Ainda lembra onde eu moro?
— Lembro, lembro sim — confirmei.
— Vou te esperar — disse ela por fim, saindo da sala e eu coloquei a mão na cabeça, suspirando.
***
Sarah Montserrat
— Eu não esperava ver você hoje — falei para Trevor e o deixei entrar em casa, suspirando pesado.
— Você não me ligou, não respondeu nenhuma mensagem minha… pensei que vir aqui poderia dar certo.
— O que seria “dar certo”? — cruzei o cenho, confusa.
— Quero namorar você — ele foi direto como um tiro certeiro — e tudo bem se você já teve algo com aquele presidiário… meus dias têm sido horríveis, Sarah, preciso estar com você.
— Nikkei…
— Não, não fala nada. Eu sei que você precisa de um tempo pra pensar nisso e eu não quero te pressionar, gata, mas eu quero ter algo com você… a gente se dá bem, somos persistentes… sei que eu vacilei feio, mas me dá uma chance?
Eu poderia dizer que o que me impede de aceitar é conhece-lo há curto prazo, ter uma filha que pode não aceitar, ele ter mentido… mas não, eu só consigo lembrar de Justin dizendo que gosta de mim, estar com Nikkei poderia machucá-lo. Porém, eu tenho que tirar Justin da cabeça, mesmo ele sendo pai da Sun e eu pense que nunca vou conseguir soltar essas verdades para ele… Justin não é para mim, com certeza vai ficar com a Olívia no final de tudo isso, não posso me prender esperando que ele saia da cadeia e aceite a Sun, me aceitando também.
— A gente… não sei… — Neguei para mim e para ele. Estar com Trevor não vai me impedir de dizer a ele que a Sun é filha do Justin, bom, eu não vou dizer isso de cara, talvez Trevor e Justin possam saber ao mesmo tempo, mas não é a hora de eu ter um namorado, acho.
— Tudo bem — ele beijou minha testa — Sunshine deve estar dormindo e eu provavelmente devo ter te acordado com o barulho da campainha, mas… eu quero que você saiba que estou arrependido por não ter feito o certo com o caso Bieber.
— Não minta para mim no Dia de Ação de Graças — olhei em seus olhos — não está arrependido pelo que fez — confirmei — vai embora, Nikkei.
— Pensa, por favor…
— É o que eu mais tenho feito ultimamente — indiquei a porta — até logo.
Ele me olhou, olhou em volta, bufou alto e cerrou os punhos, saindo da minha casa.
Sun acordou horas depois do Nikkei ter saído de casa, avisei a ela que era Ação de Graças, que logo se aprontou, vestindo uma roupa de moletom, toda alegre. Tudo isso porque neste feriado nós vamos ao supermercado e eu faço a comida favorita dela, sem contar a sobremesa.
Nós fomos ao supermercado, comprei bastante coisa, sem me preocupar em gastar demais. A quantia que tem na minha conta cujo Jeremy Bieber depositou é altíssima. Quando chegamos em casa, convidei Madeline e o namorado novo, Andrik, para o jantar.
Madeline nunca fica com a família nesses feriados, na verdade, nós somos parecidas no quesito de ter problemas com os pais. A história dela é simples: Eles a obrigaram a entrar num convento e fazer estudo religioso, mas ela optou pela faculdade de artes cênicas, se especializando em teatro. Os pais dela são religiosos ao extremo e não admitiram que a única filha mostrasse “arte corporal”. Mesmo assim, ela conseguiu se formar.
O problema é que a família da Mad é aquela bem século vinte, para eles a garota tem que ficar em casa cuidando dos filhos enquanto o marido trabalha, porém ela não é assim, é o oposto. Atualmente eles a ignoram, falam que ela é mundana. Ela é babá da Sun e atriz de teatro no tempo livre. Eu espero muito que algum dia alguém reconheça o talento dela, pois Madeline me ajudou muito, ela me jurou que irei me ajudar a cuidar da minha filha.
Pela tarde, eu e minha menina nos empenhamos em preparar o melhor bolo de chocolate do mundo. Madeline me avisou que traria a lasanha, Andrik as bebidas, então eu preparei os legumes e o prato favorito da Sunshine. Frango assado.
— Mamãe? — Sun parou de olhar o forno e me olhou — a gente vai voltar pra ver o tio?
Eu não precisei perguntar quem é o tal “tio”. Ela gosta de estar com Justin.
Cômico, fofo, incrível ou assustador?
Lembrei-me que hoje ele saiu para ficar com a família e imaginá-lo respirando o ar da “semi liberdade” me deixou feliz, a ponto de eu sorrir sozinha, ficando rubra com meus próprios pensamentos.
— Vamos, quando der a mamãe te leva — beijei calmamente a testa dela — quer tomar um banho comigo antes da Mad chegar?
Após Sunshine concordar, nós fomos para o meu quarto e entramos no banheiro, ficando de molho ali por longos minutos.