A Calmaria Não é Perdão

1967 Words
Arthur passou a agir como se tivesse vencido uma guerra invisível. Não comemorou. Não anunciou. Apenas assumiu que o silêncio era rendição. Para ele, mulheres cansadas acabam cedendo. Sempre foi assim em sua lógica: resistência era uma fase, não uma decisão. Eu deixei que acreditasse. Passei a cumprir a rotina com precisão quase mecânica. Acordava no horário, tomava o café que ele sugeria, fazia pequenas caminhadas no jardim, trabalhava algumas horas no escritório improvisado da casa. Não reclamava. Não discutia. Não tocava no contrato. Não mencionava Bianca. Não questionava Helena. Arthur observava tudo com atenção disfarçada. — Você está melhor — disse numa manhã, apoiado no batente da porta. — O médico ficaria satisfeito. — O corpo responde quando o barulho diminui — respondi. — Viu só? — ele sorriu. — Às vezes, a solução é parar de insistir no conflito. Não respondi. Conflito não é algo que se insiste. É algo que se enfrenta quando não há mais como ignorar. E eu estava apenas adiando o enfrentamento. Não desistindo dele. Arthur começou a sair com mais frequência. Reuniões longas, jantares estratégicos, telefonemas em tom baixo. O império precisava funcionar, e ele acreditava que eu estava finalmente “estável” o suficiente para não representar risco. — Volto tarde — avisou numa dessas noites. — Não se preocupe. — Não me preocupo — respondi. Ele gostou da resposta. Quando a porta se fechou atrás dele, sentei no sofá e respirei fundo. A casa parecia menos opressiva quando ele não estava. Não mais segura — apenas mais silenciosa. Peguei meu celular e liguei para Miguel. — Ele acha que tudo voltou ao normal — falei. — Esse é o momento mais perigoso — ele respondeu. — Quando o agressor relaxa. — Eu sei. — Você está se sentindo segura? Olhei ao redor antes de responder. — Não. Mas estou consciente. — Consciência é o primeiro passo — disse ele. — Mas cuidado para não confundir estratégia com anestesia. — Eu não estou anestesiada — respondi. — Estou alerta. Desliguei e voltei ao silêncio da casa. Na manhã seguinte, Arthur voltou mais leve. Beijou meu rosto, perguntou como eu tinha dormido, comentou sobre o crescimento do bebê como se fosse algo que nos unia novamente. — Ele está forte — disse, colocando a mão sobre minha barriga. — Eu sinto. — Sentir não é o mesmo que cuidar — respondi, sem aspereza. Arthur me olhou por um instante mais longo do que o normal. — Você ainda está distante. — Distância não é abandono — falei. — É preservação. Ele não gostou, mas não insistiu. Helena ligou naquele dia. Arthur atendeu no escritório, mas não fechou totalmente a porta. Não precisava. A casa inteira funcionava como um corredor de ecos. — Ela está calma? — ouvi Helena perguntar. — Está — Arthur respondeu. — O susto resolveu. — Não baixe a guarda — ela alertou. — Mulheres silenciosas não são previsíveis. — Ela está grávida — Arthur disse. — Não vai fazer nada agora. Segurei o braço da cadeira com força. Não agora. A frase ecoou dentro de mim. Não como submissão, mas como confirmação. Ele sabia que eu não sairia agora. E isso o deixava confortável. À tarde, decidi testar algo pequeno. — Quero ir ao centro amanhã — disse durante o jantar. — Resolver umas coisas do escritório. Arthur ergueu o olhar. — Sozinha? — Com o motorista. Ele pensou por alguns segundos. — Tudo bem — respondeu. — Desde que volte cedo. Assenti. Aquilo era novo. Uma concessão mínima, mas real. Ele estava relaxando. E relaxamento gera falhas. No dia seguinte, saí. O trajeto até o centro me deu uma sensação estranha de normalidade. Pessoas andando apressadas, carros buzinando, a vida acontecendo fora da redoma em que eu