Ciúmes e beijos quentes

3253 Words
Sarah Montserrat   Estávamos na delegacia. Isso mesmo, o filho da p**a fez um escândalo e tiveram que chamar a polícia.   Pobre Charles, o meu consultório tem câmera, tudo o que ele disse ficou bem guardado. Então, assim que ele começou a dizer que eu o ameacei de morte eu exigi que fossem na clínica e olhassem tudo. Isso mesmo. São quase duas da manhã e eu estou sentada ao lado do meu ex marido esperando a polícia nos liberar. Um dia na prisão, uau, Sarah.   — A culpa é sua — rosnou ele, chamando a atenção do delegado, que o olhou com tédio e me olhou em seguida.   — Vocês saem em algumas horas… você — o senhor à nossa frente apontou o dedo para Charles — vai pagar indenização por danos morais.   Como se fosse a pior coisa do mundo, Somers se pôs em pé é bateu na mesa do senhor, que se levantou em seguida.   — Você sabe quem eu sou?!   — Você é um cara que vai pagar indenização para a sua ex-mulher e vai prestar serviço comunitário por desacato a autoridade, agora se sente, preciso ver se vou os liberar agora.   Olhei meu celular, lendo uma mensagem da Madeline dizendo que a Sun sequer pensa em dormir e está chorando há horas e apoiei minha mão em meu rosto, respirando fundo.   Sentado à minha frente, o delegado analisou os papéis e me olhou, dedilhando a barba grossa e m*l feita.   — Você não desgruda os olhos do celular, pode ir para casa.   Obrigada, céus, obrigada.   Foi desnecessário vir para delegacia, mas é muito bom ver a cara de derrota de Charles Somers.   — Isso é injusto — resmungou Chaz.   — Obrigada, senhor — falei e em dois tempos eu já estava fora daquele inferno.   Mesmo estando tarde, tive que ir para casa de metrô, com uma dúvida enorme na minha cabeça:   Eu ainda tenho um emprego?     (...)     Sim, eu tenho um emprego, que por um fio não foi para o ralo.   Conversei com o diretor e ele me deu uma suspensão e eu vou ficar sem setenta por cento do meu salário neste mês. Poderia ser pior.   Dois dias de folga e uma criança para esclarecer as coisas.   — Sun, seu papai não é ele, Geórgia é uma pessoa r**m e não quer ver você bem. Não é seu papai.   Mesmo eu tendo todo o cuidado do mundo, minha menina permaneceu na cama, coberta até o pescoço, soluçando.   Sentei-me e a coloquei em meu colo, Madeline se sentou ao meu lado e me olhou.   — Se a vovó disse que eu tenho um papai, eu tenho! — então, minha filha cruzou os braços, me olhando como nunca havia olhado antes — e se ela for dar meu papai pra mim eu vou ir embora com ela.   Minha tarde de quarta-feira não podia ser pior.   Cinco facadas no peito talvez. Ou até mais.   Sunshine nunca disse isso, ela não tem nem idade, não sabe direito o que está acontecendo.   Engoli o enorme nó na minha garganta e a coloquei na cama.   — Sarah… — Chamou Madeline, com o intuito de me confortar, mas meu coração estava relutante demais.   Caralho. Eu não tenho ideia das besteiras que a Geórgia colocou na cabeça da Sun. Só sei que ela apareceu aqui e… ganhou minha filha tocando na parte mais frágil dela.   Saí do quarto com a Madeline me chamando. Droga, eu quero chorar, quero alguém para me acolher, estou perdida.   Pensei em recorrer ao Nikkei, mas a única pessoa que me veio à cabeça foi a que eu nunca mais queria ver na minha vida. Talvez eu só precise de usar algum pretexto pra ver o cara que me deu um soco no olho, até chegar lá eu arranjo um.   Justin Bieber   Acordei com alguém esmurrando a porta de ferro assustado. Sentei-me e cocei os olhos. Está de tarde, mas só o que eu tenho feito nesses dias é dormir. Bom, dormir e arranjar brigas.   Eu consigo brigar quando alguém abre a cela para me dar comida ou quando eu vou até o refeitório.   Já discuti com o novo carcereiro, já xinguei os faxineiros e saí no soco com um cara no pátio quando ia ver Trevor na sala de visitas.   A cela se abriu e Ulisses apareceu, me olhou e tencionou o corpo.   — Visita para você.   Coloquei a blusa laranja escura e prendi meu cabelo com um elástico, eles desistiram de cortar meu cabelo. Ele é sagrado, eu mesmo corto às vezes.   Ulisses passou as algemas e eu o segui até a sala de visitas.   Escadas, corredores, portas… ela.   