estava presa. No escritório, resolvi questões práticas, falei com duas clientes, organizei arquivos. Nada que chamasse atenção. Nada que levantasse suspeitas. Antes de voltar, sentei num café e observei o movimento. Respirei fundo. O mundo seguia existindo. Eu ainda existia fora daquela casa. Quando voltei, Arthur estava no telefone. — Ela foi ao escritório — dizia. — Voltou tranquila. Ele desligou ao me ver. — Como foi? — Produtivo. — Cansativo? — Não mais do que ficar parada. Ele assentiu, satisfeito. — Você está se adaptando. — Não — pensei. — Estou sobrevivendo. Naquela noite, senti o bebê se mexer com força. Não era dor. Era presença viva, insistente. Algo em mim se firmou. Coloquei a mão sobre a barriga e fechei os olhos. — Ainda não — sussurrei. — Mas estamos chegando lá. Arthur dormia ao meu lado, confiante, convencido de que a tempestade tinha passado. Ele não sabia que calmaria não é perdão. A ideia não nasceu como plano. Nasceu como impulso. Foi numa manhã comum, daquelas em que o silêncio da casa parecia pesado demais para ser suportado. Arthur tinha saído cedo, uma reunião fora da cidade, retorno previsto apenas à noite. A funcionária estava na cozinha. O motorista, no pátio. Tudo parecia normal. Normal demais. Sentei na beira da cama e encarei a mala pequena no armário. Não uma mala de fuga. Uma mala de fim de semana. Nada chamativo. Nada que parecesse definitivo. Meu coração acelerou, mas não por medo. Por urgência. — Só algumas horas — pensei. — Só para respirar. Peguei documentos básicos, um pouco de dinheiro, o celular. Não levei roupas extras. Não levei lembranças. Levei o essencial. Como quem testa o mundo antes de decidir se ainda cabe nele. Desci as escadas com cuidado. A funcionária me viu. — Vai sair, senhora? — Vou resolver algo rápido. — O motorista já está à disposição. — Não — respondi. — Vou chamar um carro. Ela hesitou. — O senhor Arthur… — O senhor Arthur não está — completei. Saí antes que ela dissesse mais alguma coisa. No carro por aplicativo, senti algo próximo de liberdade. Não alegria. Liberdade ainda doía. Mas era um gosto diferente do ar que eu respirava há meses. O destino não era longe. Um hotel discreto no centro, nada sofisticado. Um lugar onde eu poderia sentar, pensar, existir sem ser observada. No caminho, o celular vibrou. Arthur. Não atendi. Minutos depois, outra ligação. Ignorei novamente. O telefone vibrou uma terceira vez. Uma mensagem. “Onde você está?” Fechei os olhos. Ele percebeu rápido demais. Cheguei ao hotel com o corpo tenso, mas a mente clara. Fiz o check-in sem dificuldade. Subi para o quarto. Tranquei a porta. Apoiei as costas nela por alguns segundos, respirando fundo. O silêncio ali era diferente. Não vigiado. Não carregado. Sentei na cama. — Só algumas horas — repeti. O celular tocou novamente. Arthur. Atendi. — Onde você está? — ele perguntou, sem rodeios. — Em segurança. — Isso não responde minha pergunta. — Não respondi porque não devo. Houve um silêncio curto do outro lado. — Você saiu sem avisar — ele disse. — Isso não é aceitável. — Eu não pedi permissão. — Você está grávida. — E lúcida. Arthur respirou fundo. Reconheci o som. Ele estava se controlando. — Volte para casa. — Não agora. — Damiana, não faça isso. — Isso o quê? — perguntei. — Ir para um lugar onde ninguém decide por mim? — Você está colocando tudo em risco. — Tudo o quê? — Sua saúde. A do bebê. Nossa estabilidade. — Sua estabilidade — corrigi. — Eu estou indo até você. Meu estômago se contraiu. — Não venha. — Diga onde está. — Não. O silêncio se estendeu por alguns segundos. — Você acha que isso é fuga? — ele perguntou, a voz mais fria. — Isso é imprudência. — É sobrevivência. — Você