Quando pisei na sala, meu coração disparou de uma maneira tão forte que eu não me reconheci. Sarah colocou o cabelo para o lado, me olhando com um certo medo.   — A senhora tem certeza de que vai querer ficar a sós com ele? — perguntou o carcereiro, como um aviso.   — Tenho.   Tirando minhas algemas, ele saiu de lá e eu a olhei.   — Primeiramente, me desculpa — falei, respirando fundo — não estava num dia bom, não sei o que aconteceu comigo, me perdoa. Eu tentei me convencer de que o peso na consciência não era sobre você e era. Me desculpa?   — Como você está? — ela não me desculpou.   — Vou estar melhor se você me perdoar.   — Rancor é péssimo, e eu tenho — disse Sarah, sem sentar.   — Você fica gostosa com rancor — brinquei, mas nem um sorriso eu fui capaz de arrancar, me perguntei se ela ainda estava ali.   — Pergunta como eu estou — seu tom de voz foi um misto de desespero e súplica.   — Como você está? — olhei em seus olhos e ela soltou os braços, caindo sentada.   Pareceu que essas três palavrinhas eram tudo o que ela mais queria ouvir.   — Ele…ele voltou e quer tirar a Sun de mim com a ajuda da minha mãe e… — e ela soluçou por dois minutos, sem me dar a chance de saber o que estava havendo.   — Ele quem? — perguntei, sem me aproximar.   — Meu ex marido está de volta… minha mãe enfiou na cabeça que quer a minha filha e o Charles vai ajuda-la. Ele tem dinheiro e a Geórgia já meteu coisa na cabeça da Sun e…   — Geórgia é sua mãe, certo? — perguntei e ela fez que sim com a cabeça — ela não tem por que fazer isso, ele menos ainda… se a filha não é dele, por que ele quer ela?   Sarah riu amargurada, apoiando o rosto nas mãos.   — Ele só quer me ver mau, só isso. A Geórgia provavelmente vai ganhar algum dinheiro. O pior é que a Sunshine acredita que minha mãe vai trazer um pai para ela.   Talvez não seja a hora certa para fazer essa pergunta, mas as palavras saíram facilmente.   — E por que você veio falar isso comigo?   Sarah se ajeitou e maneira desconfortável e pareceu querer fugir de mim.   — Quero dizer… — cocei a garganta — você estava com raiva de mim…   — Você foi o único que conseguiu me fazer esquecer o Charles.   O que?   Como assim?   — O que?! — perguntei, espantado.   — Não, não! — ela bateu a mão no rosto e se atrapalhou um pouco — não foi isso que eu quis dizer… é que… você conversou comigo e percebeu quando eu estava m*l, foi isso que me fez seguir em frente e deixar meu antigo relacionamento de lado.   — Ah…   Isso mesmo, por um segundo eu achei que era algo mais. Como isso me faz i****a! Como uma mulher linda e decente como ela desceria num nível abaixo do chão para se interessar por mim?   — Eu só quero um conselho, uma luz… eu quero a minha filha, Justin, sem a Sun eu não sou nada… eu não terei nada!   Levantei e abri os braços, Sarah se pôs em pé e veio até mim, me abraçando com força.   — Quando estiver perdida e confusa coloque a mão no lugar mais forte do seu corpo… — notei sua cara de confusão e ri baixo, dando um beijo em sua testa, sentindo o cheiro da pele mais macia que eu tivera tocado em toda a minha vida — aposto que seu coração é a parte mais forte. A minha são minhas mãos, eu as aperto buscando tranquilidade e equalizo. Faz o mesmo porque eu não sei o que fazer pra te deixar melhor.   Sarah me olhou, sorrindo quase imperceptivelmente, coloquei seu cabelo atrás da orelha e ela deu um passo para frente.   — Obrigada…   — Disponha.   — Eu te desculpo — disse ela — mas não vou voltar com o caso… você é imprevisível e me machucou, me deixou com medo. Desculpa, mas não vai dar pra eu ficar com o seu caso.   — E se eu te contar o que realmente aconteceu? — falei meio engasgado, segurando seu queixo — em?   — Agora é tarde. Fale com o Trevor.   — Mas eu não quero o Trevor, Sarah, eu quero você — deslizei minha mão pela sua bochecha, espalmando sua nuca — Eu quero você.   Sarah tentou se afastar dando um passo para trás, mas com minha mão direita livre, puxei sua cintura para perto, olhando para sua boca.   — Isso não é certo — Falou ela.   — Você não é mais a minha psicóloga, não tem mais importância e a câmera daqui m*l funciona — Eu sei que você quer…   — Você me machucou.   — Eu sei, eu sei e eu me odeio por isso, mas eu quero me redimir. Olha, f**a-se, me odeie, me abomine, mas me beija — apertei mais sua nuca e ela não cedeu, entretanto, não se afastou.   