não tem condições de decidir isso sozinha. — Eu sou adulta. — Você está emocionalmente comprometida. — Você sempre diz isso quando não me controla. Arthur respirou fundo novamente. — Você está quebrando o acordo. — Eu estou respirando. — Volte agora — ele ordenou. — Não. Desliguei. Minutos depois, alguém bateu à porta do quarto. Meu corpo inteiro entrou em alerta. — Damiana — a voz de Arthur soou do outro lado. — Abra. Meu coração disparou. Ele tinha me rastreado. Sempre tinha. — Não vou abrir — respondi. — Não faça isso virar algo maior. — Você já fez. — Pense no bebê. A frase veio como um golpe baixo. — Não use isso — falei. — Você está colocando ele em risco. — O risco está na casa que você chama de lar. Houve silêncio. — Eu só quero conversar — ele disse, por fim. — Sem briga. Aproximei-me da porta, mas não abri. — Conversar não muda o fato de que você me prende. — Eu estou tentando proteger. — Proteção sem escolha é cárcere. Arthur bateu de leve na porta. — Abra. — Não. — Damiana, se você não abrir, eu vou precisar agir. — Aja — respondi, com a voz firme. — Você está me forçando. — Não — falei. — Você sempre escolheu agir assim. O telefone vibrou. Uma mensagem de Miguel. “Você saiu?” Respondi rápido. “Sim. Ele me achou.” A resposta veio quase imediata. “Não confronte. Não se isole. Não agora.” Arthur bateu de novo. — Isso não vai terminar bem. — Para quem? — perguntei. — Para você. — Você sempre acha que sabe o que é melhor. — Porque sei. — Não — respondi. — Você decide o que é melhor para você. O silêncio se alongou. Ouvi passos no corredor. Vozes baixas. Ele estava falando com alguém da segurança do hotel. Meu estômago virou. Eu tinha ido longe demais. Rápido demais. A porta foi destrancada por fora. Arthur entrou. Não gritou. Não avançou. Não perdeu a compostura. Isso era o mais assustador. — Você me obrigou a isso — disse, fechando a porta atrás de si. — Você não tinha o direito. — Tenho todos — respondeu. — Você é minha esposa. Está grávida. E saiu sem avisar. — Eu não sou sua propriedade. — Não aja como se fosse vítima de um sequestro. — É assim que me sinto. Arthur se aproximou devagar. — Você acha que eu vou deixar você sair assim? — perguntou. — Sem plano? Sem proteção? — Eu só queria respirar. — Respirar não exige fuga. — Exige quando o ar é controlado. Ele passou a mão pelo rosto. — Você está pior do que eu pensei. — E você está exatamente como eu temia. Arthur respirou fundo, tentando se recompor. — Arrume suas coisas — disse. — Vamos para casa. — Não. — Damiana. — Não. O olhar dele endureceu. — Não me obrigue a te expor. — Você já faz isso todos os dias. Arthur fechou os olhos por um instante. — Você não está pronta para sair — disse, mais baixo. — E eu não vou permitir que se machuque tentando. — Você não permite nada — respondi. — Você impõe. — Eu cuido. — Você controla. Ele não respondeu. Voltei para a mala, peguei o que tinha trazido. Arthur observava em silêncio. — Isso não acabou — falei. — Nunca acaba assim — ele respondeu. No carro, o silêncio era absoluto. Não houve discussão. Não houve acordo. Apenas a constatação dura de que eu ainda não podia fugir. Quando chegamos em casa, Arthur falou baixo, como se estivesse cansado. — Você me forçou a endurecer. — Não — respondi. — Você me mostrou até onde iria. Ele não respondeu. Naquela noite, deitada na cama que eu já não reconhecia como minha, coloquei a mão sobre a barriga. — Ainda não — sussurrei, com lágrimas silenciosas. — Mas um dia. A tentativa tinha falhado. Mas falhar não significa desistir. Significa aprender exatamente por que ainda não era possível. E eu tinha aprendido.
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