Com ou sem permissão, toquei seus lábios com os meus e os acariciei com a minha língua antes de estar puxando um beijo. Sarah abriu um pouco a boca, me dando livre arbítrio para fazer o que eu quisesse. Peguei a psicóloga mais gostosa que já vi e a coloquei sentada na mesa. Ela me puxou pelo quadril e eu continuei a explorar cada cantinho de sua boca, descendo as mãos até sua cintura.   Sarah colocou a mão por baixo da minha camiseta e eu sorri com malícia, tentando acalmar meus ânimos para não a assustar. Eu estou há cinco anos sem t*****r, querer f***r essa mulher é só o que eu consigo pensar desde quando a vi.   Sarah relaxou o corpo e eu abri os botões de seu smoking, olhando a regata branca tampando um par de s***s maravilhosos. Ela tirou o smoking e a regata, voltando a me beijar. Apertei seus s***s e parei de beijá-la, descendo algumas mordidas até seu pescoço.   — Tempo esgotado! — Ulisses abriu a porta, ficando chocado com a cena e eu fiquei na frente dela, sentindo seu corpo rígido atrás de mim — vamos, Bieber, não sabia que podia t*****r nessa sala.   — Eu sei que você queria estar no meu lugar — falei, olhando para Sarah que já estava com a regata — ele não vai falar nada, prometo — me virei, murmurando para ela — a gente vai se ver de novo?   O brilho e a tensão s****l de seus olhos sumiram e ela vestiu o smoking, sem dar importância para o Ulisses.   — Não sei… talvez eu volte aqui com seus avós ou com o Trevor…   Trevor.   — Você e ele estão juntos? — fui direto, ouvindo o carcereiro me chamar, fazendo barulho com as algemas.   — Não, não temos nada sério — explicou ela, apanhando uma pequena bolsa. É estranho não vê-la com aquele monte de brochuras e pastas para lá e para cá.   — Mas tem algo, não tem? — travei meu corpo e ela cruzou o cenho.   — Ele é meu amigo — falou e então, passou por mim — obrigada pela conversa.   A observei ir até o final do corredor e a chamei.   — A gente vai se ver de novo? — insisti.   — Não… eu… eu acho melhor não — sem mais, ela saiu de lá.   (...)     Sarah Montserrat   — Onde é que você estava?! — Madeline gritou comigo assim que pus meus pés em casa — que droga, Montserrat, que droga!   — Eu precisava espairecer — falei, vendo a Sun encolhida no sofá, me olhando com os olhos cheios de lágrimas.   — Me desculpa, mamãe? — sussurrou ela e eu me sentei no sofá, sem prestar atenção em uma palavra sequer.   “Eu quero você... “.   Tão sexy… minha nossa, uma pessoa normal se arrependeria de querer t*****r numa sala de presídio? Porque eu estou querendo voltar lá e terminar o que começamos. Droga, porque ele tem que ser tão lindo e tão… interessante?   Passaram-se uns segundos e Sunshine estava na minha frente abrindo a boca no mundo. Só isso mesmo para me trazer para o planeta Terra mais uma vez.   — Eu amo você, mamãe, me desculpa?!!   Abri meus braços e recebi um abraço confortável, o qual eu aproveitei o máximo que pude.   — Você me deixou triste — falei, a olhando séria — poxa, Sun, eu faço de tudo para você e você quer ir embora com a sua avó? — Eu tenho certeza de que ela entendeu bem o que eu disse, mas eu não quero deixa-la mais confusa — Eu te amo, Sunshine, não faz mais isso comigo.   Ela assentiu e Madeline suspirou aliviada, se jogando no outro sofá.   — Eu vou dormir aqui, hoje o Andrik tem jogo e não vamos poder nos ver — Andrik é a nova paixão da Madeline, um homem que ela diz ser gato que é jogador de hóquei.   — Você fica sem sua noite garantida e vem me encher o saco, é?   — É — ela respondeu e eu revirei os olhos, rindo — vocês querem pizza?   — Pizza?! — ouvi uma voz grave no quintal e logo a campainha tocou — Eu já comprei.   Olhei para Madeline assustada e ela foi abrir a porta.   — Oi, Trevor — disse ela, arrancando as duas caixas de pizza das mãos dele.   Nikkei é a última pessoa que eu quero ver agora. Sério, eu sou péssima. Mas não estou arrependida pelo que fiz mais cedo.   — Oi, Madeline — Ele deixou umas coisas na cadeira e veio até mim — e aí, Sah?   Eu beijei o Justin. Beleza… mas eu beijei o Justin estando com o Trevor, o que não pode ser errado já que nós não temos nada. Ou temos?   — Você tem ficado com outras pessoas? — perguntei, assim que ele estava dando um beijo na testa da Sun.   — Não, por quê? Ciúmes? — seu sorriso convencido apareceu ali e eu revirei os olhos.   — Só para saber mesmo.   — Sarah, você é a única mulher que eu venho ficando, eu quero algo sério contigo, relaxa.   Sorri forçado e abracei a Sun.   — Que bom…   — Eu só tenho olhos pra você.   E eu só queria uma noite com o cara mais gato que já vi. Ah… Justin Bieber, você fez algo com a minha cabeça.   Eu também quero você, Bieber, eu também.     (...)        Justin Bieber     Eu havia virado a noite pensando no meu encontro com a Sarah, que, estranhamente, não sai da minha cabeça. Na verdade, Sarah é marcante, ela é doce e selvagem, não sei bem ao certo, acho que seu jeito persistente e determinado me atrai um pouco.   Mas eu não estava apenas pensando durante a noite toda, eu escrevi algumas coisas sobre ela nas folhas que a minha avó me trouxe. Fazia tanto tempo que eu não escrevia letras de músicas… eu tinha algumas em casa, mas provavelmente devem ter ido para o lixo. Eram coisas da época em que eu estava “perturbado”.   Eram coisas fortes, não chegava a ser algo de Lana Del Rey, mas era nível Take me to Church do Hozier.   Bom, eu nunca havia escrito nada como eu escrevi essa madrugada, eu estava inspirado porque a mulher mais petulante que eu já conheci me inspirou.   Eu tenho uma voz boa, fazia faculdade de música e me dedicava mais do que tudo, relembrar aquela época me traz dor, mas me traz paz. Eu era parcialmente feliz. Gostava do meu violão, de ir à aulas de teclado e piano, eu não era esse caso perdido.   Pela manhã, Ulisses me chamou e eu já sabia que era o Trevor me esperando para falar sobre o julgamento. Sinceramente, eu não sei se vou ser capaz de contar o que aconteceu, talvez eu deva jogar tudo para os ares e rir da cara dele. Eu preferia que a Sarah cuidasse do meu julgamento, não ele.   Entrei na sala de visitas e o cumprimentei de longe, ouvindo a porta atrás de mim bater e fiz massagem nos meus pulsos, já sem as algemas.   Sem delongas, ele começou a falar:   — O julgamento ainda não foi aprovado, está em análise, mas eu vou fazer o possível para poder…   — Qual é a sua com a Sarah? — fui direto e ele arqueou as sobrancelhas — em? — ele riu.   — A minha vida pessoal não te interessa.   Dei risada, molhando meu lábio.   — É que a Sarah veio aqui ontem — comecei a dizer, vendo ele enrijecer o corpo todo — e nós conversamos bastantes. Ela falou de você. Que são amigos.   — Acho que ela esqueceu de falar que nós transamos, na verdade, nós estamos fazendo sexo há um mês… eu acho.   Engoli em seco e me levantei.   — Você não vai ficar perto dela — rosnei, travando minha mandíbula — nem perto da garotinha.   Boquiaberta, ele veio ao meu encontro e ficou há meio metro de mim.   — Quem você pensa que é?! — questionou ele, exaltando a voz.   — Eu sou o cara que quase comeu ela nessa mesa ontem — o empurrei, vendo-o apático — sou o cara que ela beijou depois de ter ficado anos sem contato com um homem.   — Só isso? Você é só isso? — ele me desmereceu, apontando para mim — Você é um presidiário de merda que eu ajudo para conseguir mixaria.   — Para conseguir mixaria ou para ficar perto da Sarah? Porque olha… eu aposto que você não está fazendo nenhum esforço para me tirar daqui. Eu tenho certeza de que esses documentos nem chegam em quem se deve chegar.   Trevor me empurrou e ajeitou a gravata, pegando suas coisas.   — A Sarah não volta mais aqui. Disso você pode ter certeza! — Nikkei caminhou até a porta.   — Ciúmes? — provoquei.   — Na verdade, eu acho que você deveria ter. Eu estou saindo daqui e indo direto para casa dela, que com certeza não vai negar me ter na cama essa noite.   Respirei fundo e apertei minhas mãos. A ideia desse cara passando a mão naquele corpo me traz algo desconhecido. Quero espancá-lo.   Sem dizer nada, ele saiu da sala e me deixou atolado em suposições.   Dentre todas as alternativas, a que mais me assustava parecia mais coerente.   Fui para a minha cela e completei o último verso que faltava na letra da música.   “E, querida, eu acho que eu estou apaixonado por você”.   É patético, é frustrante, mas é a verdade.   Gosto dela.
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